quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Tsukimi 1

A Associação de Amizade Portugal-Japão vai promover no dia 23 de Setembro (quinta-feira) um Tsukimi – contemplação da primeira Lua de Outono.
Este evento inicia-se com um jantar no Hotel Altis – Belém
Variedade de Sushi & Sashimi (Peixe cru laminado) - 18 peças por pessoa
Gelado de Chá Verde
Bebidas: Vinho Br. Sauvignon e Arinto ; Vinho Tinto Tinta Roriz e Touriga Nacional; Saké; refrigerantes e águas minerais
Após o jantar (cerca das 21h30) os participantes dirigir-se-ão ao jardim do Japão (frente ao Hotel) e aí serão lidos em português alguns haiku clássicos sobre este evento.
Os participantes serão então convidados a escrever um ou vários haiku sobre a Lua de Outono. Estes poemas serão depois lidos e comentados em grupo.
O preço do jantar é 35,50 Euros e, os participantes que assim o desejarem poderão optar só pela presença no programa do Jardim do Japão.
Todos são bem –vindos e esperamos uma noite de boa gastronomia, poesia e convívio.
Junto enviamos ficha de inscrição que deverá ser enviada para a D. Maria de Lurdes em aapjgeral@yahoo.com, ou para Rua de Artilharia Um nº104 -5ºesq, poderá ainda telefonar para o nº 96 471 2096 para esclarecimentos.

Fim de Verão...

e se atrás deste
- já no fim -
não viesse outro dia?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

2 haiku de Verão

manhã na praia
só buracos na areia -
vento da noite.

um poema -
o que sobra das palavras
depois do apara-lápis.

domingo, 29 de agosto de 2010

Inclusão

Tanto falo de "Inclusão"!!! Inclusão práqui, Inclusão práli...
Três perguntas sobre a Inclusão:

1. Estar incluído é obrigatório?
2. Se eu achar que o ambiente em que me querem incluir é de má qualidade, tenho mesmo assim que aceitar?
3. Estar incluído é só por si um critério de qualidade de vida?

E três saídas:

1. A Inclusão é quase sempre boa
2. Não é boa quando os ambientes são de fraca qualidade
3. Mais vale só que mal acompanhado...

E um haiku:

dia do professor:
hoje ninguém olha
para mim.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

(Im)Possível

Tornar a vida
possível
só através de crenças no impossível
ou pelo menos no improvável:
na eternidade
ou no que se suspeita que há
para lá do horizonte.

Também há
quem vive a vida dos possíveis,
do provável e do certo.
Mas talvez a vida
não saiba ao mesmo...
(ou sabe mas só acendem a esperança
debaixo do lençol).

domingo, 22 de agosto de 2010

Viajar 3

Chega de viajar!
Já olhei para a televisão sem ver,
Já fui passear a Belém
Já dancei contigo
Já reli o Pessoa e ouvi o Bach
Já comprei o totoloto
Até já atravessei de barco para Cacilhas.
Tenho de parar de viajar:
Para a semana tenho um congresso em Espanha.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Viajar 2

chego de viagem -
agora sei a cor do tapete
de minha casa.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Viajar

Tempo de Verão, de féris e de viagens. Muito se fala agora do "bom que é viajar" e neste campo se encontram os mais díspares valores: há quem viaje para "dizer que já lá esteve", há quem viaje para "ver", há quem viaje para não ficar parado, etc., etc.
Lembrei-me de um excerto do "Livro do Desassossego" na excelente edição de Teresa Sobral Cunha da "Relógio d'Água" (pp.511):

"Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma".


Fernando Pessoa que tanto viajou sem quase sair de Lisboa sabia bem que viajar é bem mais que mudar de lugar.
(E agora com a tão maior facilidade de mudar de lugar, a ânsia de viajar criou uma "certificação da confusão". Eu estive lá, eu vi (penso que vi...) portanto... é verdade. É verdade! É verdade!! É verdade!!!)

Concurso Internacional de Haiku

A Associação de Amizade Portugal-Japão vai organizar um concurso Internacional de Haiku. O tema do concurso é o mar e a viagem comemorando os 150 anos da ssinatura do Tratado de Paz Amizade e Comércio entre Portugal e o Japão. O regulamento do concurso vai ser divulgado no princípio de Setembro e o concurso estará aberto até Dezembro. Poderão concorrer poesias haiku escritas em português e em inglês.
É o primeiro concurso deste tipo realizado em Portugal e portanto esperamos uma participação significativa de poetas portugueses.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Outra forma

Reforma. Re forma. Ter outra forma. Criar outra forma de vida. Reformar a vida.
Ontem:
- estás reformado?
- Não, ainda estou reformado...
O que vem depois? Ou esta é a última forma da minha vida?



assumou a minhoca -
era alvorada
ou crepúsculo?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Haiku de Chave

Aqui fica o resultado de um mini-workshop de haiku que realizei com crianças, jovens e adultos em Chave, concelho de Arouca. Como lá fui parar? Bom, um convite de dois militantes do Bem chamados Bonina e Pedro que lá criaram uma organização chamada "Semente de Futuro".
Caros Bonina e Pedro: a semente é boa, espero que o chão a receba e a alimente.
Aqui ficam os haiku:



pele do cobra
em cima da rocha -
arrepio.


uma cobra à sombra
ao lado do ribeiro -
Que sorte!


fio de água
ressuma das pedras -
tranquilidade.


uma árvore -
mil verdes
num tronco.


ouço água a cair
e de repente
já não estou cansado.


o som da água
aponta o moínho
entre o verde.


junto ao ribeiro
uma bica de água
ouço a frescura.


o moinho
tem saudades
do grão.


caminho de infância -
agora o moínho
está mais perto.


na cascata
só o musgo -
e toda a beleza.


na Natureza
o raro é belo -
o comum também!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Chave

Chave. Perto de Arouca. Um vale com uma igreja lá no fundo. Tudo verde salpicado de casais brabcos e laranja. Cheira a figueira e caruma. Cá estão as cigarras acompanhadas por um longínquo martelar. E um sino, de meia em meia hora a dizer: "Estou aqui e enquanto eu estiver, tu estarás também!".

o neto e o avô
sob as velas do moinho -
a vida passa.


ramo seco
e os ouriços moços -
no mesmo castanheiro.

uma cigarra
arrasta a tarde
no seu canto


a badalada
entra pela floresta
como uma faca.


uma carvalha
de vestido comprido -
despe-te! É Verão!


no campo
só inventamos
cidades imperfeitas



salada na mesa
todo o mundo
quer lá estar...

domingo, 8 de agosto de 2010

Verão

crepúsculo de Verão -
tarda
a paz da noite.

sábado, 7 de agosto de 2010

Opiniões "Do outro lado do mundo"

O livro "Do outro lado do Mundo" tem recebido comentários muito encorajadores o que mostra que a ideia do livro é correcta e tem muito potencial.
Deixo aqui duas opiniões de José Marins e Nelson Savioli, ambos poetas de haiku do Brasil:






Caro David, colegas

Estou encantado com os haicais dessas
crianças portuguesas e neozenlandesas.
Belos, líricos, objetividade e criatividade,
percepções!
Destaco estes:
-
Primavera!
Na sombra
A relva está mais fria.
-
Leonor Nunes, 6 anos

[É uma haicaísta pronta! E zen!]

Neste galho
Estão as cores todas
Do arco-íris.
-
Sara Ferreira, 6 anos

[Poesia e senso perfeito de observação.
Talvez o haicai mais belo da coletânea.]

O uivar do lobo
Empurra o vento
Para a frente.
-
Afonso Cabido, 5 anos.

[Só Basho escreve assim! Esse menino vai
longe registrando sensações poderosas como
esta.]

Parabéns ao editor David e ao Natsuishi e os
da equipe.

