segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Espanuguês

No aeroporto:
"Y usted para onde vuela?"
"Para Lisbuela!"

domingo, 30 de agosto de 2009

Ajiaco

Ajiaco bogotano é uma sopa feita com três tipos de batatas diferentes, galinha, milho e servida com creme de leite, abacate e alcaparras. Estava a comer uma destas num restaurante popular em Zipaquirá quando vi uma menina de 4 anos a ser arrastada pelos cabelos pelo pai. Ela tinha ido para a rua. O ajiaco estava bom mas perdi o apetite...



estranho...

a árvore cresce para o céu

é preciso pará-la.

Zipaquirá

É uma cidade perto de Bogotá. A 2700 metros de altitude, por dentro de uma montanha, uma antiga mina de sal convertida numa enorme catedral. Leva quase duas horas a percorrer esta sacralização dos espaços onde por muitos anos, a duríssima vida de mineiro teve cenário.
Se não é só por oportunismo é interessanta que os cristãos rezem a Deus noas profundezas da Terra, mais perto de onde, a mitologia cristã colocou a morada do Diabo.

na mina de sal
já não há picaretas
só gregoriano.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Medellin 5

"Fué un plazer"
"Fué un infinito plazer"
"Con mucho gusto"
"Es un gran plazer"
"Que Diós le bendiga"

Ouvem-se estas frases centenas de vezes por dia nesta contraditória Colômbia: um dos países mais pobres da AL mas com um bom nível de alfabetização. As contradições estão latentes, prontas a saltar; depois de vencidas as resistências do medo (!!!!) as pessoas falam, por exemplo, de política com amargura e determinação.


água de côco -
o mais mode
depois do duro.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Medellin 4

Um murro no estômago, ou se quizerem um nó húmido na garganta.. Nas ruas centrais de Medellin um rapaz com talvez doze anos, sujíssimo, deitado no chão, talvez a pedir dinheiro. Tinha disquinésia (um tipo de Paralisia Cerebral) e olhava com os olhos fugidios mas significativos o movimento de pessoas no passeio. Estava sozinho, com as unhas enormes, cabelo inenarrável... um farrapo. Perguntei-lhe algo, não respondeu. Uma vendedora de rua ao lado disse "Dejelo... es un indigente". Talvez seja indigente mas porque o impediram de ser só "gente"? Às vezes a realidade devia vir embrulhada em algodão em rama... E ando eu práqui a pregar inclusão...

"pedras das calçadas -
estilhaços de sonhos
espalhados no chão"

Medellin 3

Nas ruas de Medellin, ao meio dia, o sol está a pique, a prumo sob a nossa cabeça com toda a sua opulência e desdenhando as vãs protecções que intrepomos entre ele e nós. Lasca bem em cima e, a esquina, parece-me ver a própria re-encarnação de Aknathon (ou será Montesuma?)

não faço sombra -
como estarão
os girassóis?

Medellin 2

Fartei-me de treinar sem saber para chegar aqui: li o Garcia marquez, bebi café da Colômbia, dancei com a Xaquira, conheci as esculturas do Brotero... enfim e finalmente aquie stou a cerzir todos estas peças. É verdade sim, que se nota uma força telúrica nesta terra. Colombo um navegador de competência duvidosa não se merecia ter tanta e tão linda terra evocando o seu nome...

Por favor:
coca
cola.

Medellin

vale de Aburra
prédios como formigas
no tronco dos pinheiros

acima das casas
e das nuvens
as montanhas.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Tourada

grosso,
escorre o sangue o touro:
é como o meu.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Respeito

Nos anos 60 do século passado Otis Reading um fantástico intérprete de música "soul" cantava uma música chamada "Respect". O refrão (espelhando a época de luta pelos direitos civis que então se vivia) era "Give some respect". Era um negro a gritar aos quatro ventos o que queria.
Mas...
O respeito pode-se pedir? Pode-se dar? Eu acho que não.
O respeito é como o ar. não se dá por ele excepto quando ele deixa de ser "normal". "Que ar tão puro!", "Que ar tão poluído", "Que ar tão enovoado" "Precisamos de ventilação"...
O respeito é como o ar porque quando se fala dele é porque ele já não é o que era, ou melhor o que devia ser... natural. O respeito faz parte da pessoa e quando alguém pede respeito é porque já (irremediávelmente) o perdeu. Quando se diz que se tem respeito por alguém é porque se acha que talvez não se devesse (ou fosse possível) não o ter.
"Give me some respect", I don't have to give it to you. It's your's or... you lost it for good...

