Subiram para a cara
as rugas
das impressões digitais,
O tempo que estava adiante
saltou por cima
e ficou lá atrás,
a gordura do bife
migrou do prato
para o abdomen.
Oxalá que o mundo
as ideias e os sonhos
ainda estejam lá, à frente.
.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Fevereiro 2012
Setenta e quatro
quinze e meio por cento
menos treze e meio
quase metade
passou do dobro
dezassete vírgula três
foram quase mil milhões
dez cêntimos a mais
setecentos e vinte euros a menos
trinta e cinco cêntimos por quilómetro
e vinte e três do IVA
dá vinte e dois euros a cada um
vinte e dois por cento da população
os números falam por si
eu falo por mim.
quando vão eles falar por mim?
e deixar-nos fora de si?
quinze e meio por cento
menos treze e meio
quase metade
passou do dobro
dezassete vírgula três
foram quase mil milhões
dez cêntimos a mais
setecentos e vinte euros a menos
trinta e cinco cêntimos por quilómetro
e vinte e três do IVA
dá vinte e dois euros a cada um
vinte e dois por cento da população
os números falam por si
eu falo por mim.
quando vão eles falar por mim?
e deixar-nos fora de si?
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Brownies
nos teus olhos
boiam prazeres longuínquos
que só ao teu corpo sabem.
na fresta das pálpebras
escancaram-se segredos
que eu só adivinho.
inquietas, as pupilas,
iludem na sua paz
elas, que já viram todas as guerras.
boiam prazeres longuínquos
que só ao teu corpo sabem.
na fresta das pálpebras
escancaram-se segredos
que eu só adivinho.
inquietas, as pupilas,
iludem na sua paz
elas, que já viram todas as guerras.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Doença de Futuro
A doença do futuro
queima a boca com café quente
e dá escaras no assento
de tanto esperar pela gente.
A doença do futuro
dá pressa de chegar "lá"
mas o lá vai sempre andando,
o lá nunca chega cá.
A doença do futuro
dá cegueira do presente
vê por defeito o passado:
só vê o que está à frente.
A doença do futuro
é de natureza mortal:
passado de vez o passado
só o presente é real.
R a moralidade:
Quem quizer fugir ao fim
não corra para o futuro
finque os pés no presente
inteiro, puro e duro.
queima a boca com café quente
e dá escaras no assento
de tanto esperar pela gente.
A doença do futuro
dá pressa de chegar "lá"
mas o lá vai sempre andando,
o lá nunca chega cá.
A doença do futuro
dá cegueira do presente
vê por defeito o passado:
só vê o que está à frente.
A doença do futuro
é de natureza mortal:
passado de vez o passado
só o presente é real.
R a moralidade:
Quem quizer fugir ao fim
não corra para o futuro
finque os pés no presente
inteiro, puro e duro.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Sete anos - Homenagem a Jacob
Sete anos de suspiros
a andar sobre alfinetes
sete, ao todo sete,
a encostar devagar o portão
e a mandar calar o galo de madrugada.
engrossou na boca a saliva
e os lábios quase colaram
o olhar foi para o lado
e a coluna para baixo
sete anos... bem medidos.
clareia agora o nevoeiro
e o disco vê-se ao longe:
dentro do peito palpita
o coraçao e a liberdade
a liberdade de saber e de não saber!
Acabaram os sete anos!
a andar sobre alfinetes
sete, ao todo sete,
a encostar devagar o portão
e a mandar calar o galo de madrugada.
engrossou na boca a saliva
e os lábios quase colaram
o olhar foi para o lado
e a coluna para baixo
sete anos... bem medidos.
clareia agora o nevoeiro
e o disco vê-se ao longe:
dentro do peito palpita
o coraçao e a liberdade
a liberdade de saber e de não saber!
Acabaram os sete anos!
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Um novo tempo
Tem sido muito discutido se a nossa estrutura biológica e sobretudo neuropsicológica é compatível com a avalanche de informação, interesses, tarefas, ocupações, compromissose pressas que atiramos para cima de nós. Eu acho que lá ser compatível é... mas deixa-nos num estado absolutamente lastimoso...
gosto de todos!
O meu amor
mede-se pela rapidez.
gosto de todos!