Grato pelo presente.

mia o meu gato ---
rosnado de arrepiar
no seu ronronar
-
josé marins






Dear David,

Acabo de receber o tocante livro com poesias de crianças de Portugal e da Nova Zelândia. Bacana que a obra tenha se originado de um encontro seu com o neozelandês na Lituânia. Como de costume com as crianças que são instadas a escrever haiku, inúmeros tercetos do livro são muito bons. Ficou bastante interessante colocar lado a lado os haiku das crianças lusitanas e neozelandesas.

Se tivesse que escolher um dos poemas do livro, ficaria com este de um aluno de nove anos:

As pessoas colecionam

Porcelana antiga -

Os cães apanham ossos.

[Jake Wielsma]

Parabéns pela iniciativa. Muito obrigado em compartilhar comigo o resultado dessa aproximação de antípodas pela poesia. Forte abraço,

Nelson

José Marins

Já por várias vezes aqui falei da fina sensibilidade e conhecimento profundo que o poeta brasileiro José Marins tem do haiku. Este poeta escreve regularmente numa lista de discussão chamada "haicai - l" e nela emite frequentemente opiniões com vista a ajudar os mais novatos a escrever haiku.
Publicou há poucos dias o texto que aqui reproduzo, depois de óviamente ter obtido o seu consentimento para tal...



1
O haicai não é um poema enumerativo, que junta fatos com coisas, cujos significados estão mais na subjetividade do autor do que na objetividade da leitura, do leitor. O haicai só vai existir de fato na leitura do leitor.
(O poeta do haicai deve ser o seu primeiro leitor.)

2
Há um sentido que só se realiza no haicai.
Poética existe em toda a linguagem humana, e, principalmente, no poema. Mas, a poética do haicai só existe nele. Quando dissemos que um poema é um terceto não é para desqualificar o poema de quem o fez, mas para dizer que ele não chega a realizar o haicai.
Leia isto:
-
Na névoa da aurora,
a última estrela
subirá pálida.
-
Cecília Meireles

Um leitor que desconhece poderia ler neste belo terceto um haicai. E por que não o é?
O haicai fala desta névoa e não de uma névoa genérica como se lê no terceto.
No haicai o poeta vê aqui/agora a estrela a subir ou subindo.
No terceto a estrela subirá, é futuro.
O haicai não traz o tom de aforismo, este terceto é quase um.
Só para dizer algumas diferenças. Entretanto, não estou dizendo que o terceto não é belo, ele é apreciável, emociona, convence como linguagem poética, como poema.
Porém, não é um haicai.

O sentido que só se realiza no haicai é uma qualidade denominada haimi.

Se o poema não tiver certas características ele não realiza o haimi, o sentido do haicai.

Ele, às vezes, surge como um Ah!, um pequeno eureka (que pode ir do mínimo estalo ao máximo de estalo para alguém), pode chegar a ser um insight para outros.

Leia este:
-
névoa da manhã
dissipando devagar ---
a última estrela
-
Independente de ser um bom haicai, de você gostar ou não, ele tem os "componentes". A visualidade que ele nos traz sustenta o haimi, um sentido diferente do terceto de Cecília.

3
Para buscarmos o haimi do nosso haicai visual, temos que observar se ele traz uma linguagem visual. Sem inventar muito, há uma visualidade que pode ser buscada.

Tome-se a cena haicaística, encontre o detalhe que se tornará o haicai, ou se ele se apresenta (aos olhos treinados!), busque a linguagem que faz sentido haicaístico.

Alguns elementos são mais visuais que outros.
Veja esta relação de termos que são apropriados à visualidade:
- cor, brilho, nitidez, luminosidade, foco, tamanho, distância, movimento, velocidade, localização, bordos, proporção, dimensão, composição, pintura, desenho, etc.
-
Aviso: Estas são considerações pessoais, relativizadas. Comentários são bem vindos.

Um abraço,
-
vento cortante -

enrolado na bandeira

passa o torcedor

-

josé marins

terça-feira, 3 de agosto de 2010

The gap...

Uma pergunta que me tem andado na cabeca: Porque e que nos que sabemos o que fazer nao o fazemos? Porque sabendo como fazer bem, fazemos mal? Como sabendo o que nos aproxima da felicidade, fazemos o que nos junta a tristeza?
Hoje alguem dizia que precisamos de maos, de cabeca e de coracao. Se calhar nao fazemos o que devemos porque algum destes tres elementos falta. Sera?
(Escrito em Belfast e portanto sem acentos...)

terça-feira, 27 de julho de 2010

A meta...

Só cheguei
verdadeiramente
onde não
quis chegar.

As metas,
que eu pensei destinos,
eram engodos.
Depois de uma
veio outra...
sem parar nunca.

Quando sinto onde estou
vejo que o destino
é o caminho
e avanço por ele
na desesperança
de encontrar um lugar.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Tsukimi

No dia 23 de Setembro a Associação de Amizade Portugal - Japão vai organizar um Tsukimi. Trata-se da contemplação da primeira lus de Outono, o tempo em que a Lua está mais próxima da Terra e se apresenta maior (enorme...) e amarelada (lindíssima...).
Quase todas as culturas celebram esta primeira Lua de Outono (A "Lua do Caçador") e os japoneses dedicam-lhe um afecto especial organizando festas em que a contemplação e a celebração da Lua são o tema central.
E nós vamos organizar um Tsukimi. Antes uma refeição japonesa no Restaurante Altis de Belém e depois, no jardim japonês frente ao Tejo vamos ler poesias, contemplar a Lua e fazer haiku.
Vamos lá marcar na agenda: 23 de Setembro!



Lua de Outono -
só, no banco do jardim,
um idoso sorri.

sábado, 17 de julho de 2010

Richard Zimler

Falo hoje do livro do escritor Richard Zimler "Love's voice: 72 kabbalistic Haiku". São 72 haiku impregnados de espiritualidade e de contacto com a transcendência. Refere-se a un Yavé que apesar de diferente e distante, se aproxima paradoxalmente do quotidiano nos homens. Aqui e ali os poemas mostram algum pendor de interacção e mesmo de pregação ao leitor.
A forma é muito bela e os poemas têm o fundamental do haiku: leveza e concisão.
Deixo aqui dois deles:

Smell the Lord's flowers
and take shade under his leaves,
then harvest yourself.

Only if we face
death do we get a chance to
glipse what lies beyond.


Congratulations Richard!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

As reacções

Temos tido algumas reacções à publicação do livro. Não muitas que os portugueses não são muito de dizer que está bem quando julgam que está bem... Em Portugal devemos contar como votos a favor as abstenções e se for assim, estamos muito felizes com as manifestações sobre o "Do outro lado do Mundo".
Das que se manifestaram gostaria de realçar uma: uma mãe que mandou uma mensagem a dizer: "Hoje a história de adormecer foi o livro de haiku. Muito bonito!".

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Uma autora e o editor...


Mesmo no dia em que saiu o livro, o editor teve o privilégio de se fazer fotografar com uma das autoras: Melissa de 5 anos.

E aqui fica o registo...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Verão

noite de Verão -
a roupa sai do corpo
do avesso.




praia ao crepúsculo -
a areia parece
não ter grãos.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Já saiu!!!


Caros amigos:


Como tinha anunciado há uns dias atrás, já está publicado o livro "Do outro lado do Mundo". Este livro tem 52 haiku sendo 26 de crianças portuguesas e 26 de crianças da Nova Zelândia. É um projecto muito bonito e em que se aprende que "os braços e as vozes das crianças, ainda que pareçam pequenos e frágeis, são maiores do que a Terra quando querem abraçar e cantar juntos". (Da introdução)
Há uns poucos exemplares para distribuir pelos afectos ao blog. Manifestem-se!

