domingo, 30 de maio de 2010

Tamanho

Tamanho tem a ver com poder, tem a ver com influência. Normalmente o maior tem mais poder e mais influência. Nem Fernando Pessoa /Caeiro escapou a um "mode d'emploi" sobre o tamanho: "Para ser grande sê inteiro, nada teu exagera ou exclui..."
Estamos e somos sempre inconformados com o nosso tamanho e isso é certamente uma das explicações para a nossa superação, para querermos transcender o pouco que somos.
É assim que vivemos rodeados de sonhos, de pessoas a abarrotar de sonhos de serem mais ricas, mais reconhecidas, mais influentes, mais conhecedoras, mais viajadas...
Ah, o tamanho... comparado com o que quer que seja fica SEMPRE tão pequeno...

o meu apartamento
é grande demais
para mim.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Pôr-do-Sol

Há pores-do-Sol
de chumbo
que não prometem nada
que simplesmente selam
um fim indeterminado e viscoso.
E a surpresa
é só de quem não sabia
que quase todos os dias
acabam em pores-do-Sol
como estes.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Brasil 3

há o silêncio -
mas as flores não param
de seguir a brisa.

domingo, 23 de maio de 2010

Brasil 2

Flamboyants em flor -
passeios partidos
raízes e betão.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Brasil

ao lado da estrada
na mesma direcção que eu -
um cão sem coleira.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Stresshaiku

sábado de manhã -
tomo duche depressa
como ontem.

domingo, 16 de maio de 2010

Do outro lado do Mundo

As crianças de 5 e 6 anos de uma escola de Lisboa, desenvolveram comigo e com a educadora - Patrícia Bandeira - um projecto de escrever poesia haiku. O resultado ficou muito interessante e agora temos o projecto de publicar um livrinho com estes haiku e com mais outros vindos de escolas da Nova Zelândia. Vai ser um livro com haiku dos antípodas e por isso lhe vamos chamar "Haiku do outro lado do mundo". Vamos ver se conseguimos publicar o livro ainda em Junho e, se tivermos candidatos, podemos distribuir alguns pelos nossos leitores. Aceitamos candidaturas...

o vento de Primavera
do outro lado do mundo
é de Outono.

domingo, 9 de maio de 2010

Que me espera?

Que me espera
quando regressar da guerra?
Os cantos das mesas arredondados,
O chão gasto e polido
Os assentos das cadeiras debotados...
Que me espera?
Só sei que lá estará o silêncio
Emboscado entre os sons da casa
Esperando uma aberta
Para me perguntar
Se valeram a pena
Os clarins e as feridas
As fardas e os medos.
E se eram esses
os ideais...

domingo, 2 de maio de 2010

La realité...


(Clique na imagem para a tornar maior)
depasse la ficcion". Também se diz que "a vida imita os romances" e não, como se podia pensar o contrário...

Há tempos publiquei neste blog um haiku que era assim:


um pássaro

passou pela tua cabeça -

de longe sorriste.


A ideia era criar uma leitura dupla entre uma ideia feliz que nos assoma o espírito ( e que nos faz sorrir) e uma cena real que presenciei quando vi uma pessoa ao longe e o vôo de um pássaro parecendo que atravessava a cabeça.

Há pouco ao ver as fotografias que tirei em S. Petersburgo reparei que numa delas, um pássaro tinha passado pela minha cabeça. Eu sorria e ao fundo o Grande Rio Neva e Palácio de Inverno dos Czares da Rússia...

Aqui a realidade seguiu a ficção.

sábado, 1 de maio de 2010

1 de Maio

uma borboleta
pousa na falésia -
o mar à espera.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Se soubesses o que eu sei...

É um hábito bem humano (português?) que depois de alguém pedir um conselho o desvaloriza com observações do tipo "só quem cá está é que sabe" ou "se soubesses o que eu sei não dizias isso"...
E é muito verdade: quem pede uma opinião deve esperar ouvir algo que vem de alguém que não está na mesma posição de quem pede o conselho. Se estivesse na mesma osição diria exactamente o que a pessoa que pediu o conselho pensa e sente. Talvez a questão seja outra: a de valorizar quem vê com olhar inabitual e estrangeiro o que nos parece tão óbvio, inexorável e inevitável. "Se eu soubesse o que tu sabes, diria exactamente o que tu dizes... mas como sei outras coisas... quem sabe o que eu sei não te pode ser útil?"

grande silêncio
parece que as flores
pararam a ouvir.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Em Romeno

Acabo de receber o livro do International Haiku Contest realizado no International Festival Origami Peace Tree. Este Festival realizou-se na cidade de Iasi, Roménia em 2009.
O livro publica os poemas apresentados neste Festival e tem por título "One thousand Cranes" (em Romeno "O mie de Cocori" e em Português algo parecido com "Mil grous".
Dois dos meus poemas estão publicados neste livro e vou transcrevê-los em Romeno. Alguém dá um palpite de como são em Português?


ploaia de iarnã
mã preface -n origami.
Curând primãvarã.


un copac tâiat.
Cerul rãmas in locul sãu
atât de adânc.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ficou bonito...



Ficou mesmo bonito o logo das comemorações dos 150 anos da assinatura da assinatura do Tratado de Amizade entre Portugal e o Japão. No rodapé vêem-se as três datas mais significativas: a de 1543 - chegada dos portugueses ao Japão, 1860 - a assinatura do tratado e a actual.
Por cima, o Monumento das Descobertas em Belém e o grande Sol Nascente a aparecer por detrás. Quem sabe não é possível captar uma imagem fotogrática semelhante à do logo?

domingo, 18 de abril de 2010

Uma Prenda de Primavera

Ela há dias de sorte: hoje Yvette Centeno faz-me chegar um poema que ofereceu a este blog. Antes de mais ele aqui está:


Cai a tarde
passam morcegos
no espelho da cidade
fogem da escuridão
atravessam as almas.

E agora o mais me impressionou nele. De um ponto de partida calmo, crepuscular e aparentemente tranquilo, gera-se o movimento e o prenúncio da noite, ou melhor, da Noite. O movimento cria-se pelo paradoxo dos morcegos não correrem para a escuridão mas sim dela fugirem; o prenúncio é dado pelo seu vôo que não só atravessa o ar mas fere as almas. E talvez seja este atravessamento que melhor sintetiza o ambiente do poema que sob uma capa quase bucólica, fala de uma improvável fuga à escuridão e de uma inexorável vulnerabilidade da alma.
É um texto muito denso na sua aparente simplicidade mas também outra coisa não seria de esperar da pena que o escreveu.
Muito obrigado, Yvette!

sábado, 17 de abril de 2010

Auf Deutch, bitte!

Encontrei o poeta austríaco Dietmar Taucher no Festival de Poesia de Druskininkai na Lituânia. Um homem ainda jovem e com um olhar muito arguto sobre o mundo mediato e imediato.
Dietmar Taucher publica uma revista intitulada CHRYSANTHEMUM que pode ser consultada em www.chrysanthemum-haiku. net.
No número da revista que acaba de sair, estão publicados alguns dos haiku feitos pelos poetas participantes no Festival. Dois dos meus textos aqui estão publicados com a curiosidade de estarem pela primeira vez traduzidos para a Língua de Goethe.
Aqui ficam. Obrigado Dietmar!


sentado na cama
luar nos meus pés nús -
Outono em Druskininkai.

sitting on the bed
moonshine on my bare feet -
Autumn in Druskininkai

Im Bett sitzend
Mondschein auf meinen bloßen Füßen -
Herbst in Druskininkai.





o arco-iris
nas folhas do castanheiro -
Outono em Druskininkai.


the rainbow
on the chestnut tree's leaves-
Autumn in Druskininkai.


der Regenbogen
auf den Blättern der Kastanie -
Herbst in Druskininkai

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Dmitri Yassov


Estou de regresso de mais uma viagem a São Petersburgo - a cidade de São Pedro. Uma viagem sempre povoada de magia, beleza e experiências que me ajudam a entender melhor Portugal e a minha vida.

