sexta-feira, 31 de julho de 2009

O livro das caras

Queres ser meu amigo?
Tá bem!
Mas só se não te puder ver!
(Podes pôr a foto de outra pessoa).
Vou-te pôr
No meu livro das caras
Tás a ver?
"Livro das caras"
É só pra disfarçar...
A tua cara ao fim e ao cabo
não interessa muito...
O que me interessa
É ter-te a comunicar comigo
Quantas vezes?
Quantos contactos?
"Give me five!" "Tudo em cima!"
Eh pá que fixe!

Os meus outros amigos...
Eu gosto deles... mas...
Ás vezes é uma seca
Atrasam-se, chateiam-me,
andam chateados, andam "em baixo"...
Mas no livro das caras
No meu Face Book
Estão todos (e tantos!!!) lindos
bem-dispostos, disponíveis
Todos "up!"!

Mas hoje lembrei-me...
Que faces, quantas faces
terá o meu book
quando vier o frio?

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Um sonho

era uma pedra com o tamanho formidável um monolito enorme como um gigantesco iceberg pousado numa imensa e deserta planície a pedra estava abraçada por uma teia de cabos de aço que partiam em todas as direcções do horizonte fiquei a olhar sem entender para este cenário esmagador e desolado de repente senti a presença de outra pessoa e quando me voltei vi uma criança que não teria mais de sete anos parecia um rapaz e estava vestido com uma túnica azul cobalto logo entendi que ele sabia o que era "aquilo" e perguntei sabes-me dizer o que é esta pedra e porque é que estão todas estas cordas amarradas a ela sem se saber onde terminam não é nada complicado disse ele com um sorriso os cabos vão para todo o mundo e estão sempre a ser puxadas por todas as forças que em cada lugar se encontrem: homens , mulheres, animais, máquinas toda a gente quer mover a pedra toda a gente pensa que pode mover a pedra na sua direcção mas como todos puxam muito e incessantemente anulam-se e a pedra quase nunca se move só às vezes quando todo um conjunto de cabos relaxa o se consegue um estremecimento da pedra o meu avô disse-me que numa noite de lua cheia já a viu mover-se cinco metros mas isso foi há muito tempo eu só ouço o ranger só vejo a tensão inútil destes milhares de cabos se as pessoas que os puxam ao menos vissem a pedra se eles ao menos pudessem falar uns com os outros se ao menos eles olhassem a lua quando ela está cheia


a última folha
caiu de árvore -
ventinho de nada

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Vigotski e a amizade

Lev Vigotski (1896-1934) foi um grande psicologo russo que iluminou a psicologia e a educação até hoje. Uma das suas criações teóricas mais geniais foi a Área de Desenvolvimento Potencial (ADP) que, numa rapidíssima definição, nos diz que a pessoa não é só aquilo que mostra numa determinada situação: depende de com quem está e se estiver com alguém que a possa incentivar e guiar na aquisição do conhecimento essa pessoa mostra o seu potencial, a tal ADP.
Enfim, lembrei-me do inspirador Vigotski a propósito da amizade. Como os nossos amigos expandem aquilo que somos! Como quando estamos com eles a nossa ADP fica enorme. A amizade é uma expansora da personalidade. Spazibo, Lev!

fica um galo
o pombo quando faz a corte
à pomba.

domingo, 26 de julho de 2009

Amigos

mas o que são afinal os amigos quando recebemos um banho com gente à nossa volta que nos exprime amizade ficamos a pensar mas afinal quem são os amigos eles são muitas vezes o nosso porto de abrigo as pessoas que dizem bem de nós quando os outros são indiferentes quando eles encontram para os nossos actos fins nobres onde o outros vêem calculismo ou até perversão também são expansores da nossa personalidade aquelas pessoas com as quais nós somos capazes de ir mais além de falar mais do que pensavamos que eram as nossas opiniões mas hoje eu queria falar do que são os amigos quando encorajam e sustentam o que nós somos e o que queríamos ser que se alegram com os nossos pequenos sucessos grande e por isso mesmo vulnerável é a amizade o único sentimento não exclusivo que junta em si o melhor que nos separa dos animais


campo de girassóis.
Até ao rio, só eles.
E a lua ao meio dia.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Armadura

como um escudo
a pasta fechada no peito
mas olhos abertos

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Dois haiku em Coimbra

vento de Verão
levanta a saia rodada -
saia justa


seda na mão -
ou será só
a tua pele?