E vejam a capa!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ai os políticos

Desta vez, este "ai" não é decepção ou de desencanto: é de surpresa. A política e a literatura já se cruzaram muitas vezes com poetas e escritores a desempenhar funções políticas. Umas vezes se dão bem outras (talvez a maioria) não tão bem...
É menos comum que pessoas que fizeram uma carreira política se deixem levar pela literatura e sobretudo tenham a ousadia de publicar o que escrevem.
O holandês Herman Van Rumpuy, presidente da Comissão europeia, acaba de publicar um livro de haiku. UAU!!!!!!!
Deixo aqui ficar dois dos seus poemas em inglês. (Eu acho que ele sabe mesmo do ofício...)


Around six,
birds ushering in the morning
audible spring.


The cold of frost
chiselsfine shoe-
tracks in the clay.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Concurso Internacional de Haiku

Em primeira mão: a Associação de Amizade Portugal - Japão, vai organizar um Concurso Internacional de Haiku. Os detalhes serão informados durante Setembro mas já podem ir afiando o lápis... Os poemas serão apresentados em inglês e em português.
"FAPJ International Haiku Contest", soa bem?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O ano da morte de José Saramago

É inevitável falar hoje da morte do escritor José Saramago. Eu não me encontro entre os indefectíveis admiradores da sua prosa e mesmo de algumas das suas ideias. Disse-o várias vezes e até neste blog.
Mas a morte, tal como a noite, envolve a realidade numa aura de recato, de distância, de respeito, de pausa. E era assim que eu queria celebrar a morte de Saramago: lembrando com distância e véu o tanto que ele fez pela Língua Portuguesa, pela Literatura Portuguesa e o tanto que ele nos estimulou a pensar (mais do que a sonhar...).
Saramago disse um dia que Deus não tinha feito nada antes da criação do mundo, trabalhou 6 dias e depois voltou a não fazer rigorosamente mais nada. Eu, que não creio num Deus criador, não usaria esta metáfora trabalhista. Mas eu, que creio num Deus amalgamado do Bem, espero que este Deus tenha hoje feito alguma coisa: que tenha abraçado a tua alma, José, como se fosses um menino.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Sol e sombra

Alguém que me viu de noite
disse que sofria.
De quê, não disse
Só que sofria.
De certo da doença de viver
que é sempre mortal
mesmo que a incubação seja longa.

Alguém que me viu de dia
disse que eu vivia
e com gosto.
De quê, não disse
só que vivia com gosto.
Sem a doença de morrer
que atrapalha a vida
sobretudo se a incubação é longa.

Slam poetry

Saberão o que é: uma poesia para ser declamada, ligada ao quotidiano e que não pode durar mais do que 3 minutos... o mesmo número dos versos do haiku... Sob todas as diferenças temos este ponto em comum: procuramos menos palavras e mais densidade. A slam poetry e o haiku procuram "densificar" as palavras: dar-lhes peso sem retirar a leveza (como os grandes tintos que para além do corpo não podem perder a fruta (a alma...).

que bem embutido
está o olho da serpente!
e a minha pele descola.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Junho

Primavera -
Ao fim da tarde, a relva
espera o céu.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Haibun

encontrei este experiente engenheiro naval pela sua mesa de trabalho tinham passado inúmeros planos de barcos de passageiros, cargueiros, petroleiros e até um pequeno navio de guerra para patrulhar a costa era um homem já idoso com olhos mansos e com umas mãos ao mesmo tempo musculadas e delicadas o homem dos barcos disse-me ele o que mais me encanta num navio é a forma como a ele corta a água como se formam aquelas efémeras colinas de água e espuma quando a proa avança na água aí se vê a elegância do barco aí se vê se ele é hamonioso e se está bem construído e sabe ao longo destes anos aprendi muito e sobretudo uma lição um dia planeei um barco e sofistiquei o desenho do casco e da proa para ele ter um corte de água perfeito e consegui mas o barco não durou muito tempo as limitações do desenho que eu tinha feito afectaram a sua funcionalidade e mesmo a sua velocidade em breve foi desmantelado ficou tão perfeito neste detalhe que eu esqueci que a foma como a proa afasta a água é a consequência de toda a natureza do navio e não deve ser vista um fim em si mesmo hoje olho as proas e adivinho o barco nunca mais desde aí falei em proas perfeitas e deficientes


a proa abre a água
uma fonte
no mar.

domingo, 30 de maio de 2010

Tamanho

Tamanho tem a ver com poder, tem a ver com influência. Normalmente o maior tem mais poder e mais influência. Nem Fernando Pessoa /Caeiro escapou a um "mode d'emploi" sobre o tamanho: "Para ser grande sê inteiro, nada teu exagera ou exclui..."
Estamos e somos sempre inconformados com o nosso tamanho e isso é certamente uma das explicações para a nossa superação, para querermos transcender o pouco que somos.
É assim que vivemos rodeados de sonhos, de pessoas a abarrotar de sonhos de serem mais ricas, mais reconhecidas, mais influentes, mais conhecedoras, mais viajadas...
Ah, o tamanho... comparado com o que quer que seja fica SEMPRE tão pequeno...

o meu apartamento
é grande demais
para mim.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Pôr-do-Sol

Há pores-do-Sol
de chumbo
que não prometem nada
que simplesmente selam
um fim indeterminado e viscoso.
E a surpresa
é só de quem não sabia
que quase todos os dias
acabam em pores-do-Sol
como estes.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Brasil 3

há o silêncio -
mas as flores não param
de seguir a brisa.

domingo, 23 de maio de 2010

Brasil 2

Flamboyants em flor -
passeios partidos
raízes e betão.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Brasil

ao lado da estrada
na mesma direcção que eu -
um cão sem coleira.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Stresshaiku

sábado de manhã -
tomo duche depressa
como ontem.

domingo, 16 de maio de 2010

Do outro lado do Mundo

As crianças de 5 e 6 anos de uma escola de Lisboa, desenvolveram comigo e com a educadora - Patrícia Bandeira - um projecto de escrever poesia haiku. O resultado ficou muito interessante e agora temos o projecto de publicar um livrinho com estes haiku e com mais outros vindos de escolas da Nova Zelândia. Vai ser um livro com haiku dos antípodas e por isso lhe vamos chamar "Haiku do outro lado do mundo". Vamos ver se conseguimos publicar o livro ainda em Junho e, se tivermos candidatos, podemos distribuir alguns pelos nossos leitores. Aceitamos candidaturas...

o vento de Primavera
do outro lado do mundo
é de Outono.

domingo, 9 de maio de 2010

Que me espera?

Que me espera
quando regressar da guerra?
Os cantos das mesas arredondados,
O chão gasto e polido
Os assentos das cadeiras debotados...
Que me espera?
Só sei que lá estará o silêncio
Emboscado entre os sons da casa
Esperando uma aberta
Para me perguntar
Se valeram a pena
Os clarins e as feridas
As fardas e os medos.
E se eram esses
os ideais...

domingo, 2 de maio de 2010

La realité...


(Clique na imagem para a tornar maior)
depasse la ficcion". Também se diz que "a vida imita os romances" e não, como se podia pensar o contrário...

Há tempos publiquei neste blog um haiku que era assim:


um pássaro

passou pela tua cabeça -

de longe sorriste.


A ideia era criar uma leitura dupla entre uma ideia feliz que nos assoma o espírito ( e que nos faz sorrir) e uma cena real que presenciei quando vi uma pessoa ao longe e o vôo de um pássaro parecendo que atravessava a cabeça.

Há pouco ao ver as fotografias que tirei em S. Petersburgo reparei que numa delas, um pássaro tinha passado pela minha cabeça. Eu sorria e ao fundo o Grande Rio Neva e Palácio de Inverno dos Czares da Rússia...

Aqui a realidade seguiu a ficção.

sábado, 1 de maio de 2010

1 de Maio

uma borboleta
pousa na falésia -
o mar à espera.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Se soubesses o que eu sei...