Lá recortei de uma revista esta foto de um famoso herói da Rússia/União Soviética. Este homem - uma lenda viva - foi herói de guerra e ocupou os mais altos cargos na hierarquia do seu país. A farda que Dmitri Yassov enverga mostra isso mesmo: uma vida longa, coberta de reconhecimento do seu valor e mérito. Impressionante...
Mas não foi este facto que me impressionou: foi a sua expressão na fotografia. Algo entre o cansado, o triste e mesmo interrogativo. Uma face que podera estar a perguntar:"Tudo "isto" valeu a pena?". É uma foto profundíssima no seu significado humano. Quem este homem com a sua farda; quem é ele sem ela? E tudo parece tão teatralmente dependente dela...
Aqui, onde esperaríamos um olhar garboso, sereno e feliz, encontramos um homem talvez céptico, talvez inquieto, talvez triste. É um exemplo do que o poeta António Gideão chamou "esse animal aflito"...

Meu respeitado herói: tudo o que fizeste valeu a pena se achas que valeu a pena. E se sim, deleita-te com o tinir das medalhas. Que elas te aplanem o sono e que o seu brilho motive outras pessoas a dar o melhor de si.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Mode d'Emploi

Já por várias vezes aqui referi a qualidade da revista de poesia Haiku "The Heron's Nest". Acaba de ser publicado um novo número (que pode ser pedido em http://www.theheronsnest.com/journal/

Gostava de aqui publicitar umas poucas mas certeiras orientações para quem quer escrever poesia haiku da "The Heron's Nest"



Present moment magnified (immediacy of emotion)
Interpenetrating the source of inspiration (no space between observer and observed)
Simple, uncomplicated images
Common language
Finding the extraordinary in "ordinary" things
Implication through objective presentation, not explanation: appeal to intuition, not intellect
Human presence is fine if presented as an archetypical, harmonious part of nature (human nature should blend in with the rest of nature rather than dominate the forefront)
Humor is fine, if in keeping with "karumi" (lightness) - nothing overly clever, cynical, comic, or raucous
Musical sensitivity to language (effective use of rhythm and lyricism)
Feeling of a particular place within the cycle of seasons

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Peregrino


"Peregrino" é um pequeno livro de Armando Martins Janeira (biografo de Wenceslau de Moraes e embaixador de Portugal no Japão) editado pela "Pássaro de Fogo".

É um livro de grande sensibilidade que fala do Japão e de Wenceslau (sobretudo sobre a inauguração do monumento a ele erigido em Tokushima em 1954) em que nos sentimos convidados previlegiados a presenciar as cenas descritas. Armando Martins Janeira foi certamente tocado pela mesma energia encantatória que rendeu Wenceslau.

O livro foi-me oferecido pela D. Ingrid Bloser Martins, viúva do autor e ela mesma personalidade marcante desta ponte cultural entre Portugal e o Japão. Obrigado!



terça-feira, 6 de abril de 2010

5 haiku de Páscoa

esquecido
no meu bolso um recibo
de dois lanches.



ainda crús de tudo
os cachos de uvas
em Abril.


queima como sal
a luz do sol na praia -
telemóvel: não vens?


brisa da tarde
varre por dentro as árvores
para os pardais a chegar.


enormes, a secar
as cuecas da vizinha
enfim a dar a dar.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Gulbenkian na Primavera













A Prima Vera assoma em toda a parte. Mas mais nos jardins. No Jardim da Fundação Gulbenkian - a natureza vestida de domingo - está cheio de amostras desta Prima Vera. E até não faltou a própria rã de M. Bashô que veio aquecer-se ao terno Sol de Março.


terça-feira, 23 de março de 2010

Publicação na "Nadaline"


(Clique na imagem para a tornar maior)
Já tinha dito aqui que a revista "Nadaline" da Estónia publicou os meus 21 Haiku "GAZA". Imagino que nenhum dos meus leitores os poderá ler mas, de toda a maneira, aqui fica o testemunho. E sempre o meu agradecimento ao poeta Andres Ehin que os traduziu.


As I wrote before, "Nadaline" journal from Estonia, published my 21 Haiku "Gaza". I imagine that no one of the readers of this blog will be able to read them, but, anyway here "l'épreuve du crime". And thank you again for transelation, Andes Ehin!




segunda-feira, 22 de março de 2010

Torre

Hoje, dia 22 de Março, à entrada da Primavera, estive na escola da Torre em Lisboa. Estive lá para, juntamente com outros familiares, falar às crianças de poesia.
E o que parecia difícil tornou-se muito fácil: as perguntas das crianças foram (como se deve esperar) inteligentes, pertinentes e muito estimulantes: "Distingue a sua poesia da de outros poetas?", "Como é que se escreve poesia?", "Em que se inspira?", etc.
Para ilustrar o que é o haiku - o tipo de poesia japonesa que lhes fui falar - levei e ofereci a cada criança uma pequena concha de madrepérola apanhada nas praias do Algarve no Verão passado. A concha serviu para ilustrar que a beleza afinal está "nos nossos olhos" e que se a procurarmos ela não nos deixará partir de mãos vazias. Assim, a ideia não é procurar a "perfeição" ou a "simetria": é olhamos para a nossa concha dialogando com ela independentemente de ela parecer perfeita ou não. E nem imaginam o que as crianças viram nas suas insignificantes ( e imperfeitas) conchas: transparência, veias, lisura, arco-iris. manchas, formas evocadas, enfim... Talvez a mensagem tenha passado: a poesia é feita por pessoas imperfeitas sobre coisas imperfeitas mas pode acabar por ficar bem...
Disse-lhes: sabem porque é que o haiku tendo só 3 linhas é um texto suficiente? É porque que a outra parte da poesia tem que ser completada pelo leitor. E logo surgiram as opiniões: Ah... um haiku é um puzzle incompleto, quem o lê é que o completa...
Devia haver muitos letreiros em todos os locais públicos que tivessem escrito: "É proibida a entrada a quem não confiar em crianças!". (Jesus disse uma coisa parecida, não foi?)


sala dos 5 anos -
um feto despenteado
pelo sol da manhã.

domingo, 21 de março de 2010

21 de Março

Hoje chega ofialmente a Prima Vera. Os primeiros brotos, a vida a nascer de ramos que pareciam vencidos, secos e mortos pelo longo Inverno deste ano. E com ela vem a esperança de beleza, do morno, do fagueiro. Vem a esperança de uma vida que, num mundo onde tudo parece estar em risco é, mesmo assim, o mais constante e fiel que temos.
Com a Prima Vera vem também a Poesia, esta comprovadamente mais céptica em relação à felicidade. Mas mesmo assim agregada à renovação e a um novo sopro semelhante àquele que, no Genesis, fez Adão respirar.
Estavamos a precisar de ti, Prima Vera; sempre precisamos de ti, Poesia, em todas as estações do ano!



os melros cantam
desde as três da manhã -
calma! Já vou!

terça-feira, 16 de março de 2010

Primavera III

cheira a Primavera!
A vizinha está a usar
um novo detergente.