terça-feira, 21 de julho de 2009

A viagem

de todas as metáforas sobre a vida a mais comum é certamente a da viagem a vida como peregrinação jornada caminho hoje acordei com esta metáfora no pensamento mas com um olhar particular para os caminhos com que se faz a viagem que se sempre na mesma direcção para as terras frias do Norte pensei sobretudo nos caminhos que usamos para lá chegar há sendas auto-estradas caminhos a descer caminhos a subir caminhos que nos fazem andar às voltas, caminhos com vistas maravilhosas túneis enfim caminhos de todas as configurações dificuldades e velocidades pensei de como nunca usamos um caminho só vamos saltando de uns para os outros e assim a viagem da vida parece às vezes difícil outras sem sentido outras rápida é também interessante o que é que nós quando estamos num caminho pensamo das pessoas que fazem a viagem noutros caminhos o que pensamos dos que vão rápido quando vamos lento o que pensamos de quem vai no túnel quando a nossa vista é boa o que pensamos de quem vai directo quando andamos às voltas é bom pensarmos que os caminhos não são sempre os mesmos e que já andamos em muitos e outros ainda nos esperam





do cimo da montanha

não se vê o amanhã -

fim de tarde...

domingo, 19 de julho de 2009

Partida

atesto a memória
e deixo o cais -
vou com as gaivotas


ou como se diria no Brasil...



completo a memória
e deixo o cais -
vou com as gaivotas

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O Poste

Das sessenta mil pessoas que se sentavam naquele estádio de futebol uma tinha uma preocupação certamente diferente de todas as outras. O Américo Santos estava sentado na parte das bancadas mais próxima do relvado e logo por detrás de uma das balizas. Na última semana tinha estado a trabalhar na estrutura daquela baliza. A fixação do poste ao solo tinha cedido e o Américo Santos fruto da sua fama de pedreiro competente e de confiança tinha sido chamado para resolver o problema. “Mas olhe, que isso tem de ficar bem e pronto depressa!” – disse-lhe o responsável do clube – “No próximo Domingo recebemos o nosso grande rival...”.
O Américo trabalhou o melhor que pode: diagnosticou a situação, preparou uma sólida base de betão, consolidou o solo e na quinta-feira tinha o trabalho pronto.
E ali estava ela no grande dia: estádio cheio, bandeiras, faixas, cânticos, mil cores e sons. E ele a olhar para a trave. Sabia que o trabalho estava bem feito mas...o solo seria suficientemente firme? O betão teria já secado? Os parafusos que tinha aplicado seriam suficientemente fortes? Sentia uma turvação só de pensar na vergonha e embaraço que seria a baliza cair a meio do jogo... nem queria pensar nisso...
Começou o jogo e com ele o sofrimento para o Américo. Parecia que todos os lances eram junto da “sua” baliza: Foi um forte remate ao poste... e a baliza abanou e aguentou... depois, na marcação de um canto, dois defesas encostaram-se ao poste... “Cuidadinho!” pensava o Américo. Já na segunda parte o guarda-redes sofreu um golo. Foi buscar a bola ao fundo da baliza e zangado deu um forte pontapé no poste. O Américo saltou da cadeira de olhos arregalados: “Que isso pá, tas parvo?”. Ao lado alguém ao lado respondeu “Olhe que o homem não teve culpa no golo”. O Américo olhou para o lado como se desse conta pela primeira vez que estava a ver um jogo de futebol.
E foram sobressaltos atrás de sobressaltos até ao fim do jogo. Até um defesa decidiu ir bater as chuteiras no poste para tirar a relva que lá tinha ficado presa... e quase no fim do jogo um defesa lançado em corrida agarrou-se ao poste para melhor travar.
O árbitro apitou finalmente para o fim do jogo. O Américo caiu pesadamente sobre a cadeira, suado, exausto pela tensão que tinha vivido e absolutamente alheado da exuberância que o rodeava. Deu conta que não sabia qual tinha sido o resultado do jogo. “Eh pá, não fique chateado!” – brincou um espectador ao lado –“Prá semana há mais...”. O Américo não respondeu mas pensou “Mas pelo menos já tenho a certeza que o cimento está seco!”.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Egos