O meu amor
mede-se pela rapidez.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Dragão
Aí vem o dragão!
Deitando fogo pelas fuças
aí vem o dragão!
De escamas reluzentes,
de olhos esgazeados,
aí vem o dragão!
ora corre ora voa
ora aquece, ora queima
ora defende, ora ataca.
aí vem o dragão!
levantamos os olhos para ele
esperamos que ele fale
e da boca enorme e chamuscada
saim palavras possíveis
compreensíveis e justas.
aí vem o dragão!
tem tudo o que não temos:
distância, tamanho, fogo
poder, couraça, força e astúcia.
Será que nos entorna a sopa
e tapa os caminhos de casa?
aí vem o dragão!
Deitando fogo pelas fuças
aí vem o dragão!
De escamas reluzentes,
de olhos esgazeados,
aí vem o dragão!
ora corre ora voa
ora aquece, ora queima
ora defende, ora ataca.
aí vem o dragão!
levantamos os olhos para ele
esperamos que ele fale
e da boca enorme e chamuscada
saim palavras possíveis
compreensíveis e justas.
aí vem o dragão!
tem tudo o que não temos:
distância, tamanho, fogo
poder, couraça, força e astúcia.
Será que nos entorna a sopa
e tapa os caminhos de casa?
aí vem o dragão!
Empédocles
Tenho lido com assombro a "Antologia da Poesia Grega Clássica" - Portugália Editora. São revelações repetidas ao ler o que homens e mulheres tão distantes de nós no tempo pensaram e exprimiram com tanta beleza e profundidade. Hoje cito uma estrofe de Empédocles de Agrigento que, no sec. V antes de Cristo, escrevia assim:
Porque é impossível que alguma coisa possa
nascer do que não existe e nunca
se viu nem ouviu dizer que o que existe
deve desaparecer. O que existe
existirá sempre, onde quer que se apoie.
Porque é impossível que alguma coisa possa
nascer do que não existe e nunca
se viu nem ouviu dizer que o que existe
deve desaparecer. O que existe
existirá sempre, onde quer que se apoie.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Oportunidades
Encorajamos as nossas crianças a tentar. Tentar mesmo errando. Seguindo aquela máxima de "errar, errar muito, errar cada vez melhor". No fundo, transmitimos a ideia que não é importante errar o importante é tentar (e tentar cada vez melhor). Mas o certo é que esta perspectiva só funciona em alguns domínios. Poder-se-à dizer isso a um cirurgião? A um engenheiro que constrói uma barragem?
Mas hoje queria refletir sobre o erro em Educação. Acredito que é importante que a criança tenha espaço para errar (e refletir sobre o erro) em Educação. Mas a Educação enquanto processo é igual a uma cirurgia: só se tem uma oportunidade. Nunca mais aquelas crianças voltarão a ser crianças; nunca mais a Educação poderá dizer: - "Desculpa lá, enganei-me!".Contemplar o erro é uma estratégia pedagógica não é um desígnio da Educação.
pedra no ar:
- Pára!
Tarde demais.
Mas hoje queria refletir sobre o erro em Educação. Acredito que é importante que a criança tenha espaço para errar (e refletir sobre o erro) em Educação. Mas a Educação enquanto processo é igual a uma cirurgia: só se tem uma oportunidade. Nunca mais aquelas crianças voltarão a ser crianças; nunca mais a Educação poderá dizer: - "Desculpa lá, enganei-me!".Contemplar o erro é uma estratégia pedagógica não é um desígnio da Educação.
pedra no ar:
- Pára!
Tarde demais.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Gulbenkián
Sempre gostei de biografias. Conhecer as pessoas por detrás da sua obra, por detrás que aquilo que eles quiseram que ficasse público da sua acção. Na verdade, sempre me apaixonou o dilema "o homem é maior que a obra" ou "a obra é maior que o homem".
Vem isto a propósito da exposição "Memória do Sítio" que está Gulbenkián e que mostra a casa da Avenue Iéna e alguns detalhes da vida do celebrado colecionador. Uma das partes que mais me interessou foi a entrevista em video em que o neto de Gulbenkián falava do quotidiano da casa. Enfim, ouvimos algumas bizarrias sobre a extraordinára meticulosidade do seu avô e ainda medidas estranhas que salvaguardavam a valiosa coleção. Por exemplo: só cinco amigos da filha de Gulbenkián podiam - depois de cuidadosamente examinados - entrar em casa; os outros encontravam-se com a filha nos bancos da rua onde o mordomo lhes ia levar as bebidas...