Trânsito

- "as voltas que o mundo dá!"
-"e as voltas que damos ao mundo..."
- É verdade... nascemos na mesma terra"
- "E até bem próximos..."
- "... e levamos estes anos todos para nos encontramos"
- "Só foi pena ter sido por um acidente de trânsito" - disse o Mercedes ao Opel.

sexta-feira, 12 de março de 2010

E ainda...

A Luzia Lima-Rodrigues fez uma outra versão do haiku postado antes. Eu acho que ficou bem melhor. Obrigado!


entre a blusa e a pele
entra a lua e a mão -
ambas cheias.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Uma quadra

salvo-me fugindo,
salvas-te ficando:
assim iludimos
o tempo que vai passando.

terça-feira, 9 de março de 2010

Hairóticos / Hairotics

vinda de cima
entre a blusa e a pele -
a mão. Cheia.

from above
between the blouse and the skin -
a hand. Full.




há dez minutos
inclinada sobre a mesa -
ainda não leu nada.


ten minutes passed
bending on the table -
she didn't read anything yet.

domingo, 7 de março de 2010

Nadaline

Ontem, sábado, foi publicado na revista literária "Nadaline" da Estónia o conjunto de haiku "GAZA". A tradução é de Andres Ehin (já aqui colocada neste blog).
(Como será ler os meus haiku sobre Gaza debaixo da neve? Estou curioso...)


na foto do deserto
cai um floco de neve -
que vai nascer ali?

sábado, 6 de março de 2010

Prima II (take two)

inexorável como uma borbulha
o ar morno sopra ao de leve
embrulhando
perfumes ainda verdes.

toda a Primavera
está neste vento:
frésias e junquilhos
flores de amendoeira e lírios.

E tu também.
Tu, sem a qual as flores seriam irrisórias
e a Primavera
um espasmo pueril.

Prima II

É por agora que a terra se rende à Primavera.
Estava eriçada nos seus frios,
na radicalidade dos seus ventos,
o chão apertado pelas chuvas,
e o sol longo e impotente.

Mas está a acabar o cerco.

Inexoráveis e capciosas as raízes,
os brotos, as azedas,
as primeiras amendoeiras
e os primeiros ventos mornos
agitam em segredo a terra parada.

E ela rende-se alegre a este manso conquistador:
entreabre - e depois escancara - as suas portas
com uma secreta satisfação de ser conquistada.

Como imaginamos a conquista de uma Mulher.
Ou de um Homem.

sexta-feira, 5 de março de 2010

500

O que se vê quando se olha para trás? Quando olho para trás deste blog vejo que faltam 14 mensagens para chegar às 500. Um dia vou perder um tempito a ver o que tenho vindo a pensar, a sentir, a citar e a esquecer.
Uma ideia para comemorar era fazer um concurso nacional de haiku. Alguém alinha?

quinhentos
muito menos do que graõs de areia
na minha mão.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Prima

e lá de longe
de onde nasce o vento
a Primavera!


from far away
where wind begins:
Spring!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Heron's Nest 2009

Já aqui mencionei várias vezes a grande qualidade e devoção ao haiku que tem a revista "The Heron's Nest" (literalmente "O ninho da garça".
A revista acaba de dar a conhecer os melhores haiku que publicou no ano de 2009 depois de uma votação entre todos os seus leitores. Aqui fica o resultado:




Grand Prize: POEM OF THE YEAR (18 votes totaling 131 points)
mile high . . .
adding my breath
to the clouds
— Jim Kacian (March Issue)


First Runner-up: (13 votes totaling 106 points)
Milky Way —
maybe tonight
I’ll conceive
— Brenda J. Gannam (December issue)


Second Runner-up: (13 votes totaling 104 points)
graveside —
my breasts
leaking
— Nora Wood (March issue)


Third Runner-up: (14 votes totaling 86 points)
honeysuckle
where you first hear
the river
— Burnell Lippy (September issue)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Se não acreditasse, não via.

Ai as provas... nós que andamos atolados em triliões de informações contraditórias sobre se "o Governo quis", "se o primeiro ministro mentiu", etc. etc., somos tentados a fazer um juizo final e definitivo sobre o que realmente se passou... Tentação que só aceitamos se formos ingénuos. E porquê? Porque não se julgam factos; fala-se de emoções, de interesses e de estratégias que não estão claramente postos em cima da mesa.
Esta "comissão de inquérito" vai tentar desfazer o "nó górdio" de provar pelos factos se o governo teve essas intenções: "ver (provar) para acreditar!!!".Mas o assunto não é esse: não é ver para crer.
O que se passa aqui, como em tantos âmbitos da vida pública e privada, é: "Acreditar para ver". Conforme o que acreditamos, vemos "coisas" e que até (ai de nós...) nos parecem óbvias. Quem terá legitimidade para dizer que estamos certos ou errados?
Ah este difícil contrato social...


restos de nespresso
batalhões no chão da sala -
já ouço clarins.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Solidão

A jornalista Sara Roy acaba de publicar um artigo sobre Gaza. E termina com estas dramáticas palavras: "O povo da Gaza sabe que foi abandonado. Algumas pessoas disseram-me que só sentiam esperança quando estavam a ser bombardeadas: assim pelo menos alguém lhes daria atenção".
Até uma bomba faz companhia contra a solidão do cárcere... (Quando é que "isto" acaba?)

previsão do tempo -
enfim alguém sabe
o futuro, em Gaza.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Coluna

Vertebral. Um traço que corre de Norte a Sul: de cima a baixo (e também do direito à esquerda, do frente e do atrás). Ter coluna = ter valores, orientação. Não pensar que vale tudo, não agir como se o certo não existisse. O certo existe: pode não ser perene mas existe e aprecio as pessoas que no meio de tanto nevoeiro e ventos contrários empurram o corpo e a coluna para o estreito caminho (Basho...) que acreditam que está certo.

no vendaval
os ramos quase a partir -
mas não.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Quaresma

o vazio puxa-me o olhar.
Sem cores nem formas,
com luz parada e mortiça,
penso na noite impensável
como se não acreditasse no mar
com ele a bater
nos meus pés nus..

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Valentim

tomei banho
como a primeira vez fosse -
São Valentim

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Andar à pesca...

Existe uma expressão em língua inglesa que acho muito curiosa: "fishing for compliments". Diz-se que anda à pesca de cumprimentos a pessoa que faz "tudo e mais um par de botas" para receber algo que lhe assegura que fez alguma coisa de bom. Esta pesca pode penosa de se assistir: há pessoas que, em lugar de ver o cumprimento como uma consequência, o vêem como um objectivo. Como se fossem as borbulhas que provocam o sarampo e não o virus do sarampo que provoca as borbulhas...
É bom quando sabemos quantos centímetros temos de altura e quantos não temos. Andar nesta volátil pesca denota, antes de mais, que a pessoa não confia no mérito do que fez: mais depressa faz fé num elogio de circunstância do que numa análise mais objectiva.
Andar à pesca de cumprimentos... com cana ou rede é sempre um bocadinho deprimente de ver... (e vê-se muito...)

primeiras flores:
a Primavera chega devagar
mas inevitável.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Passado

Passado. Passado é aquela parte do tempo que nós (ou alguém) já percorreu com os seus passos. Passado, caminhado, percorrido. Mas também há passos para dar: nem todos os passos são passos/passados. Hoje brindo aos passos que passam (avançam) para o amanhã.

o que andei passou
dou passos para o que vem aí -
como o caranguejo?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Fevereiro


(Clique na foto para a tornar maior)
Neste Fevereiro frio, já espreita a Primavera: as "azedas" - as vibrantes flores dos trevos - enchem os campos de um amarelo vibrante. Hoje mesmo vi ao lado da estrada duas árvores ainda nuas de folhas mas já cobertas de flores brancas. É isso!!! Toca a chamar a Primavera!