tanto trabalho nos deu a construir que não queremos largar o nosso ego por nada deste mundo assim falamos de forma enfática nos meus valores na honestidade que devo a mim mesmo nos valores que sempre me nortearam ou até no prosaico eu cá sou assim mesmo o interessante é ver que estas afirmações que parecem só dizer respeito a quem as profere são afinal uma arma de arremesso uma distinção pela superioridade para quem escuta ou de quem se fala é que a minha impoluta posição só faz sentido se cotejada com outras que são bem menos sérias honestas e autênticas ai os egos tanto tempo levaram a construir que vamos dispôr do mesmo tempo para os apagar


o pescador
tanto olhou a linha
que não viu a onda.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Mais 3 Fulgurantes...

frondosos braços -
todos os cantos dos pássaros
cabem lá.


contra a roupa justa:
libertem os prisioneiros!


corpo suado
cheira a sal
e lateja.

Partida

crepúsculo de inverno -
escamas de sombra no rio
e o vento norte


winter dawn -
shadow's scales on the river
and the North wind

segunda-feira, 13 de julho de 2009

3 Fulgurantes

Se o prazer foi todo seu
o que foi aquilo?


Que mulher discreta:
apertava a mão, dizia "Muito prazer!"
E não se notava mais nada...


Sentir é alma e pele
(ou será a mesma coisa?)

domingo, 12 de julho de 2009

Esqueci a tradução...

A tradução do haiku que vai ser publicado no "The Heron's Nest":

vagueando pela praia -
a onda recolhe e larga
os reflexos do sol.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

The Heron's Nest

Já aqui tinha feito referência à superlativa qualidade da Revista americana "The Heron's Nest" - o ninho da Garça - na edição e crítica da poesia haiku.
Um dos haiku que o número de Setembro vai publicar é da minha autoria e escreve-se assim:

beachcombing . . .
a wave picks up and drops
the sun’s reflection.


David Rodrigues

sábado, 4 de julho de 2009

Sol

mil grãos flutuam
no primeiro raio de sol -
lá fora o bem-te-vi.


ou então...


frincha de sol
em silêncio mil grãos flutuam-
lá fora o bem-te-vi.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

BemTeVi

manhã fria
entre a névoa e o lusco-fusco
bem te vi.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Farol

e nas sociedades contemporâneas há uma reverência acrescida pelos faróis quando tudo são dúvidas possibilidades alternativas caminhos prováveis o farol aparece convicto alto sólido e inexorávelmente certo que a costa está ali e que as indicações que dele provêem são inquestionáveis talvez por isso o "farolismo" religião que tem por deuses os faróis esteja tão em expansão através de pinturas, fotografias, textos e de uma admiração que passa rapidamente de estética para ética eu também gosto de faróis mas

asas de gaivota
quando passa a luz do farol
de novo a noite

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Crise II

Disse Jose Zapatero: "na crise, aterra como puderes".
Vamos levar isso em conta quando nos convidarem para voar...

atabalhoado
um pombo aterrou na pomba:
- Desculpe. É a crise...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Crise...

A forma de escrita de haiku é por vezes muito desconcertante para pessoas que não estão habituadas a ler este tipo de poesia.
Um colega meu ao folhear o meu último livro e vendo o quão pequenos eram os textos em cada uma das páginas, disse meio a brincar meio a sério: "Em tempo de crise já viste quanto papel está aqui desprediçado?"
É verdade... mas eu prefiro pensar em quanta tinta eu economizei...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Ao de leve...