Que rosa!
não
cheira.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Vida e água

Sempre ouvi esta associação "água é vida". Sempre a associei à produção da vida (a floresta versus o deserto). A água era a produtora da vida. Tudo bem!
Mas a água também é um parábola sobre a gestão da vida. Explicando: quando usamos para explicar o que fizemos, fazemos ou iremos fazer imagens, razões e interpretações que são fruto da nossa imaginação, isso quer dizer que estamos a encontrar caminhos para lidar com uma realidade que nos é incompreensível ou insuportável. E assim, a imaginação procura caminhos improváveis, impossíveis e criativos para encontrar uma lógica e uma razão para viver coerentemente.
A vida é pois como a água, sempre disposta a passar por cima, por baixo ou pelo lado qualquer obstáculo. O importante é a vigaem, é a força de viver. A realidade... bom... isso interessa menos do que esta força a seguir o seu caminho...


o chão
ficou empapado
dos dois lados da pedra

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Porto

E que dizer desta religião laica é "ser do Porto" ou "fazer as coisas à moda do Porto"? D. António Ferreira Gomes um dos mais eminentes habitantes do Porto dizia que os burgueses do Porto não são contra o rei a favor do bispo ou contra o bispo e afavor do rei são contra ou a favor de todos quando se trata de defender os seus interesses (cit: Helder Pacheco, Rev. Notícias, 16.8.09) É esta talvez a raíz do "bairrismo" que só é globalizado porque o tempo obriga senão o melhor pão do mundo continuaria a ser o que era vendido na loja da esquina. Um amigo meu (um bilhete postal do Porto) dizia quando a equipa de futebol de Portugal jogava que isso lhe era quase indiferente, mas quando jogava o FCP...
"Fazer as coisas à moda do Porto" tem muito a ver com olhar antes de mais os interesses da família, da cidade, dos "partisans", de quem nos ajudou ou pode vir a ajudar. E sobretudo gritar bem alto sobre as tradições democráticas e de imparcialidade da cidade...

corre a água
nos regos do quintal:
que seca, hem?

domingo, 16 de agosto de 2009

O caminho estreito para o longínquo Norte...

Bashô escreveu o livro com este título onde recolheu as impressões da sua peregrinação poética pelo Japão ao longo de mais de 2.000 quilómetros.
A "National Geografic" publicou um artigo sobre "A senda de Bashô" e Michael Yamashita, fotógrafo, ilustrou o artigo com fotos fantásticas.
Podem ver estas fotos em:

http://ngm.nationalgeographic.com/2008/02/bashos-trail/yamashita-photography.html

(Esta indicação recebi-a do haijun brasileiro José Marins. Obrigado)

Podem encontrar este artigo e as fotos na revista National Geografic (edição portuguesa) de Fevereiro de 2008. O artigo chama-se "No rasto de um fantasma" (p.60).

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Falar

"Quem muito fala pouco acerta..." É um risco que correm as pessoas como eu. Falo tanto que a média do que eu digo é baixa em impacto, credibilidade, pertinência, etc. No fundo eu creio na palavra: no efeito apaziguador, de entendimento, de compreensão, de relação e pedagogia da palavra. Não necessáriamente da minha... Mas "da palavra".
Isto porque cada vez que se fala mostra-se o que somos, o que pensamos, o que tememos e como vemos o mundo. Isso é (quase sempre) útil aos outros porque a identidade que construímos é a custa da constatação das diferenças. E como se vêem as diferenças? Muito pela palavra.
Ainda que não reconhecendo que é necessariamente uma qualidade, vou continuar a falar demais...