Aí vai uma foto (do abençoado quintal da Ivany) para ajudar as árvores a lembrar o que é ter as folhas a fazer cócegas nos ramos...Huuuuummmmm...



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

a gate left open


Alice Frampton has been coordinator of Haiku' Canada's pacifi-kana region and Asssociate Editor of "The Heron's Nest".

She wrote a delicate and rich book named "a gate left open". It'a a book marked by an acute observation of Nature and a refined humor. It's a book where education is present together with a humanistic view of that complex process of bending the knees to teach someting to someone.

Thank you, Alice!



Alice Frampton tem sido a coordenadora da região do Pacífico da Sociedade Haiku Canadá e Editora Associada da revista "The Heron's Nest".

Escreveu um livro rico e delicado chamado "a gate left open". É um livro marcado por uma observação pertinente da Natureza e um humor refinado. É um livro onde a Educação está presente e acompanhada por uma visão humanista daquele processo que nos leva a dobrar os joelhos para ensinar algo a alguém.

Obrigado, Alice!


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Movimento

O movimento está em todo o lugar, As coisas que convencionamos chamar "paradas" e "inertes" estão em movimento. O problema é que a nossa efemeridade não nos permite ver este movimento. Duramos tão pouco que só muito dificilmente conseguimos ver que a vida é um filme e não uma fotografia. Ver movimento nas coisas (pessoas, montanhas, plantas, ...) paradas... Ora aqui está um bom ponto de observação para pensar em haiku...

corre luz no telhado -
reflexos dos carros ao sol
penteiam as telhas.


.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Andres Ehin


Andres Ehin is an excellent poet from Estonia. He has a large number of publications in a lot of languages. Recently he published the haiku book "A Chafer Kisses the Moon" in Japan.
I met Andres Ehin in Lithuania. He is a man with a sophisticated sensibility and with a very cordial interaction.
He translated into Estonian my booklet "GAZA". I don't resist to publish here the work of Anfres Ehin (maybe only for visual purposes...).
Thank you very much. Andes!
Andres Ehin é um excelente poeta da Estónia. Tem uma vasta obra publicada em múltiplas línguas - entre as quais galego ("Vello ceo Nórdico")- e uma galeria repleta de prémios significativos. Escreve haiku e publicou no Japão há pouco tempo um livro lindíssimo chamado "A Chafer Kisses the Moon"
Encontrei na Lituânia Andres Ehin. Foi um encontro de uma grande cordialidade e de entendimento fácil. Deparei-me com uma pessoa com uma requintada e profunda sensibilidade.
Andes Ehin traduziu para estoniano a série dos meus 21 haiku "GAZA". Eles vão ser publicados na Estónia. Não resisto a deixar aqui (certamente só para prazer visual dos leitores) os meus textos em estoniano. Muito obrigado Andres!


Gaza haikud
1
seinast lööb läbi
terasest liblikatiib
Gaza liblikad
2
kes kallutas maa
rannatu mere rüppe
ulguvas Gazas
3
mürsk otsapidi
oliivitüves kinni
pildike Gazast
4
Jumala käsi
pigista kivi seest vett
januses Gazas
5
ainult raketid
on väleda taibuga
juhmunud Gazas
6
kirudes saatust
põgusalt antakse suud
lahku viib Gaza
7
armsate silmi
veereb põrandaprakku
armutus Gazas
8
palmipuud on täis
sõjasaastaseid datleid
Gaza puiesteil
9
oliivide tuhk
põletab päevalilli
Gaza peenardel
10
seintel on kirjad
Jumal mispärast oled
hüljanud Gaza
11
luurib ja puurib
kõrgustest täiskuukiiker
kaitsetut Gazat
12
Jumal mis plaani
sa meiega pead hinge-
vaakuvas Gazas
13
uhiuus saabas
vedeleb tolmusel teel
hüljatud Gazas
14
ära sa iial
pilku taevasse heida
kui oled Gazas
15
lapsed tahaksid
pigem pimedad olla
silmitus Gazas
16
varblasi magab
paljaks põlenud oksal
Gaza keskpargis
17
hoiata vaikus
meid järgmise ohu eest
petlikus Gazas
18
tihke müüri ees
pole soovideks ruumi
tänases Gazas
19
naine ei teagi
kelle matustel nutab
leinavas Gazas
20
viigipuu õide
ei lähegi tänavu
kõrbenud Gazas
21
prognoose teha
julgeb ilmaennustus
isegi Gazas

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Haiti , ai de ti (II)

Não se pode prever o futuro ainda que seja ele que ilumina a nossa vida. Dizem as pessoas "prudentes": `´E preciso aprender com o passado!". Para mim, nada mais bizarro! Aprender com o passado? O que ilumina o nosso presente é a nossa visão do futuro. O que é o presente para quem não consegue olhar para um ponto imaginado? Lá. Onde acaba o horizonte.
(Quando assentar o pó, para onde vai olhar o povo do Haiti?)

Haiti, ai de ti...

Quem, discernindo, pode antever o futuro?
Agora foi o Haiti... Massacrados pela história, pelos governos curruptos, pela sua situação estratégica, pelo menospreso dos poderosos, faltava ainda esta catástrofe aos haitianos. Catástrofe natural? Não: social. Um abanão de terra, numa sociedade há muito desiquilibrada pela ganância e pelo desamor.

Agora
as ruinas do Haiti
vêm-se melhor.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Experi(ci)ência

A experiência pode ser uma ciência, um conhecimento se... (o importante é o "se") refletirmos sobre ela e em consequência disso mudarmos ideias, representações e comportamentos.
Se assim for então talvez possamos dizer que em lugar de "experiência" temos "expericiência".


que gatos ariscos!
Quando lhes ameaço bater
fogem!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sono

depois da insónia
sono da madrugada -
sol no corpo nu.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Ansiedade

ansiedade -
ao ver que chegava à praia,
afogou-se.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Seagull

only a photo
remained of the slow flight
of the seagull

só ficou uma foto
do vôo lento
da gaivota.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Outra versão

cai a folha
o pardal olha imóvel -
convite à valsa?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

D'aprés Kerouac

o pardal olha
a folha de Outono -
convite à valsa?

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Explicações...

O que é isto do mundo às avessas? A frase pode ter mil interpretações todas válidas e pertinentes mas eu gostava de juntar uma derivada do fracasso da Conferência de Copenhaga. Passo a expôr: estamos permanentemente mergulhados em apelos bem humorados, inteligentes e criativos ao consumo massivo. Mal saídos do Natal já começam os saldos...
No meio deste consumo desenfreado aparecem "coisas" como: "salve o planeta comprando (mais) isto".
Alguém tem dúvida que o que se compra com o rótulo de ecológico é uma trapaça até porque não precisávamos desta coisa? E que o resto (o que não é ecológico) é uma trapaça ecológica também? Era isto que eu queria dizer com o mundo às avessas: estamos interessados em que o aço do canhão seja reciclado. O que o canhão faz, isso já é outra coisa.
Às avessas, pois claro!

na noite fria
o ar parece mais puro -
refinaria.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Ver o mundo às avessas a ver se o vemos direito!