Roçagar de linho:
quando sentaste ao meu lado
foi só o que ouvi.

sábado, 13 de junho de 2009

Haibun de Veneza

na Bienal de Veneza uma exposiçao de arte contemporânea está determinada em mostrar outras escalas para os coisas do quotidiano formigas e louva-a-deus enormes parecem dinossauros olhos do tamanho de pneus de camião, patas como árvores deitadas uma menina puxa pela mão do pai vem ver vem ver e o pai resiste agora não vem ver insiste só um bocadinho o pai acede meio contrafeito e é guiado e arrastado pelo corpo de quatro anos vês e apontou para o chão não vejo nada olha bem olha melhor vês vês o pai agachou-se e no chão havia um bicho de conta

a menina
quando o navio se afasta
olha os peixinhos
a menina
olha a alga no mar

domingo, 7 de junho de 2009

Estrelinha

As coisas que se aprendem nas viagens... Calhou em conversa com um colega russo falar do ultra-poderoso e ultra-odiado Joseph Stalin. E não sei como veio à baila o significado de Stalin. Stalin em russo quer dizer "Estrelinha". É isso: o Senhor José Estrelinha!!! Foi este que liquidou, deportou e oprimiu milhões de pessoas? Com um nome destes? "Senhor Estrelinha" podia ser o nome do senhor que tem uma barbearia na esquina da rua mas nunca o do "Pai dos Povos" e o comandante do Exército vencedor de Hitler.
Estrelinha...ele há cada uma!!!

sábado, 6 de junho de 2009

Novosibirsk

A esquina da fachada do CityBank, uma placa de 1950 mostra dois soldados russos com os olhos no futuro a assegurar que o capitalismo nao passara.
Os pardais (oh, sempre os pardais) andam atarefados na relva do parque enquanto um musico improvisado canta a marcha nupcial para um casal de noivos dancar para os numerosos fotografos. Logo ao lado montam=se as bancas de uma festa do Partido Comunista cheia de bandeiras vermelhas, daquele vermelho. Tocam cantos revolucionarios num compact da Sony.

pardais indecisos
entre o verde
e o verme;lho.

domingo, 31 de maio de 2009

Jacarandá

jantar na Primavera -
flores de jacarandá
caem na mesa.

dinner in Spring
jacaranda flowers
fall on the table.

sábado, 30 de maio de 2009

Aos punhos apontados para o céu

Hoje queria falar dos punhos apontados para o céu. Os punhos daquelas pessoas a que sofreram uma ofensa irreparável e injusta e que na agonia da injustiça apontam para o grande e impassível céu os seus infimos e desesperados punhos. Que esperar de quem se sentiu trespassado por uma injustiça que já está feita e para a qual não há remédio (um assassinato, um genocídio, uma calúnia, um crime ambiental, enfim, tantas...tantas...) ? E o punho apontado para o céu mostra a desproporção de forças, a formiga a levantar o punho para o elefante...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Pedir

Pedir é apelar para as emoções da pessoa a quem se pede. É por isso que não se pede justiça (essa deveria ser racional e positiva) nem se deve pedir respeito. Pede-se carinho, atenção, generosidade. misericórdia, compaixão... pede-se uma oportunidade que pode não ser dada...
Pedir é de certa forma perguntar: "Está certo que está a ser humano e justo?" E perguntar não ofende (talvez até mobilize outras energias para tomar uma boa decisão).

terça-feira, 26 de maio de 2009

Haibun

Definição da Haiku Society ofAmerica.

Definition of the Haiku Society of America as adopted at the Annual Meetingof the Society, New York City, 18 September 2004


A haibun is a terse, relatively short prose poem in the haikai style,usually including both lightly humorous and more serious elements. A haibunusually ends with a haiku.