É um hábito bem humano (português?) que depois de alguém pedir um conselho o desvaloriza com observações do tipo "só quem cá está é que sabe" ou "se soubesses o que eu sei não dizias isso"...
E é muito verdade: quem pede uma opinião deve esperar ouvir algo que vem de alguém que não está na mesma posição de quem pede o conselho. Se estivesse na mesma osição diria exactamente o que a pessoa que pediu o conselho pensa e sente. Talvez a questão seja outra: a de valorizar quem vê com olhar inabitual e estrangeiro o que nos parece tão óbvio, inexorável e inevitável. "Se eu soubesse o que tu sabes, diria exactamente o que tu dizes... mas como sei outras coisas... quem sabe o que eu sei não te pode ser útil?"

grande silêncio
parece que as flores
pararam a ouvir.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Em Romeno

Acabo de receber o livro do International Haiku Contest realizado no International Festival Origami Peace Tree. Este Festival realizou-se na cidade de Iasi, Roménia em 2009.
O livro publica os poemas apresentados neste Festival e tem por título "One thousand Cranes" (em Romeno "O mie de Cocori" e em Português algo parecido com "Mil grous".
Dois dos meus poemas estão publicados neste livro e vou transcrevê-los em Romeno. Alguém dá um palpite de como são em Português?


ploaia de iarnã
mã preface -n origami.
Curând primãvarã.


un copac tâiat.
Cerul rãmas in locul sãu
atât de adânc.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ficou bonito...



Ficou mesmo bonito o logo das comemorações dos 150 anos da assinatura da assinatura do Tratado de Amizade entre Portugal e o Japão. No rodapé vêem-se as três datas mais significativas: a de 1543 - chegada dos portugueses ao Japão, 1860 - a assinatura do tratado e a actual.
Por cima, o Monumento das Descobertas em Belém e o grande Sol Nascente a aparecer por detrás. Quem sabe não é possível captar uma imagem fotogrática semelhante à do logo?

domingo, 18 de abril de 2010

Uma Prenda de Primavera

Ela há dias de sorte: hoje Yvette Centeno faz-me chegar um poema que ofereceu a este blog. Antes de mais ele aqui está:


Cai a tarde
passam morcegos
no espelho da cidade
fogem da escuridão
atravessam as almas.

E agora o mais me impressionou nele. De um ponto de partida calmo, crepuscular e aparentemente tranquilo, gera-se o movimento e o prenúncio da noite, ou melhor, da Noite. O movimento cria-se pelo paradoxo dos morcegos não correrem para a escuridão mas sim dela fugirem; o prenúncio é dado pelo seu vôo que não só atravessa o ar mas fere as almas. E talvez seja este atravessamento que melhor sintetiza o ambiente do poema que sob uma capa quase bucólica, fala de uma improvável fuga à escuridão e de uma inexorável vulnerabilidade da alma.
É um texto muito denso na sua aparente simplicidade mas também outra coisa não seria de esperar da pena que o escreveu.
Muito obrigado, Yvette!

sábado, 17 de abril de 2010

Auf Deutch, bitte!

Encontrei o poeta austríaco Dietmar Taucher no Festival de Poesia de Druskininkai na Lituânia. Um homem ainda jovem e com um olhar muito arguto sobre o mundo mediato e imediato.
Dietmar Taucher publica uma revista intitulada CHRYSANTHEMUM que pode ser consultada em www.chrysanthemum-haiku. net.
No número da revista que acaba de sair, estão publicados alguns dos haiku feitos pelos poetas participantes no Festival. Dois dos meus textos aqui estão publicados com a curiosidade de estarem pela primeira vez traduzidos para a Língua de Goethe.
Aqui ficam. Obrigado Dietmar!


sentado na cama
luar nos meus pés nús -
Outono em Druskininkai.

sitting on the bed
moonshine on my bare feet -
Autumn in Druskininkai

Im Bett sitzend
Mondschein auf meinen bloßen Füßen -
Herbst in Druskininkai.





o arco-iris
nas folhas do castanheiro -
Outono em Druskininkai.


the rainbow
on the chestnut tree's leaves-
Autumn in Druskininkai.


der Regenbogen
auf den Blättern der Kastanie -
Herbst in Druskininkai

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Dmitri Yassov


Estou de regresso de mais uma viagem a São Petersburgo - a cidade de São Pedro. Uma viagem sempre povoada de magia, beleza e experiências que me ajudam a entender melhor Portugal e a minha vida.

Lá recortei de uma revista esta foto de um famoso herói da Rússia/União Soviética. Este homem - uma lenda viva - foi herói de guerra e ocupou os mais altos cargos na hierarquia do seu país. A farda que Dmitri Yassov enverga mostra isso mesmo: uma vida longa, coberta de reconhecimento do seu valor e mérito. Impressionante...
Mas não foi este facto que me impressionou: foi a sua expressão na fotografia. Algo entre o cansado, o triste e mesmo interrogativo. Uma face que podera estar a perguntar:"Tudo "isto" valeu a pena?". É uma foto profundíssima no seu significado humano. Quem este homem com a sua farda; quem é ele sem ela? E tudo parece tão teatralmente dependente dela...
Aqui, onde esperaríamos um olhar garboso, sereno e feliz, encontramos um homem talvez céptico, talvez inquieto, talvez triste. É um exemplo do que o poeta António Gideão chamou "esse animal aflito"...

Meu respeitado herói: tudo o que fizeste valeu a pena se achas que valeu a pena. E se sim, deleita-te com o tinir das medalhas. Que elas te aplanem o sono e que o seu brilho motive outras pessoas a dar o melhor de si.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Mode d'Emploi

Já por várias vezes aqui referi a qualidade da revista de poesia Haiku "The Heron's Nest". Acaba de ser publicado um novo número (que pode ser pedido em http://www.theheronsnest.com/journal/

Gostava de aqui publicitar umas poucas mas certeiras orientações para quem quer escrever poesia haiku da "The Heron's Nest"



Present moment magnified (immediacy of emotion)
Interpenetrating the source of inspiration (no space between observer and observed)
Simple, uncomplicated images
Common language
Finding the extraordinary in "ordinary" things
Implication through objective presentation, not explanation: appeal to intuition, not intellect
Human presence is fine if presented as an archetypical, harmonious part of nature (human nature should blend in with the rest of nature rather than dominate the forefront)
Humor is fine, if in keeping with "karumi" (lightness) - nothing overly clever, cynical, comic, or raucous
Musical sensitivity to language (effective use of rhythm and lyricism)
Feeling of a particular place within the cycle of seasons

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Peregrino


"Peregrino" é um pequeno livro de Armando Martins Janeira (biografo de Wenceslau de Moraes e embaixador de Portugal no Japão) editado pela "Pássaro de Fogo".

É um livro de grande sensibilidade que fala do Japão e de Wenceslau (sobretudo sobre a inauguração do monumento a ele erigido em Tokushima em 1954) em que nos sentimos convidados previlegiados a presenciar as cenas descritas. Armando Martins Janeira foi certamente tocado pela mesma energia encantatória que rendeu Wenceslau.

O livro foi-me oferecido pela D. Ingrid Bloser Martins, viúva do autor e ela mesma personalidade marcante desta ponte cultural entre Portugal e o Japão. Obrigado!



terça-feira, 6 de abril de 2010

5 haiku de Páscoa

esquecido
no meu bolso um recibo
de dois lanches.



ainda crús de tudo
os cachos de uvas
em Abril.


queima como sal
a luz do sol na praia -
telemóvel: não vens?


brisa da tarde
varre por dentro as árvores
para os pardais a chegar.


enormes, a secar
as cuecas da vizinha
enfim a dar a dar.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Gulbenkian na Primavera













A Prima Vera assoma em toda a parte. Mas mais nos jardins. No Jardim da Fundação Gulbenkian - a natureza vestida de domingo - está cheio de amostras desta Prima Vera. E até não faltou a própria rã de M. Bashô que veio aquecer-se ao terno Sol de Março.


terça-feira, 23 de março de 2010

Publicação na "Nadaline"


(Clique na imagem para a tornar maior)
Já tinha dito aqui que a revista "Nadaline" da Estónia publicou os meus 21 Haiku "GAZA". Imagino que nenhum dos meus leitores os poderá ler mas, de toda a maneira, aqui fica o testemunho. E sempre o meu agradecimento ao poeta Andres Ehin que os traduziu.