MMX

Novo século, nova década, novo ano. Tudo novo. Tudo? Claro que não. Novo só o ânimo, o sonho, olhar para para além para ver o que não existe agora e que talvez não exista nunca. Cada vez que este ínfimo grão de poeira a que andamos agarrados dá uma volta ao luzeiro que lhe dá vida, nós mudamos a contagem do "tal" tempo. E convida-nos a (re) animar, a (re) começar, a (re) tomar e sobretudo a (re) sonhar (não confundir com "ressonar").
Ninguém é feliz sozinho, portanto (e até por isso) desejo a quem ler estas linhas um novo ano na esperança de mais, de mais longe e de melhor.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O meu papel

Andavamos a fazer que não viamos mas as livrarias estão a desaparecer. Cada vez mais e cada vez mais depressa, em progressão geométrica. A Amazon vendeu este Natal mais livros electrónicos do que impressos... "Tás a ver a picture?". O Jornal "Courier International" escrevia há pouco um curioso artigo: "Podem as democracias sobreviver sem jornais?". Diríamos "Pode a literatura sobreviver sem livros?". Pergunta idiota ou pertinente?
O certo é que nós, os que lemos livros e produzimos coisas para serem lidas em papel estamos em vias de substituição. Substituição pelo quê? Há quem diga que os blogs têm os dias contados... agora fashion é mesmo o facebook e o twitter...
Só mais uma pergunta: e para onde vai a reflexão, a sofisticação a profundidade dos sentimentos das pessoas? Sim , porque isto não significa que as pessoas são superficiais. A questão é: para onde vai a sua profundidade? (Como um lago...)

ondinhas de luz -
escuridão lá no fundo
e silêncio.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Neve

a urina a bater no esmalte do penico
e o pensamento se fico
a rosa no seu aroma submersa
pensando que é um gato persa
um barco sem som rumo ao mar alto
passa a ponte de Rialto
uma pele quente na nossa barriga
a fazer da pele madeira de Riga
um copo a mais do que se deve
pés decididos a entrar na neve.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Ainda o valor (1)

Regresso ao valor... Este tema tem inúmeras pontas por onde pegar.
Uma outra é que para aquilatar o nosso valor ou o valor dos outros é essencial destrinçar o que é da natureza e o que é o trabalho. Esta polémica ainda está hoje viva, e nos EEUU foi chamada de "nature-nurture".
O valor da pessoa afinal onde está? No génio hereditário, no talento? Ou pelo contrário no esforço, na educação, no aprimoramento? Talvez cada um de nós tenha posturas bem diferentes sobre estes dois componentes do "valor": para uns vale o génio, a predestinação, a centelha de talento, o jeito. Para outros o valor reside no trabalho, na persistência, na aposta em se transcender pela determinação. Onde está o valor? Nos dois dirão os mais conciliadores...
Antero de Quental dizia que a prova final do nosso valor se vê depois da nosso morte. Permito-me discordar: quantas génios morreram no esquecimento e quantos "não-génios" em glória...
Quem reconhece? Eu acho que é mesmo a pessoa. Mesmo enganando-se, sub ou sobrevalorizando-se, é ao próprio criador que cabe a palavra mais isenta sobre a sua própria produção. Ele engana-se? Claro que sim. Mas os outros enganam-se também. E pelo menos há uma vantagem: quando alguém se engana sobre o seu próprio valor, só está a julgar o próprio valor, ao passo que quem se engana sobre o valor do outro engana-se certamente por motivos que não têm a ver com a análise objectiva do valor da obra.


o pinhão já sabe
o que o engenheiro
ainda vai aprenedr.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natal

Que azáfama! Passei cinco dias a comprar coisas. Comprei roupa para a neve; luvas, ceroulas, calças impremeáveis, uma camisola polar, uma malha, um casaco de neve , um gorro. Para a família comprei semelhante: fato de neve, trenós, creme para a pele, etc., etc. depois foram os presentes: nem descrevo tudo o que comprei, quantas vezes percorri com ar perdido as lojas cheias de coisas que não me interessavam... E depois foi a comida: antes de mais o bacalhau das águas frias da Noruega, couves galegas de repolho, pencas, cebolas, batatas, cenouras, ovos. O azeite, oh sim o azeite ! Extra virgem (extra?) como convém e a cheirar ao fruto... E por falar em fruto também os frutos secos: avelãs, nozes, damascos secos, pinhões, figos pingo de mel, figos com nozes dentro, amendoas, peras cristalizadas, ameixas pretas, de Elvas, .... Os doces: o bolo rei: o tradicional (com a dimensão de uma roda de camião) e o especial feito de chila. As rabanadas, a aletria, os bolinhos de bolina e mais isto e aquilo. Às 4 da tarde do dia 24 ainda fui em emergência ao supermercado vizinho comprar umas coisinhas que tinham escapado à memória... Uffff !!! Às 7 e meia preparei-me para cozinhar o bacalhau para a família. A logistica pronta: as panelas enormes alinhadas como numa formatura com a água a ferver e à espera de cumprir a sua fiel missão anual. Estava tudo a postos... tinha valido a pena esta correria de compras de Natal... Estava tudo comprado e previsto! Mas...
"Eh pá! Onde está o sal?" Não há? Ninguém comprou?. Era isso, não havia em casa sal para cozinhar...
E lembrei-me de Jesus (outra vez ele). "Vós sois o sal da Terra. E se o sal não salgar?" (Fica tudo sem sabor?).
Neste Natal havia tudo menos o sal. Por fim, inventamos que o sal de mesa fino substituiria o sal de cozinha grosso.... e funcionou...
Prometo não me esquecer do sal para o ano: mesmo que não tenha tempo para comprar aquelas pantufas (iguais às do Noddy) para a minha mãe (e que ela talvez não vá usar).
Prometo!


na consoada
só faltou o sal -
Natal de agora.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Ainda o valor

Retomo um post que escrevi no início de Dezembro. Quem pode aquilatar o valor do que uma pessoa qualquer faz? Cinco pontos (como os dedos da mão):
1. Avaliar é só o que a pessoa faz e não o que a pessoa é. Creio que grande maioria (a grande maioria mesmo) das pessoas é humana e rege-se por valores de não fazer mal ao próximo. Uma minoria desta maioria segue mesmo o princípio "FAZ aos outros o que gostarias que te fizessem a ti". A voz do povo tornou este "FAZ" em "NÃO FAÇAS"...
2. O que a pessoa faz tem diferentes constrangimentos. Antes de mais o do tempo. O que se faz pode ter significado num momento e deixar de o ter noutro. Um artista submerso em aplausos pode não voltar a ouvir o reconhecimento do seu trabalho. "Já fui valorizado mas agora não sou...". Também há o valor temporal voltado para o futuro: "Algum dia me reconhecerão!". O tempo é pois enganador.
3. Depois o do espaço: ser valorizado onde? No ciclo restrito da profissão, dos amigos? ao nível de uam região, nacional, internacional, mundial? Qual é o certo?
4. E ainda "por quem?".Parece que não há reconhecimentos unanimes. Sempre haverá alguém que ao lado dos elogios diga por exemplo "não fez mais do que devia", "só olhou pela sua vida", "nada de original", etc. etc. Quem dá valor? Que valor têm as críticas? E os elogios?
5. Certamente que não somos nós próprios que damos a dimensão mais objectiva ao nosso valor. (Se desvalorizassemos o que fazemos não o teríamos feito...). Na verdade não podemos confiar no nosso juízo, não podemos confiar no dos outros, não podemos confiar no tempo nem no espaço.
Enfim o que valemos? Valemos certamente o que podemos lucidamente extrair desta amálgama de informações erradas. Se calhar valemos só aqueles fugazes prazeres que conseguimos dar aos outros. É isso: valemos o que damos. nem mais nem menos!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Jesus e Janus

São mesmo parecidos: um o deus dos cristãos o outro o deus romano. Janus é um dos deuses mais interessantes para lembrar nas comemorações como é esta do Natal. Janus é representado com duas cabeças: uma a olhar para a frente e outra a olhar para trás, uma para o passado e outra para o futuro. Janus assume o que todos os deuses gostariam de ser: uma referência e uma inspiração. Outra coisa interessante que eu acho de Janus é ele não ter uma terceira cabeça para o presente: na verdade, o presente não existe e é só uma débil e ingénua tentativa que fazemos de parar o fluir do tempo.

a flor de ontem
não parou de murchar
até hoje.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Natal (outra vez?)