Quantas perguntas... Mas só uma: que valor para ele tinham as pessoas comparadas com as peças da sua coleção? Será que alguém alguma vez olhou nos olhos do experiente arménio e lhe disse: "Gostava que me tratasse com uma das sua peças mais queridas: mas sou só uma pessoa".
uma flor
um desenho de uma flor:
qual levo?
Vem isto a propósito da exposição "Memória do Sítio" que está Gulbenkián e que mostra a casa da Avenue Iéna e alguns detalhes da vida do celebrado colecionador. Uma das partes que mais me interessou foi a entrevista em video em que o neto de Gulbenkián falava do quotidiano da casa. Enfim, ouvimos algumas bizarrias sobre a extraordinára meticulosidade do seu avô e ainda medidas estranhas que salvaguardavam a valiosa coleção. Por exemplo: só cinco amigos da filha de Gulbenkián podiam - depois de cuidadosamente examinados - entrar em casa; os outros encontravam-se com a filha nos bancos da rua onde o mordomo lhes ia levar as bebidas...
Quantas perguntas... Mas só uma: que valor para ele tinham as pessoas comparadas com as peças da sua coleção? Será que alguém alguma vez olhou nos olhos do experiente arménio e lhe disse: "Gostava que me tratasse com uma das sua peças mais queridas: mas sou só uma pessoa".
uma flor
um desenho de uma flor:
qual levo?
domingo, 15 de janeiro de 2012
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Certo!
está escrito na areia
e também na água
que as tradições não acabm
e que o homem
há-de mudar.
Escorre pelo peito uma gora
turva e fumegante
ela, experiente em tudo,
apesar de nunca ter visto o sol.
e também na água
que as tradições não acabm
e que o homem
há-de mudar.
Escorre pelo peito uma gora
turva e fumegante
ela, experiente em tudo,
apesar de nunca ter visto o sol.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Ainda o mesmo tema...
Dizem que sou engenheiro
mas eu tinha dúvidas.
Pendurei na parede o meu diploma:
agora sim, sou engenheiro...
Será que o eu sou
é o que os outros acham que eu sou?
E o que valho
é o que os outros acham que eu valho?
São eles que estão certos?
Mas eles nem estão de acordo...
uns acham que sim
outros têm a certeza que não...
E eu? Que acho?
Afinal sou engenheiro,
sinto-me engenheiro
ou não?
mas eu tinha dúvidas.
Pendurei na parede o meu diploma:
agora sim, sou engenheiro...
Será que o eu sou
é o que os outros acham que eu sou?
E o que valho
é o que os outros acham que eu valho?
São eles que estão certos?
Mas eles nem estão de acordo...
uns acham que sim
outros têm a certeza que não...
E eu? Que acho?
Afinal sou engenheiro,
sinto-me engenheiro
ou não?
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Eduardo Lourenço
Já escrevi aqui neste blog uma reflexão sobre a justiça na avaliação dos méritos próprios. Na altura defendi que somos nós próprios os melhores avaliadores do que fazemos porque, em síntese, só nós conhecemos realmente e por dentro os motivos, as limitações, o conhecimento e as intenções como que cada um dos nossos actos é produzido.
Lendo há dias a interessantíssima entrevista que o JL publicou com Educardo Lourenço (28 de Dezembro de 2010) lá encontrei:"Não há ninguém para nos ler: nós somos leitores do nosso próprio mistério" Não poderia estar mais de acordo: nós somos lidos e leitores e isso dá-nos uma dupla dimensão que casa o humano com o natural: o que existe e o que é representado; enfim, o "meu eu" e o "meu outro".
antes de olhar para o céu
nunca tinha visto este azul -
pelo menos desde ontem.