Parece deprender-se que haikai é um estilo de escrita que pode exprimir-sede múltiplas formas (haiku, haibun, renga, tanka, etc.). A temática é muito alargada mas parece que temas do quotidiano e da viagem são os mais populares (e que foram extensivamente cultivados por Bashô). A este respeito pode-se consultar "Contemporary HaibunOnline" que tem uma boa e grande selecção de poetas contemporâneos.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

João Benard da Costa

O que é a arte para além do imediato, da experiência presencial e instantânea, da fruição, do prazer ou da emoção do momento? O que é um livro além do momento, além do tempo, em que se lê? E uma pintura para além do que olha? E uma música para além do que se ouve?
Um possível resposta está nos sublimes cometários que JBC faz ao cinema, actualmente uma das mais efémeras formas de arte. Nas suas palavras o cinema adquire uma dignidade semelhante às grandes contribuições da arte e uma perenidade inesperada para quem corre a 16 imagens por segundo.
Obrigado JBC por ter acolhido o ciclo "As Imagens e as Pessoas com Deficiência" na sua Cinemateca. E vou sempre ler as suas palavras sobre cinema. Cinema com amor. "With eyes wide open".

terça-feira, 19 de maio de 2009

Mario Benedetti

Morreu Mário Benedetti. Há quatro anos atrás li a sua compilação "Inventário Uno" (poesia 1950-1985) um volume de 600 páginas e apreciei cada momento que passei a lê-la.
E a melhor homenagem a um poeta? Ler e abrir o coração aos seus versos. Como ele dizia:

Arte Poética

Que golpee y golpee
hasta que nadie
pueda ya hacerse el sordo

que golpee y golpee
hasta que el poeta
sepa
o por lo menos crea
que es a él
a quien llaman.

domingo, 17 de maio de 2009

"Cinquenta Xiaoling"

Hoje falamos dos vizinhos... não do Japão mas dos seus poderosos e inspirados vizinhos chineses.
Acabei de ler o livro de Zhang Kejiu (Ed. Campo de Letras) com o título "Cinquenta Xiaoling" tradução para português do poeta Albano Martins.
É um livro de uma poesia belíssima que, apesar de escrita no princípio do século XIV, mantém todo o seu viço e nos continua a emocionar pela sua humanidade e lirismo.
Deixo aqui um destes poemas com uma vénia ao autor e ao tradutor:

De leste a oeste partem e chegam os barcos, combate de formigas/
Bater de palmas, a dama mongol está embriagada/
Do poente chegam rumores de canções/
Uma núvem solitária atravessa a sombra dum pagode/
Vento de lótus na noite fresca, o céu é como água.


E um haiku meu (d'aprés Zhang Kejiu :





noite de Maio -
uma brisa de rosas
no meio da avenida.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Uma rua de Alfama / A street in Alfama

o Tejo -
no fim da sombra da rua
um muro de luz azul.



the Tagus-
in the end of the street's shadow
a wall of blue light

terça-feira, 12 de maio de 2009

Tanka

estala na água
uma gota de sangue,
uma só.

contorcem-se fios vermelhos,
como doridos.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Ainda Adriana Lisboa...

Um parágrafo do livro Rakushisha (pg. 121, ed. Quetzal):

(trata-se uma empregada de uma loja no Japão a fazer um embrulho de presente ("puresentu" em japonês):

"Ela parecia empenhada numa manifestação de origami. Haruki se perguntava o que sairia dali. Uma estrela. Uma cigarra. Um capacete de samurai. Quando o número de dobras e de vincos no papel se mostrou suficiente à moça de mãos magras, ela pegou o livro e o acomodou sobre ele de banda. Então continuou com as dobraduras, rapidamente mas aparentando calma, eficientemente mas aparentando concentração, gentilmente mas aparentando segurança. Um tanto quanto mecanicamente, mas aparentando afeto".

Estão a ver porque é que vale a pena ler o livro para sorver estes "relances da alma japonesa"?

sábado, 9 de maio de 2009

Uma pergunta

Existe "estado de sítio", "estado lastimoso", "estado de graça" e tantos tantos mais estados... Recentemente falava-se entre poetas de haiku no "estado de haikai" significando uma predisposição de espírito, de "inspiração" ("I love this word"!) para escrever haiku.
Este "estado de haiku" existe mesmo? Se existe como é que pode ser definido? E que composição tem? Quantas partes de inspiração e quantas partes de transpiração?
Escrevi este haiku e não sei se estava ou não em "estado de haiku". Quem ajuda?

praia ao fim da tarde -
borboletas e gaivotas
no adeus do sol

(Na praia estava de certeza. E que linda que a praia está na Primavera!)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

I Ching

É este o título de um lindíssimo texto ("haikulike") que Yvette Centeno publicou no seu blog "literaturaearte"
Eu arrisco mesmo uma tradução em português (espero que sem traição).