As I wrote before, "Nadaline" journal from Estonia, published my 21 Haiku "Gaza". I imagine that no one of the readers of this blog will be able to read them, but, anyway here "l'épreuve du crime". And thank you again for transelation, Andes Ehin!




segunda-feira, 22 de março de 2010

Torre

Hoje, dia 22 de Março, à entrada da Primavera, estive na escola da Torre em Lisboa. Estive lá para, juntamente com outros familiares, falar às crianças de poesia.
E o que parecia difícil tornou-se muito fácil: as perguntas das crianças foram (como se deve esperar) inteligentes, pertinentes e muito estimulantes: "Distingue a sua poesia da de outros poetas?", "Como é que se escreve poesia?", "Em que se inspira?", etc.
Para ilustrar o que é o haiku - o tipo de poesia japonesa que lhes fui falar - levei e ofereci a cada criança uma pequena concha de madrepérola apanhada nas praias do Algarve no Verão passado. A concha serviu para ilustrar que a beleza afinal está "nos nossos olhos" e que se a procurarmos ela não nos deixará partir de mãos vazias. Assim, a ideia não é procurar a "perfeição" ou a "simetria": é olhamos para a nossa concha dialogando com ela independentemente de ela parecer perfeita ou não. E nem imaginam o que as crianças viram nas suas insignificantes ( e imperfeitas) conchas: transparência, veias, lisura, arco-iris. manchas, formas evocadas, enfim... Talvez a mensagem tenha passado: a poesia é feita por pessoas imperfeitas sobre coisas imperfeitas mas pode acabar por ficar bem...
Disse-lhes: sabem porque é que o haiku tendo só 3 linhas é um texto suficiente? É porque que a outra parte da poesia tem que ser completada pelo leitor. E logo surgiram as opiniões: Ah... um haiku é um puzzle incompleto, quem o lê é que o completa...
Devia haver muitos letreiros em todos os locais públicos que tivessem escrito: "É proibida a entrada a quem não confiar em crianças!". (Jesus disse uma coisa parecida, não foi?)


sala dos 5 anos -
um feto despenteado
pelo sol da manhã.

domingo, 21 de março de 2010

21 de Março

Hoje chega ofialmente a Prima Vera. Os primeiros brotos, a vida a nascer de ramos que pareciam vencidos, secos e mortos pelo longo Inverno deste ano. E com ela vem a esperança de beleza, do morno, do fagueiro. Vem a esperança de uma vida que, num mundo onde tudo parece estar em risco é, mesmo assim, o mais constante e fiel que temos.
Com a Prima Vera vem também a Poesia, esta comprovadamente mais céptica em relação à felicidade. Mas mesmo assim agregada à renovação e a um novo sopro semelhante àquele que, no Genesis, fez Adão respirar.
Estavamos a precisar de ti, Prima Vera; sempre precisamos de ti, Poesia, em todas as estações do ano!



os melros cantam
desde as três da manhã -
calma! Já vou!

terça-feira, 16 de março de 2010

Primavera III

cheira a Primavera!
A vizinha está a usar
um novo detergente.

Trânsito

- "as voltas que o mundo dá!"
-"e as voltas que damos ao mundo..."
- É verdade... nascemos na mesma terra"
- "E até bem próximos..."
- "... e levamos estes anos todos para nos encontramos"
- "Só foi pena ter sido por um acidente de trânsito" - disse o Mercedes ao Opel.

sexta-feira, 12 de março de 2010

E ainda...

A Luzia Lima-Rodrigues fez uma outra versão do haiku postado antes. Eu acho que ficou bem melhor. Obrigado!


entre a blusa e a pele
entra a lua e a mão -
ambas cheias.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Uma quadra

salvo-me fugindo,
salvas-te ficando:
assim iludimos
o tempo que vai passando.

terça-feira, 9 de março de 2010

Hairóticos / Hairotics

vinda de cima
entre a blusa e a pele -
a mão. Cheia.

from above
between the blouse and the skin -
a hand. Full.




há dez minutos
inclinada sobre a mesa -
ainda não leu nada.


ten minutes passed
bending on the table -
she didn't read anything yet.

domingo, 7 de março de 2010

Nadaline

Ontem, sábado, foi publicado na revista literária "Nadaline" da Estónia o conjunto de haiku "GAZA". A tradução é de Andres Ehin (já aqui colocada neste blog).
(Como será ler os meus haiku sobre Gaza debaixo da neve? Estou curioso...)


na foto do deserto
cai um floco de neve -
que vai nascer ali?

sábado, 6 de março de 2010

Prima II (take two)

inexorável como uma borbulha
o ar morno sopra ao de leve
embrulhando
perfumes ainda verdes.

toda a Primavera
está neste vento:
frésias e junquilhos
flores de amendoeira e lírios.

E tu também.
Tu, sem a qual as flores seriam irrisórias
e a Primavera
um espasmo pueril.

Prima II

É por agora que a terra se rende à Primavera.
Estava eriçada nos seus frios,
na radicalidade dos seus ventos,
o chão apertado pelas chuvas,
e o sol longo e impotente.

Mas está a acabar o cerco.

Inexoráveis e capciosas as raízes,
os brotos, as azedas,
as primeiras amendoeiras
e os primeiros ventos mornos
agitam em segredo a terra parada.

E ela rende-se alegre a este manso conquistador:
entreabre - e depois escancara - as suas portas
com uma secreta satisfação de ser conquistada.

Como imaginamos a conquista de uma Mulher.
Ou de um Homem.

sexta-feira, 5 de março de 2010

500

O que se vê quando se olha para trás? Quando olho para trás deste blog vejo que faltam 14 mensagens para chegar às 500. Um dia vou perder um tempito a ver o que tenho vindo a pensar, a sentir, a citar e a esquecer.
Uma ideia para comemorar era fazer um concurso nacional de haiku. Alguém alinha?

quinhentos
muito menos do que graõs de areia
na minha mão.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Prima

e lá de longe
de onde nasce o vento
a Primavera!


from far away
where wind begins:
Spring!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Heron's Nest 2009

Já aqui mencionei várias vezes a grande qualidade e devoção ao haiku que tem a revista "The Heron's Nest" (literalmente "O ninho da garça".
A revista acaba de dar a conhecer os melhores haiku que publicou no ano de 2009 depois de uma votação entre todos os seus leitores. Aqui fica o resultado:




Grand Prize: POEM OF THE YEAR (18 votes totaling 131 points)
mile high . . .
adding my breath
to the clouds
— Jim Kacian (March Issue)


First Runner-up: (13 votes totaling 106 points)
Milky Way —
maybe tonight
I’ll conceive
— Brenda J. Gannam (December issue)


Second Runner-up: (13 votes totaling 104 points)
graveside —
my breasts
leaking
— Nora Wood (March issue)


Third Runner-up: (14 votes totaling 86 points)
honeysuckle
where you first hear
the river
— Burnell Lippy (September issue)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Se não acreditasse, não via.