Lendo há dias a interessantíssima entrevista que o JL publicou com Educardo Lourenço (28 de Dezembro de 2010) lá encontrei:"Não há ninguém para nos ler: nós somos leitores do nosso próprio mistério" Não poderia estar mais de acordo: nós somos lidos e leitores e isso dá-nos uma dupla dimensão que casa o humano com o natural: o que existe e o que é representado; enfim, o "meu eu" e o "meu outro".
antes de olhar para o céu
nunca tinha visto este azul -
pelo menos desde ontem.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Fim
acabei o trabalho
ou foi o fim que me encontrou?
um longo cipreste...
da árvore ao chão
a primeira e última vez
que voa a folha.
ou foi o fim que me encontrou?
um longo cipreste...
da árvore ao chão
a primeira e última vez
que voa a folha.
Manoel de Barros
Há muito que a poesia de Manoel de Barros, poeta brasileiro nascido em 1916, me interessa por três razões: a primeira pela enorme liberdade que tem de abusar da língua levando-a até às portas do erro, em segundo lugar pela ligação que tem à natureza sobretudo aos animais de "ao pé da porta" e por fim pela filosofia "Caeiriana" que embebe os seus versos. É um poeta que sempre recompensa o seu leitor com a visão de uma aresta que ainda não foi limada pelo lugar comum.
E aqui deixo um pedaço que gostei particularmente:
-Para entender nós temos dois caminhos:
o da sensibilidade que é o entendimento do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento do espírito.
Eu escrevo com o corpo
Poesia não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser uma árvore
Manoel de Barros
E aqui deixo um pedaço que gostei particularmente:
-Para entender nós temos dois caminhos:
o da sensibilidade que é o entendimento do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento do espírito.
Eu escrevo com o corpo
Poesia não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser uma árvore
Manoel de Barros
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
2012
2012
tem um ar redondinho
o número deste vizinho:
simétrico e todo par
e uma dúzia para terminar.
Que fofinho vem no bojo!
Mas que trará no estojo?
Será uma escavadora
Feita mala de senhora?
Será que se fez par
para melhor nos escachar?
Ou será que nos quer dar um sinal
que afinal nada vai correr mal?
Ano Novo:
Que terá dentro o ovo?
tem um ar redondinho
o número deste vizinho:
simétrico e todo par
e uma dúzia para terminar.
Que fofinho vem no bojo!
Mas que trará no estojo?
Será uma escavadora
Feita mala de senhora?
Será que se fez par
para melhor nos escachar?
Ou será que nos quer dar um sinal
que afinal nada vai correr mal?
Ano Novo:
Que terá dentro o ovo?
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Málaga
ficou uma paleta de pintor
esquecida nesta terra...
e hoje o crepúsculo explodiu em cores:
vermelhos, verdes, azuis, cinzentos...
o céu é enorme e leva a todo o mundo.
Pablo: a tua terra era pequena para ti
e tu, apesar de tudo,
fizeste-a crescer
esquecida nesta terra...
e hoje o crepúsculo explodiu em cores:
vermelhos, verdes, azuis, cinzentos...
o céu é enorme e leva a todo o mundo.
Pablo: a tua terra era pequena para ti
e tu, apesar de tudo,
fizeste-a crescer
Natal 2
- Ainda dizem que os amigos são raros... eu estou farto de receber mensagens de Natal. E este ano ainda mais que o ano passado que já tinha sido bem bom. Até agora já me mandaram os desejos de calorosas, santas, felizes, fantásticas e prósperas festas um batalhão de amigos do peito. Cito só alguns para saberem: a EDP - Energia de Portugal, a Digal, a Worten, a Rádio Popular, o IKEA, o Corte Inglês, o Corte Fiel, o Giovanni Galli, o Continente, o Pingo Doce,... enfim já nem me lembro bem quantos mais.
Oxalá que não me cortem muito no salário... se mantiver o meu nivelzinho de vida posso continuar a consumir e, enquanto for consumidor, não me faltam amigos. Viva a cidadania pelo consumo! Com sumo?
desfeito o feito
tamborilo na mesa
um fado chinês.
Oxalá que não me cortem muito no salário... se mantiver o meu nivelzinho de vida posso continuar a consumir e, enquanto for consumidor, não me faltam amigos. Viva a cidadania pelo consumo! Com sumo?
desfeito o feito
tamborilo na mesa
um fado chinês.
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