Ainda não gastamos as prendas do ano passado e já aí está, pertinho, o Natal de 2009! Nada de muito novo: as alegrias esperadas (mas sempre boas), tristezas do costume, as promessas habituais... Como toda a gente que eu conheço acho que o Natal anda às avessas e trocamos uma data de valores (como todos) discutíveis, por outros (ainda mais) discutíveis.
A ver: trocamos a história do nascimento de Jesus por um velho obeso, vestido de vermelho que não consta que saiba fazer mais nada senão dar prendas, trocamos o tempo para estar com os amigos por ansiosas incursões em repletos centros comerciais, trocamos a festa do nascimento pela festa do consumo. Não deixo de me enternecer com a eterna história do nascimento de Jesus: um deus num estábulo, um deus que nasce rejeitado e termina assassinado, com uma vida ao lado do poder e do dinheiro e tão fortemente sintetizou e guiou a vontade de transcendência dos homens. Será que a história de pobreza e humildade não era suficinetemente inspiradora para as pessoas que querem ser os senhores das suas vidas?
É Jesus sem dúvida que vale mais (a grande surpresa) neste Natal.

geada de Inverno
sobre os campos
um fumo.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Comunicação

Para as pessoas que estudam a comunicação o que eu vou escrever a seguir pode ser uma evidência infantil. Mas como eu não estudo a comunicação, transmito esta ideia com a espontaneidade de quem achou interessante uma ideia que lhe fulgiu no espírito...
Comunicar é dividir, é estabelecer campos. O silêncio é unificador e ambíguo mas a comunicação quando se manifesta traça linhas, estabelece categorias e, crie ela unidades ou diferenças, força a tomar partido nem que seja num discreto e subtil processo mental.
(Será por estes riscos que se fala e se escreve cada vez mais e se comunica cada vez menos?...)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Portugal, 2009

Ontem, uma colega minha, professora universitária, falava-me do seu neto de 7 anos. Uma criança adorável, criativa, viva e cheia de vida. Mas... negra. Que diferença faz "isto" em Portugal no ano de 2009? Muita, diz ela. O neto sofre na escola: há crianças que o atormentam com insultos, monosprezo, chacota e agressões. Este menino chora quando chega a casa e tem pesadelos pelas noites atormentadas. Pertence a um grupo de música e quando a mãe lhe disse que não podia ir a um ensaio deste grupo ele disse "Não faças isso. Este ensaio faz-me esquecer que sou negro!".
Portugal? 2009? Oh suprema vergonha! Mil vezes maldita a história que alicerça esta prática anti-humana e que faz tantas vítimas: as da segregação como é este menino e as vítimas da estupidez como são os seus agressores. Portugal, 2009. Eu pensei que "isto" já não existia...


tantas flores no campo
nenhuma abana igual
ao sopro do vento.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Partidas...

Mais uma amiga que partiu antes do tempo...

"uma mulher
que durante a sua curta vida
sempre creu na eternidade".

Dois haiku

à flor da água
a gaivota segue
a sua sombra.


no gume da faca
passeia a formiga -
ah! A leveza...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Balanço

Sempre interessante a polissemia da língua portuguesa: balanço é ao mesmo tempo "equilíbrio" e "avaliação". Talvez queira dizer que fazer um bom balanço, uma avaliação, implica necessáriamente que se tenha um bom equilíbrio entre todos os factores que devem ser considerados para que essa avaliação possa ser considerada justa, fiável e útil.
Fim do ano: tempo de avaliações. Mas não esqueçam... com equilíbrio. Não vale olhar só para o que não se fez... nem só para o que se fez... nem só para o que correu bem... mas também para o que correu mal.
Que energia e lucidez metemos em cada coisa? E o que recebemos em troca? E o que demos?

cada vez mais devagar -
o baloiço para trás
e para a frente.


slower and slower -
the swing backwards
and forward.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Dezembro

O céu cinzento de chumbo e de água parece ir desfazer-se em chuva a qualquer instante. Pressentindo a chuva, o vento começa a ficar mais forte e mais rasteiro. As árvores parecem suspirar quando a ventania lhes açoita os ramos. No parque infantil...


Céu de chuva -
só estremece os baloiços
o vento.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sombras

olhei bem -
as sombras, todas,
são negras.




I looked twice -
the shadows, all of them,
are black.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Cavalos Lusitanos /Lusitanian horses

Some days ago I visited in Alentejo a farm wher "lusitanian" horses are raised. There they create the more "perfect" horses of this kind. Our visit were done by an expert. Someone asked: "Finnaly, what to do you consider the best horse in the world?» The answer coming from an expert was astonishing: "They are all good. There are not such thing as "bad horses". What we have to do is find its qualities: some are good to run, other to jump, other to pull,...".
(There are not bad horses? Please sent this information to the TV news. We need it desperately)

a horse
looks eternal
when gallops.



Há alguns dias visitei, numa gloriosa tarde de Outono, a Coudelaria de Alter no Alentejo. Lá se criam e apuram os mais perfeitos cavalos a que se decidiu chamar "lusitanos". Tivemos visita guiada e os turistas acidentais podiam ir colocando perguntas. A certa altura alguém perguntou: "Mas afinal qual é o melhor cavalo?". A resposta, vinda de alguém que busca incessantemente a excelência da raça, foi surpreendente: "Bons são todos. Não há cavalos maus. Nós temos é que descobrir em que é que cada cavalo é bom: uns para atrelar, outros para correr, outros para saltar, outros para ensino, outros porque têm um andamento suave,..."
Que excelente notícia: não há cavalos maus! (Dava, por favor, para pôr esta notícia a abrir o telejornal? Aqueles que falam dos ciganos e dos tiros na Cova da Moura?)


um cavalo -
parece eterno
quando galopa.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Reminiscências

Coisas da memória (que os neuropsicólogos dizem ser a coisa mais afectiva que existe...). A minha memória atribui a Jesus a seguinte frase (mais ou menos...): "pensando bem, que poderá acrescentar um centímetro que seja ao seu tamanho?"
Nestes tempos em toda a gente anda em bicos de pés, de tacões, em cima de bancos (de Bancos...), a "fazer peito", a "empinar o nariz", enfim a fazer os impossíveis para parecer maior do que é, lembrei-me desta frase tão sábia e tão misericordiosa para com os garnizés a querer fingir de perús (é tempo de Natal, não esqueçam, senhores perús...)

à lareia
o gato já não lembra
o pêlo molhado.

domingo, 15 de novembro de 2009

Prenda de anos...


(Clique na foto para a tornar maior)

Desculpem se é "too personal" mas este blog também é... Fiz anos há pouco tempo e, há cinco anos atrás, recebi uma prenda inigualável: a minha filha Melissa nasceu no mesmo dia que eu!


E aqui estamos nós neste dia de Novembro, com a gloriosa Pousada da Flor da Rosa atrás das costas, a celebrar gostarmos tanto um do outro...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O tamanho interessa?