Ai as provas... nós que andamos atolados em triliões de informações contraditórias sobre se "o Governo quis", "se o primeiro ministro mentiu", etc. etc., somos tentados a fazer um juizo final e definitivo sobre o que realmente se passou... Tentação que só aceitamos se formos ingénuos. E porquê? Porque não se julgam factos; fala-se de emoções, de interesses e de estratégias que não estão claramente postos em cima da mesa.
Esta "comissão de inquérito" vai tentar desfazer o "nó górdio" de provar pelos factos se o governo teve essas intenções: "ver (provar) para acreditar!!!".Mas o assunto não é esse: não é ver para crer.
O que se passa aqui, como em tantos âmbitos da vida pública e privada, é: "Acreditar para ver". Conforme o que acreditamos, vemos "coisas" e que até (ai de nós...) nos parecem óbvias. Quem terá legitimidade para dizer que estamos certos ou errados?
Ah este difícil contrato social...


restos de nespresso
batalhões no chão da sala -
já ouço clarins.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Solidão

A jornalista Sara Roy acaba de publicar um artigo sobre Gaza. E termina com estas dramáticas palavras: "O povo da Gaza sabe que foi abandonado. Algumas pessoas disseram-me que só sentiam esperança quando estavam a ser bombardeadas: assim pelo menos alguém lhes daria atenção".
Até uma bomba faz companhia contra a solidão do cárcere... (Quando é que "isto" acaba?)

previsão do tempo -
enfim alguém sabe
o futuro, em Gaza.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Coluna

Vertebral. Um traço que corre de Norte a Sul: de cima a baixo (e também do direito à esquerda, do frente e do atrás). Ter coluna = ter valores, orientação. Não pensar que vale tudo, não agir como se o certo não existisse. O certo existe: pode não ser perene mas existe e aprecio as pessoas que no meio de tanto nevoeiro e ventos contrários empurram o corpo e a coluna para o estreito caminho (Basho...) que acreditam que está certo.

no vendaval
os ramos quase a partir -
mas não.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Quaresma

o vazio puxa-me o olhar.
Sem cores nem formas,
com luz parada e mortiça,
penso na noite impensável
como se não acreditasse no mar
com ele a bater
nos meus pés nus..

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Valentim

tomei banho
como a primeira vez fosse -
São Valentim

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Andar à pesca...

Existe uma expressão em língua inglesa que acho muito curiosa: "fishing for compliments". Diz-se que anda à pesca de cumprimentos a pessoa que faz "tudo e mais um par de botas" para receber algo que lhe assegura que fez alguma coisa de bom. Esta pesca pode penosa de se assistir: há pessoas que, em lugar de ver o cumprimento como uma consequência, o vêem como um objectivo. Como se fossem as borbulhas que provocam o sarampo e não o virus do sarampo que provoca as borbulhas...
É bom quando sabemos quantos centímetros temos de altura e quantos não temos. Andar nesta volátil pesca denota, antes de mais, que a pessoa não confia no mérito do que fez: mais depressa faz fé num elogio de circunstância do que numa análise mais objectiva.
Andar à pesca de cumprimentos... com cana ou rede é sempre um bocadinho deprimente de ver... (e vê-se muito...)

primeiras flores:
a Primavera chega devagar
mas inevitável.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Passado

Passado. Passado é aquela parte do tempo que nós (ou alguém) já percorreu com os seus passos. Passado, caminhado, percorrido. Mas também há passos para dar: nem todos os passos são passos/passados. Hoje brindo aos passos que passam (avançam) para o amanhã.

o que andei passou
dou passos para o que vem aí -
como o caranguejo?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Fevereiro


(Clique na foto para a tornar maior)
Neste Fevereiro frio, já espreita a Primavera: as "azedas" - as vibrantes flores dos trevos - enchem os campos de um amarelo vibrante. Hoje mesmo vi ao lado da estrada duas árvores ainda nuas de folhas mas já cobertas de flores brancas. É isso!!! Toca a chamar a Primavera!

Aí vai uma foto (do abençoado quintal da Ivany) para ajudar as árvores a lembrar o que é ter as folhas a fazer cócegas nos ramos...Huuuuummmmm...



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

a gate left open


Alice Frampton has been coordinator of Haiku' Canada's pacifi-kana region and Asssociate Editor of "The Heron's Nest".

She wrote a delicate and rich book named "a gate left open". It'a a book marked by an acute observation of Nature and a refined humor. It's a book where education is present together with a humanistic view of that complex process of bending the knees to teach someting to someone.

Thank you, Alice!



Alice Frampton tem sido a coordenadora da região do Pacífico da Sociedade Haiku Canadá e Editora Associada da revista "The Heron's Nest".

Escreveu um livro rico e delicado chamado "a gate left open". É um livro marcado por uma observação pertinente da Natureza e um humor refinado. É um livro onde a Educação está presente e acompanhada por uma visão humanista daquele processo que nos leva a dobrar os joelhos para ensinar algo a alguém.

Obrigado, Alice!


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Movimento

O movimento está em todo o lugar, As coisas que convencionamos chamar "paradas" e "inertes" estão em movimento. O problema é que a nossa efemeridade não nos permite ver este movimento. Duramos tão pouco que só muito dificilmente conseguimos ver que a vida é um filme e não uma fotografia. Ver movimento nas coisas (pessoas, montanhas, plantas, ...) paradas... Ora aqui está um bom ponto de observação para pensar em haiku...

corre luz no telhado -
reflexos dos carros ao sol
penteiam as telhas.


.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Andres Ehin


Andres Ehin is an excellent poet from Estonia. He has a large number of publications in a lot of languages. Recently he published the haiku book "A Chafer Kisses the Moon" in Japan.
I met Andres Ehin in Lithuania. He is a man with a sophisticated sensibility and with a very cordial interaction.
He translated into Estonian my booklet "GAZA". I don't resist to publish here the work of Anfres Ehin (maybe only for visual purposes...).
Thank you very much. Andes!
Andres Ehin é um excelente poeta da Estónia. Tem uma vasta obra publicada em múltiplas línguas - entre as quais galego ("Vello ceo Nórdico")- e uma galeria repleta de prémios significativos. Escreve haiku e publicou no Japão há pouco tempo um livro lindíssimo chamado "A Chafer Kisses the Moon"
Encontrei na Lituânia Andres Ehin. Foi um encontro de uma grande cordialidade e de entendimento fácil. Deparei-me com uma pessoa com uma requintada e profunda sensibilidade.
Andes Ehin traduziu para estoniano a série dos meus 21 haiku "GAZA". Eles vão ser publicados na Estónia. Não resisto a deixar aqui (certamente só para prazer visual dos leitores) os meus textos em estoniano. Muito obrigado Andres!


Gaza haikud
1
seinast lööb läbi
terasest liblikatiib
Gaza liblikad
2
kes kallutas maa
rannatu mere rüppe
ulguvas Gazas
3
mürsk otsapidi
oliivitüves kinni
pildike Gazast
4
Jumala käsi
pigista kivi seest vett
januses Gazas
5
ainult raketid
on väleda taibuga
juhmunud Gazas
6
kirudes saatust
põgusalt antakse suud
lahku viib Gaza
7
armsate silmi
veereb põrandaprakku
armutus Gazas
8
palmipuud on täis
sõjasaastaseid datleid
Gaza puiesteil
9
oliivide tuhk
põletab päevalilli
Gaza peenardel
10
seintel on kirjad
Jumal mispärast oled
hüljanud Gaza
11
luurib ja puurib
kõrgustest täiskuukiiker
kaitsetut Gazat
12
Jumal mis plaani
sa meiega pead hinge-
vaakuvas Gazas
13
uhiuus saabas
vedeleb tolmusel teel
hüljatud Gazas
14
ära sa iial
pilku taevasse heida
kui oled Gazas
15
lapsed tahaksid
pigem pimedad olla
silmitus Gazas
16
varblasi magab
paljaks põlenud oksal
Gaza keskpargis
17
hoiata vaikus
meid järgmise ohu eest
petlikus Gazas
18
tihke müüri ees
pole soovideks ruumi
tänases Gazas
19
naine ei teagi
kelle matustel nutab
leinavas Gazas
20
viigipuu õide
ei lähegi tänavu
kõrbenud Gazas
21
prognoose teha
julgeb ilmaennustus
isegi Gazas

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Haiti , ai de ti (II)

Não se pode prever o futuro ainda que seja ele que ilumina a nossa vida. Dizem as pessoas "prudentes": `´E preciso aprender com o passado!". Para mim, nada mais bizarro! Aprender com o passado? O que ilumina o nosso presente é a nossa visão do futuro. O que é o presente para quem não consegue olhar para um ponto imaginado? Lá. Onde acaba o horizonte.
(Quando assentar o pó, para onde vai olhar o povo do Haiti?)