meio-dia de Verão -
canta o melro desde a alba
só agora o ouvi

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Espelho

Andar no mundo é como andar sobre a água: cada passada provoca um impacto que se (conforme o estado da água) se alarga em círculos de pequenas ondas.
É portanto grande a responsabilidade de existir: o que se faz e o que não se faz reprecute inexoravelmente para além da passada. Somos responsáveis e imputáveis. E "a ignorância da lei não justifica o seu não cumprimento"....


sete círculos
fez o meu pé na água -
eh pá! Tantos...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Tempos

O tempo é (com o espaço) um dos grandes organizadores da acção. Agir a "destempo" (antes ou depois) retira a pertinência e a utilidade à acção.
O livro de Qohéleth ou "O Eclesiastes", Salomão (cap. 3) fala do tempo como ele o via 1000 anos antes do nascimento de Jesus...


1
¶ Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
2
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
3
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
4
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
5
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
6
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
7
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
8
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.



Há tempo para tudo mas é a cada pessoa que compete julgar se "este" é o tempo de "juntar ou espalhar pedras".

De um e de outrou António Gideão dizia "... todo o tempo é de poesia"


quem me dera
agora ao meio-dia
o fresco da noite.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

10 de Agosto

Todos os dias podem ser marcos. Até podem ser "o vigésimo terceiro dia antes de acontecer alguma coisa " ou "11 dias depois de ter acontecido algo". Todos os dias podem ser marcos porque os marcos não estão nos dias mas nas pessoas.
Hoje 10 de Agosto de 2009 é para mim um marco. Estou certo que me movo, tal como as plantas para a luz, para a minha felicidade e para a dos que me rodeiam. E quanto ao resto... quem´somos para previsões?
Salvé dia 10 de Agosto de 2009!!!!!!!!!

levantei a pedra
e não vi nada debaixo dela -
só depois...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Tamanho

Ai o nosso tamanho.... em centímetros e em minutos. Pequenino, ínfimo, insignificante, mesmo. Como ampliar, dar grandeza, perenidade ao insignificante? Tantas as tentativas! A mitologia, a religião, a filosofia, mesmo a história nos procura dar a ideia que somos muito mais do que o "aqui e agora". E somos? Antes de responder... mas afinal quem é que vai dar a resposta? Se é o próprio... é suspeito, juiz em causa própria... se é outro... quem é esse outro? Portanto a resposta está inquinada mas mesmo assim, aí vai...
Somos mais do que o "aqui e agora" porque o "aqui e agora" são insignificantes que não valem o trabalho de um castanheiro a fazer uma castanha. Somos mais se conhecermos a insignificância. (Continuamos a ser insignificantes mas ao saber isso saímos da insignificância porque voamos além da biologia).
(Eh pá! Isto hoje está mesmo insignificantemente filosófico...)

a flor do castanheiro
já é um cacho de castanhas
só que não sabe.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Luazona

A mítica Lua Cheia de Agosto... Foi ontem... A Carmen, uma amiga do Brasil que dormiu em casa, olhou pela janela o Tejo com ondas de metal e a grande Lua. Saudou-a: " Enquanto olhar para mim eu vou olhar pra você, Lua maravilhosa!".

tudo se vê
e está encoberto -
Lua de Agosto.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Adrede

Mario Benedetti (1920-2009) publicou no fim da sua profíqua vida literária um livro de textos curtos com saborosas reflexões sobre o dia-a-dia. Intitulou este livro "Vivir Adrede" (2007, Santillana).
Confesso que a primeira coisa que fiz quando comprei o livro foi procurar saber o que queria dizer em espanhol "adrede". Descobri que quer dizer "de propósito", "expressamente". Fiquei foi surpreendido quando li que a mesma palavra existia e queria dizer o mesmo em português! Quer dizer, viajei via espanhol para conhecer mais uma palavrinha preciosa do infindável tesouro que é lingua que recebi de presente quando nasci.

adrede para te ver
por ruas desconhecidas
sem rumo.

Mergulho

debaixo de água
um fole ansioso -
silêncio surdo