Pelo menos os pequenos dizem que sim. Já Boris Vian dizia que "le probléme de la bombe c'est où elle tombe...".
Sobre o tamanho lembrei-me do seguinte:

Quer aumentar o tamanho da sua sala?
Varra-a com uma escova de dentes!

(É tudo relativo, nicht vahr?)

Amen!

sábado, 7 de novembro de 2009

Gaza


It was in one of those long waiting periods in an airport. "It would be nice to publish a booklet with my 21 haiku about Gaza..." Not bad... I took some small sheets of paper from the hotel I slep in the previous night and staredt to dream how the book would be like... the first page... the second page...
When my flight was announced, the book was ready on my head. Then it was necessary to make it real. Luis Rodrigues an outstanding designer and Alan Stolerov a poet which native language is English, gave me a hand.
Yesterday I book came to my hands and I looked it as a father touching the son he imagined.
Of course the book is not for me: it's for you dear friend (mine was ready already in the airport).
Here the cover:
Foi numa daquelas esperas que parecem intermináveis num aeroporto à espera de um vôo de ligação... E se eu publicasse os meus 21 haiku sobre Gaza? Talvez... Peguei em pequenas folhas de papel e sonhei o livro... como seria a primeira página... a segunda...

Quando me chamaram para o avião o livro estava já acabado na minha cabeça. Depois foi a concretização: contei com a ajuda competentíssima do Luis Rodrigues que é um gráfico "de mão cheia" e com o Alan Stolerov que retocou o meu inglês de estrangeiro.

E o livro saiu ontem: lancei-lhe um olhar de um pai que sonhou o filho e que agora, entre o feliz e o felicíssimo, o sente nas mãos.

Claro que o livro não é para mim (o meu já estava feito no aeroporto) este é para ti, leitor.

Aqui fica a capa:



terça-feira, 3 de novembro de 2009

Festival de Druskininkai



Quando o grupo de poetas convidados chegou, vindo de Vilnius, a Druskininkai deparou-se com uma cena insólita e comovente: alguns dos poemas estavam pintados num muro mesmo em frente ao hotel. Este trabalho foi feito por alunos das escolas locais. Confesso que fiquei "entalado" quando vi, tão longe de Portugak um poema meu escrito na parede. Aqui fica o testemunho.

Recordações

Lembro-me de ti
como um cego se lembra
das imagens da infância
em que ainda via.
Não sei
se nestes sonhos és real,
só sei que o que era sentido
deu em emoção.
Não te vejo: sinto que te vejo
como um raio
que quase sempre
queima mais do que ilumina.

domingo, 1 de novembro de 2009

Veneza...

Um video super amador para ver como estava Veneza em Junho lá do alto da torre da Praça de S. Marcos... Vale ou não vale um haiku?



Nobel Saramago

Não sei se foi para arranjar publicidade ao livro "Caim" mas lá que as declarações de Saramago sobre a Bíblia ajudaram as vendas, lá isso ajudaram...
Não vou dizer nada de novo mas... não resisto...
Quando Saramago diz que só se pode ler a Bíblia de modo literal porque a linguagem simbólica é para os teólogos acho que está a cometer um simplismo infantil (não ingénuo). Este simplismo é óbvio: ninguém lê um texto literalmente: todos interpretamos enquanto lemos e essa interpretação pessoal - e portanto única - é na sua essência simbólica e representacional. Dizer que quem não for teólogo só se pode ler a Biblia literalmente é economizar neuróneos (se eu tivesse oitenta e tal anos se calhar também os economizava que eles já não são muitos...)

arrepio
só de falar
do frio do Inverno

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Na próxima semana...

... sai o meu livrinho "Gaza: 21 haiku". É fruto de um sentimento repetido e impotente de quem lê as notícias daquela nesga de terra encravada entre o mar e um muro, assolada por fanatismos e repressões. Que é ser um cidadão de Gaza? Quais são os seus sonhos? E cicatrizes? Deixo aqui ficar um dos 21 haiku:

previsão do tempo -
alguém sabe do futuro
em Gaza.

domingo, 25 de outubro de 2009

Videos

Um poeta japonês gravou as apresentações de haiku no Festival de Outono de Druskininkai. Aqui fica a amostra com os meus agradecimentos.
(Só uma nota: no Japão é costume ler duas vezes cada haiku. Acho uma excelente prática que nos ajuda a entender o sentido mais profundo do texto)
Aqui fica:

http://www.youtube.com/watch?v=-fw3QzDj22Y

terça-feira, 13 de outubro de 2009

No photos

Tenho fotos tão boas de Druskininkai mas não consigo (vá-se lá saber porquê) colocar as fotos no blog. Por agora estamos sem a componente visual o que nos deixa sempre indecisos sobre se uma imagem vale mais que mil palavras ou se uma palavra vale mais que mil imagens...
Para já fica então este haiku:

sonhei que era surdo
a minha mulher pediu
que ressonasse em língua gestual.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Druskinikai 1

Vou publicar algumas fotos e algumas reflexões do encontro de Druskininkai. Não é que falte assunto, é que temo que se não escrever todas estas boas recordações fiquem reduzidas a "vagas lembranças"... "Mas isto aconteceu mesmo?".


sentado na cama
luar nos meus pés nus -
Outono em Druskininkai

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Druskininkai - Lituânia

Caros amigos:

Regressei ontem do Festival de Poesia "Outono em Druskininkai". Quando me convidaram para participar eu não sabia o que era um Festival de Poesia mas agora já sei (mais ou menos). Antes de mais é o encontro. Desta vez 47 poetas de treze nacionalidades. Depois é a partilha: quando se aprende nas sessões de leitura! E ainda os resultados: foi publicado um lindo livro com os poemas dos participantes. Os poemas de alguns dos participantes (entre os quais eu) foram publicados na revista "Literatura & Menas". Voltarei com fotos e mais detalhes. Mas estou de alma cheia...

sentado na cama
o luar nos meus pés -
Outono em Druskininkai.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O de hoje...

já não vejo as pontes
que cruzei para aqui chegar -
e à frente, neblina...

sábado, 26 de setembro de 2009

Futuro

empurrado pelo futuro
olho o presente
como uma vertingem.


o fututo nas costas
o passado na frente -
que pôr-do-sol!

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Geografias emocionais

Foi este o nome que um investigador canadiano deu aos estudos que desenvolveu de forma a melhor conhecer as teias de emoções, de relações, de inter-relações que existiam numa sala de aula. Conhecer que está mais perto de quem e porquê, em que circunstâncias, com que solidez, é , sem dúvida, um desafio que procura desocultar as origens da controversa, instável e por vezes paradoxal "vida em sociedade".
Todos temos a nossa geografia emocional e procuramos de certo cultivá-la de modo a que à nossa volta não fiquem montanhas inóspitas mas sim planícies com rios generosos e florestas benignas. Que tal (às escondidas, é claro!) desenharmos a nossa geografia emocional?

Aquele deserto
esteve sempre ali
ou moveu-se?

sábado, 19 de setembro de 2009

Fios

Era bem curioso que pudessemos ver (ver mesmo) os fios (os fios mesmo) afectivos que nos ligam às coisas e às pessoas. Um espécie de cordoaria afectiva. E aí veriamos quantos fios cada um de nós tem, qual a sua espessura, quais as suas cores, qual o material de que são feitos... Esta geografia de afectos pensando bem, é melhor que continue a existir só no engodo das palavras... Seria quase insuportável (e inútil ?) ter esta "prova dos nove".


entre as rochas
o mar procura o caminho -
ai as palavras...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Outono / Autumn

no chão já frio
folhas torradas -
crepúsculo de Outono.



on the cold ground
roasted leafs -
Autumn twilight.