Haiti, ai de ti...

Quem, discernindo, pode antever o futuro?
Agora foi o Haiti... Massacrados pela história, pelos governos curruptos, pela sua situação estratégica, pelo menospreso dos poderosos, faltava ainda esta catástrofe aos haitianos. Catástrofe natural? Não: social. Um abanão de terra, numa sociedade há muito desiquilibrada pela ganância e pelo desamor.

Agora
as ruinas do Haiti
vêm-se melhor.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Experi(ci)ência

A experiência pode ser uma ciência, um conhecimento se... (o importante é o "se") refletirmos sobre ela e em consequência disso mudarmos ideias, representações e comportamentos.
Se assim for então talvez possamos dizer que em lugar de "experiência" temos "expericiência".


que gatos ariscos!
Quando lhes ameaço bater
fogem!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sono

depois da insónia
sono da madrugada -
sol no corpo nu.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Ansiedade

ansiedade -
ao ver que chegava à praia,
afogou-se.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Seagull

only a photo
remained of the slow flight
of the seagull

só ficou uma foto
do vôo lento
da gaivota.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Outra versão

cai a folha
o pardal olha imóvel -
convite à valsa?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

D'aprés Kerouac

o pardal olha
a folha de Outono -
convite à valsa?

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Explicações...

O que é isto do mundo às avessas? A frase pode ter mil interpretações todas válidas e pertinentes mas eu gostava de juntar uma derivada do fracasso da Conferência de Copenhaga. Passo a expôr: estamos permanentemente mergulhados em apelos bem humorados, inteligentes e criativos ao consumo massivo. Mal saídos do Natal já começam os saldos...
No meio deste consumo desenfreado aparecem "coisas" como: "salve o planeta comprando (mais) isto".
Alguém tem dúvida que o que se compra com o rótulo de ecológico é uma trapaça até porque não precisávamos desta coisa? E que o resto (o que não é ecológico) é uma trapaça ecológica também? Era isto que eu queria dizer com o mundo às avessas: estamos interessados em que o aço do canhão seja reciclado. O que o canhão faz, isso já é outra coisa.
Às avessas, pois claro!

na noite fria
o ar parece mais puro -
refinaria.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Ver o mundo às avessas a ver se o vemos direito!


MMX

Novo século, nova década, novo ano. Tudo novo. Tudo? Claro que não. Novo só o ânimo, o sonho, olhar para para além para ver o que não existe agora e que talvez não exista nunca. Cada vez que este ínfimo grão de poeira a que andamos agarrados dá uma volta ao luzeiro que lhe dá vida, nós mudamos a contagem do "tal" tempo. E convida-nos a (re) animar, a (re) começar, a (re) tomar e sobretudo a (re) sonhar (não confundir com "ressonar").
Ninguém é feliz sozinho, portanto (e até por isso) desejo a quem ler estas linhas um novo ano na esperança de mais, de mais longe e de melhor.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O meu papel

Andavamos a fazer que não viamos mas as livrarias estão a desaparecer. Cada vez mais e cada vez mais depressa, em progressão geométrica. A Amazon vendeu este Natal mais livros electrónicos do que impressos... "Tás a ver a picture?". O Jornal "Courier International" escrevia há pouco um curioso artigo: "Podem as democracias sobreviver sem jornais?". Diríamos "Pode a literatura sobreviver sem livros?". Pergunta idiota ou pertinente?
O certo é que nós, os que lemos livros e produzimos coisas para serem lidas em papel estamos em vias de substituição. Substituição pelo quê? Há quem diga que os blogs têm os dias contados... agora fashion é mesmo o facebook e o twitter...
Só mais uma pergunta: e para onde vai a reflexão, a sofisticação a profundidade dos sentimentos das pessoas? Sim , porque isto não significa que as pessoas são superficiais. A questão é: para onde vai a sua profundidade? (Como um lago...)

ondinhas de luz -
escuridão lá no fundo
e silêncio.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Neve

a urina a bater no esmalte do penico
e o pensamento se fico
a rosa no seu aroma submersa
pensando que é um gato persa
um barco sem som rumo ao mar alto
passa a ponte de Rialto
uma pele quente na nossa barriga
a fazer da pele madeira de Riga
um copo a mais do que se deve
pés decididos a entrar na neve.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Ainda o valor (1)

Regresso ao valor... Este tema tem inúmeras pontas por onde pegar.
Uma outra é que para aquilatar o nosso valor ou o valor dos outros é essencial destrinçar o que é da natureza e o que é o trabalho. Esta polémica ainda está hoje viva, e nos EEUU foi chamada de "nature-nurture".
O valor da pessoa afinal onde está? No génio hereditário, no talento? Ou pelo contrário no esforço, na educação, no aprimoramento? Talvez cada um de nós tenha posturas bem diferentes sobre estes dois componentes do "valor": para uns vale o génio, a predestinação, a centelha de talento, o jeito. Para outros o valor reside no trabalho, na persistência, na aposta em se transcender pela determinação. Onde está o valor? Nos dois dirão os mais conciliadores...
Antero de Quental dizia que a prova final do nosso valor se vê depois da nosso morte. Permito-me discordar: quantas génios morreram no esquecimento e quantos "não-génios" em glória...
Quem reconhece? Eu acho que é mesmo a pessoa. Mesmo enganando-se, sub ou sobrevalorizando-se, é ao próprio criador que cabe a palavra mais isenta sobre a sua própria produção. Ele engana-se? Claro que sim. Mas os outros enganam-se também. E pelo menos há uma vantagem: quando alguém se engana sobre o seu próprio valor, só está a julgar o próprio valor, ao passo que quem se engana sobre o valor do outro engana-se certamente por motivos que não têm a ver com a análise objectiva do valor da obra.


o pinhão já sabe
o que o engenheiro
ainda vai aprenedr.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natal

Que azáfama! Passei cinco dias a comprar coisas. Comprei roupa para a neve; luvas, ceroulas, calças impremeáveis, uma camisola polar, uma malha, um casaco de neve , um gorro. Para a família comprei semelhante: fato de neve, trenós, creme para a pele, etc., etc. depois foram os presentes: nem descrevo tudo o que comprei, quantas vezes percorri com ar perdido as lojas cheias de coisas que não me interessavam... E depois foi a comida: antes de mais o bacalhau das águas frias da Noruega, couves galegas de repolho, pencas, cebolas, batatas, cenouras, ovos. O azeite, oh sim o azeite ! Extra virgem (extra?) como convém e a cheirar ao fruto... E por falar em fruto também os frutos secos: avelãs, nozes, damascos secos, pinhões, figos pingo de mel, figos com nozes dentro, amendoas, peras cristalizadas, ameixas pretas, de Elvas, .... Os doces: o bolo rei: o tradicional (com a dimensão de uma roda de camião) e o especial feito de chila. As rabanadas, a aletria, os bolinhos de bolina e mais isto e aquilo. Às 4 da tarde do dia 24 ainda fui em emergência ao supermercado vizinho comprar umas coisinhas que tinham escapado à memória... Uffff !!! Às 7 e meia preparei-me para cozinhar o bacalhau para a família. A logistica pronta: as panelas enormes alinhadas como numa formatura com a água a ferver e à espera de cumprir a sua fiel missão anual. Estava tudo a postos... tinha valido a pena esta correria de compras de Natal... Estava tudo comprado e previsto! Mas...
"Eh pá! Onde está o sal?" Não há? Ninguém comprou?. Era isso, não havia em casa sal para cozinhar...
E lembrei-me de Jesus (outra vez ele). "Vós sois o sal da Terra. E se o sal não salgar?" (Fica tudo sem sabor?).
Neste Natal havia tudo menos o sal. Por fim, inventamos que o sal de mesa fino substituiria o sal de cozinha grosso.... e funcionou...
Prometo não me esquecer do sal para o ano: mesmo que não tenha tempo para comprar aquelas pantufas (iguais às do Noddy) para a minha mãe (e que ela talvez não vá usar).
Prometo!