Um pássaro / A bird

o pássaro
atravessou a tua cabeça -
de longe, sorriste.


the bird
passed through your head -
from far away, you smiled.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O acaso e a necessidade

Muitas pessoas se lembrarão do livro com este título da autoria de Jacques Munod. O tema é muito aliciante: qual o motor da evolução? (E por extensão, qual o motor da criação?) Será o acaso que vai permitindo responder e acertar nas necessidades ou são as necessidades que dão sentido ao acaso?
Sobre a evolução não me pronuncio "por falta de cacifo" mas gostaria de comentar o processo de criação.
Nada vem por acaso: alguma ideia que se assome e que pode parecer fortuita é só uma recombinação inédita de material (anterior, presente ou sonhador) de que dispomos. Por isso é tão importante "pensar al revés" como se diz em Espanha: ao pensar do avesso chamamos novo material, novas representações, novas realidades que nos podem trazer alguma originalidade. Assim eu acho que o acaso serve as nossas necessidades. Tenho dito!


a girafa
tem o pescoço curto
para chegar às folhas.

sábado, 12 de setembro de 2009

Lilian

Na minha recente viagem à Colombia conheci uma professora da Universidade de Illinois (EUA) com quem tive mais conversas que o costume em congressos científicos. Lilian é uma amante de arte, de toda a arte, mas em particular de música clássica da qual é uma excelente conhcedora. Quando falmos de passagem em religião, ela disse-me que não segue nenhuma e que se considera uma "breathtakist". Poderíamos, numa penosa tradução, dizer que é um estado em que a pessoa fica sem fôlego frequentemente. Não sei se "isto" é uma religião mas já somos dois: eu também sou um "breathtakist"!

montanha azul
bordada de sol poente
chegou o Outono.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Druskininkai

Druskininkai é um lugar lindo na Lituânia. É um lugar de férias cheio de hoteis, esplanadas, parques, fontes e imensos relvados. Quando visitei pela primeira vez foi por causa de um museu impressionante que guarda as recordações da época soviética e que fica muito próximo. Documentos de repressão, de ocultação de violência simbólica e de todas as outras violências sobre as pessoas. Visitei este museu com duas colegas lituanas que viveram a época e que mal se conseguiam rir... o sofrimento foi muito. Como a noite do dia, ao lado, existe Druskininkai o lugar da eterna felicidade, do sol, da despreocupação.
Em Outubro vai-se realizar o Festival de Poesia do Outono, o evento maior nesta vila. Cerca de 40 poetas de haiku de treze países do mundo: o Japão à frente em número logo seguido da Lituânia.
E eu.
O único de língua portuguesa.
Não me vou esquecer que não sou só eu: são os muitos e bons poetas que escrevem haiku na língua de Wenceslau de Moraes.

Lua cheia no mar:
a lua olha o reflexo
e o reflexo a Lua.

De Cuba

O interesse pela poesia haiku é um fenomeno mundial. Desde que se procure bem, encontramos em todos os países que escreva, leia e se interesse por poesia haiku.
Desta vez deixo aqui o site de um poeta cubano - Jorge Bráulio - que é um valioso lugar onde se escreve, traduz e comenta poesia haiku. O site chama-se "En clave de haiku" e o endereço é este:

http://www.jorgebraulio.wordpress.com/

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

"É a vida..."

morreu um amigo.
"É a vida..."
(é isso, a vida)...

domingo, 6 de setembro de 2009

Dor

que boa esta dor
está quase a acabar -
é o fim do Inverno.

sábado, 5 de setembro de 2009

Novo dia

que fazem
as formigas à noite?
Também não dormem?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

As grandes e as pequenas razões:

Há gente que se rege por pequenas razões e gente que se rege por grandes razões. Exemplos das grandes: "Não cheguei a tempo por causa da política do Governo" (houve uma manifestação); "Não almocei por causa do José Sócrates" (o meu subsídio de refeição está atrasado). Mas também há as pequenas "Perdi o emprego por causa de uma bolha" (cheguei atrasado à entrevista"; "Não creio em Deus por causa do padre da minha terra" (o homem vivia como... homem"
As grandes e as pequenas razões...

o caminho
sobe e desce
e eu com ele.

Fim do dia

Sete árvores, um renque de sete árvores ainda jovens plantadas a distâncias regulares. O sol projecta para norte as sombras finas dos seus troncos. Ao meio dia as sombras estão longe umas das outras mas, à medida que o dia avança, elas vão-se deitanto no chão e cada vez mais inclinadas pelo sol poente, ficam mais juntas.

sombra das árvores
só à tarde as alcanço
com os meus passos.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Um texto sobre terminologia...

Um participante da lista de discussão virtual haicai-l - André Bessa - postou um texto que me parece interessante e que aqui transcrevo, citando a fonte e com a devina vénia:



Apenas um pequeno adendo no que concerne a origem da palavra haiku.Muito já se foi escrito neste particular, porém, a maioria dasfontes – tanto orientais quanto ocidentais – concorrem nosentido de que o termo haiku surgiu em fins do século XIX,provavelmente inventado pelo escritor japonês Masaoka Shiki((1867-1902) a partir da palavra hokku. Esta designa a primeira estrofede um renga, que mais tarde derivou em renku, chamado também dehaikai no renga. O hokku, como poemeto independente, foi a formautilizada por Bashô, à qual incorporou-se uma combinação deprosa (haibun) e de pintura (haiga). No entanto, o termo haiku é hojeaplicado de forma retroativa a todos hokku que aparecem de formaindependente, ou seja, não ligadas a um renku ou a um renga.No Ocidente, foi através do artigo "Uma Proposta aos PoetasAmericanos" publicada na revista Reader de fevereiro de 1904, escritopelo poeta japonês Yone Noguchi (1875-1947) que se deve a primeiraaparição desta forma poética deste lado do mundo, chamada ainda dehokku neste artigo. Sómente pouco mais de um ano depois, é quesurgiram os primeiros haiku em francês pela mão do poeta efilósofo Paul-Louis Couchoud (1879-1959). Fato curioso,diferentemente das traduções inglesas, que adotaram a grafia hokku(já anacrônica) de Noguchi, Couchoud utilizou o nome haikai quandoeste poemeto era já então conhecido em todo o Japão pelo nomede haiku! Couchoud esteve por pouco tempo no Japão (de setembro 1903a maio 1904) e é pouco provável que tenha aprendidosuficientemente a língua nipônica a ponto de fazer traduçõesliterárias, como o querem certas fontes francesas.A primeira publicação de haicai (ou haiku) em francês se deuatravés do livro anónimo "Au fil de l'eau" (julho de 1905) –um pequeno formato de 15 páginas e impresso a trinta exemplaresapenas – e que contém 72 haikai (na grafia de P-L Couchoud).Estes foram compostos durante um cruzeiro em barcaça (péniche),feito poucos meses antes, através de canais na França, porPaul-Louis Couchoud e dois de seus amigos, o escultor Albert Poncin e opintor André Faure. Não se sabe bem o porque de Couchoud ter usadoo nome de haikai ao que já era então conhecido como haiku noJapão, e hokku nos países ocidentais de língua inglesa.Na verdade, haikai (que em japonês quer dizer cômico,excêntrico) é o nome dado a todo gênero poético que seencontra dentro da estética do haikai no renga, e que inclue formastais como o haiku, o haibun, o renku, o haiga e o senryu. Haikai (que setornou haicai em português do Brasil) é também usado com aforma abreviada de haikai no renga.
Um abraço,
André Bessa