na consoada
só faltou o sal -
Natal de agora.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Ainda o valor

Retomo um post que escrevi no início de Dezembro. Quem pode aquilatar o valor do que uma pessoa qualquer faz? Cinco pontos (como os dedos da mão):
1. Avaliar é só o que a pessoa faz e não o que a pessoa é. Creio que grande maioria (a grande maioria mesmo) das pessoas é humana e rege-se por valores de não fazer mal ao próximo. Uma minoria desta maioria segue mesmo o princípio "FAZ aos outros o que gostarias que te fizessem a ti". A voz do povo tornou este "FAZ" em "NÃO FAÇAS"...
2. O que a pessoa faz tem diferentes constrangimentos. Antes de mais o do tempo. O que se faz pode ter significado num momento e deixar de o ter noutro. Um artista submerso em aplausos pode não voltar a ouvir o reconhecimento do seu trabalho. "Já fui valorizado mas agora não sou...". Também há o valor temporal voltado para o futuro: "Algum dia me reconhecerão!". O tempo é pois enganador.
3. Depois o do espaço: ser valorizado onde? No ciclo restrito da profissão, dos amigos? ao nível de uam região, nacional, internacional, mundial? Qual é o certo?
4. E ainda "por quem?".Parece que não há reconhecimentos unanimes. Sempre haverá alguém que ao lado dos elogios diga por exemplo "não fez mais do que devia", "só olhou pela sua vida", "nada de original", etc. etc. Quem dá valor? Que valor têm as críticas? E os elogios?
5. Certamente que não somos nós próprios que damos a dimensão mais objectiva ao nosso valor. (Se desvalorizassemos o que fazemos não o teríamos feito...). Na verdade não podemos confiar no nosso juízo, não podemos confiar no dos outros, não podemos confiar no tempo nem no espaço.
Enfim o que valemos? Valemos certamente o que podemos lucidamente extrair desta amálgama de informações erradas. Se calhar valemos só aqueles fugazes prazeres que conseguimos dar aos outros. É isso: valemos o que damos. nem mais nem menos!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Jesus e Janus

São mesmo parecidos: um o deus dos cristãos o outro o deus romano. Janus é um dos deuses mais interessantes para lembrar nas comemorações como é esta do Natal. Janus é representado com duas cabeças: uma a olhar para a frente e outra a olhar para trás, uma para o passado e outra para o futuro. Janus assume o que todos os deuses gostariam de ser: uma referência e uma inspiração. Outra coisa interessante que eu acho de Janus é ele não ter uma terceira cabeça para o presente: na verdade, o presente não existe e é só uma débil e ingénua tentativa que fazemos de parar o fluir do tempo.

a flor de ontem
não parou de murchar
até hoje.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Natal (outra vez?)

Ainda não gastamos as prendas do ano passado e já aí está, pertinho, o Natal de 2009! Nada de muito novo: as alegrias esperadas (mas sempre boas), tristezas do costume, as promessas habituais... Como toda a gente que eu conheço acho que o Natal anda às avessas e trocamos uma data de valores (como todos) discutíveis, por outros (ainda mais) discutíveis.
A ver: trocamos a história do nascimento de Jesus por um velho obeso, vestido de vermelho que não consta que saiba fazer mais nada senão dar prendas, trocamos o tempo para estar com os amigos por ansiosas incursões em repletos centros comerciais, trocamos a festa do nascimento pela festa do consumo. Não deixo de me enternecer com a eterna história do nascimento de Jesus: um deus num estábulo, um deus que nasce rejeitado e termina assassinado, com uma vida ao lado do poder e do dinheiro e tão fortemente sintetizou e guiou a vontade de transcendência dos homens. Será que a história de pobreza e humildade não era suficinetemente inspiradora para as pessoas que querem ser os senhores das suas vidas?
É Jesus sem dúvida que vale mais (a grande surpresa) neste Natal.

geada de Inverno
sobre os campos
um fumo.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Comunicação

Para as pessoas que estudam a comunicação o que eu vou escrever a seguir pode ser uma evidência infantil. Mas como eu não estudo a comunicação, transmito esta ideia com a espontaneidade de quem achou interessante uma ideia que lhe fulgiu no espírito...
Comunicar é dividir, é estabelecer campos. O silêncio é unificador e ambíguo mas a comunicação quando se manifesta traça linhas, estabelece categorias e, crie ela unidades ou diferenças, força a tomar partido nem que seja num discreto e subtil processo mental.
(Será por estes riscos que se fala e se escreve cada vez mais e se comunica cada vez menos?...)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Portugal, 2009

Ontem, uma colega minha, professora universitária, falava-me do seu neto de 7 anos. Uma criança adorável, criativa, viva e cheia de vida. Mas... negra. Que diferença faz "isto" em Portugal no ano de 2009? Muita, diz ela. O neto sofre na escola: há crianças que o atormentam com insultos, monosprezo, chacota e agressões. Este menino chora quando chega a casa e tem pesadelos pelas noites atormentadas. Pertence a um grupo de música e quando a mãe lhe disse que não podia ir a um ensaio deste grupo ele disse "Não faças isso. Este ensaio faz-me esquecer que sou negro!".
Portugal? 2009? Oh suprema vergonha! Mil vezes maldita a história que alicerça esta prática anti-humana e que faz tantas vítimas: as da segregação como é este menino e as vítimas da estupidez como são os seus agressores. Portugal, 2009. Eu pensei que "isto" já não existia...


tantas flores no campo
nenhuma abana igual
ao sopro do vento.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Partidas...

Mais uma amiga que partiu antes do tempo...

"uma mulher
que durante a sua curta vida
sempre creu na eternidade".

Dois haiku

à flor da água
a gaivota segue
a sua sombra.


no gume da faca
passeia a formiga -
ah! A leveza...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Balanço

Sempre interessante a polissemia da língua portuguesa: balanço é ao mesmo tempo "equilíbrio" e "avaliação". Talvez queira dizer que fazer um bom balanço, uma avaliação, implica necessáriamente que se tenha um bom equilíbrio entre todos os factores que devem ser considerados para que essa avaliação possa ser considerada justa, fiável e útil.
Fim do ano: tempo de avaliações. Mas não esqueçam... com equilíbrio. Não vale olhar só para o que não se fez... nem só para o que se fez... nem só para o que correu bem... mas também para o que correu mal.
Que energia e lucidez metemos em cada coisa? E o que recebemos em troca? E o que demos?

cada vez mais devagar -
o baloiço para trás
e para a frente.


slower and slower -
the swing backwards
and forward.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Dezembro

O céu cinzento de chumbo e de água parece ir desfazer-se em chuva a qualquer instante. Pressentindo a chuva, o vento começa a ficar mais forte e mais rasteiro. As árvores parecem suspirar quando a ventania lhes açoita os ramos. No parque infantil...


Céu de chuva -
só estremece os baloiços
o vento.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sombras

olhei bem -
as sombras, todas,
são negras.




I looked twice -
the shadows, all of them,
are black.