The wind
in its cloud
The tree
in its root


O vento
na sua núvem;
a árvore
na sua raíz

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Senryu

Nem só de haiku vive este blog. Um amigo perguntou-me se os haiku tinham que ser sempre tão "sérios" e ligados a um certo formalismo. A minha opinião é que não: o moderno haiku é bem mais aberto e livre do que o haiku tradicional que vem de Bashô. Mas quem quiser escrever tercetos sem dores de consciência que pode estar a "assassinar" o haiku tem a possibilidade de escrever "Senryu". Abaixo encontram uma definição de senriu e um escrito por mim.

Senryū is a poem that is written in a similar form and emphasizes irony, satire, humor, and human foibles rather than seasons; it may or may not contain a kigo and kireji.



Qual é o espanto?
Afinal ele só é
melhor do que eu!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Profetas em terra natal...

A mensagem postada aqui sobre Adriana Lisboa foi também enviada para a lista de 180 membros que se interessam pelo haiku no Brasil. Sabem quantas reacções apareceram? Nenhuma.
E daqui se podem tirar pelo menos três possíveis conclusões: 1) que a informação que eu dei era completamente redundante e todos conheciam bem o trabalho desta escritora, 2) que ninguém é profeta na sua própria terra, 3) que o assunto não vale a pena. Desta a única que me parece descabida é a última: é que vale mesmo a pena... tanto como cantar os bem-te-vi.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Ventura

Hoje,
faz-me cócegas no corpo
um frémito de felicidade.
Eu explico:
esta semana
a lotaria dá um jackpot
de 129 milhões.
Uffffffffff!
De todas as possibilidades
que me lembro
e que me podem
trazer a felicidade
esta é uma das mais prováveis.
Quem sabe
como estará a minha saúde
amanhã?
(ultimamente ando mais vulnerável)
E como estarão os que eu amo?
(idem aspas)
O António (meu amigo de Espanha)
morreu há dois dias
sem nada o fazer prever...
Acidentes de carro,
(estou no epicentro)
notificações das finanças,
(será que eles não me esquecem?)
enfim...
Tudo de mal pode
certamente acontecer.
Mas o bem,
também...
(Oh! Como está fino o ar da manhã!)
129!!! É obra!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Mar

a caminho da praia
a onda perde e ganha
reflexos de sol.

Caminhos...

caminho cortado:
em frente passa
uma auto-estrada.

domingo, 3 de maio de 2009

Adriana Lisboa

Caros amigos:

Num blog qualquer informação corre sempre o risco de ser útil para alguns e redundante e óbvia para outros. Sabendo disto gostaria de partilhar convosco o grande prazer que tive em ler o último livro editado em Portugal da escritora carioca Adriana Lisboa (Prémio José Saramago em 2003) . O livro chama-se Rakushisha que como saberão foi o nome que o poeta japonês Mukai Kyorai deu à sua cabana depois de uma noite de temporal em que os caquis das árvores que a rodeavam se terem perdido. O nome quer mesmo dizer “Caquis Caídos”.
Adriana Lisboa tem uma escrita simultaneamente firme e leve e a desenvoltura com que desenvolve a acção é uma verdadeira escultura do tempo. Claro que o livro está cheio de referências à cultura japonesa, a Bashô e ao haicai. Para quem quiser conhecer mais sobre esta grande escritora brasileira pode ir a http://www.adrianalisboa.com.br/
E outra informação mais seleccionada: Adriana Lisboa tem um blog que se chama assim mesmo: Caquis caídos.
Ah para quem não sabe, "caqui" é o que nós chamamos em Portugal "dióspiro".
David Rodrigues

PS. Outra versão do haiku de ontem:

como uma mão
vento acaricia a erva:
pêlo de gato.



as a hand,
wind caresses the grass:
cat's fur...

sábado, 2 de maio de 2009

Alentejo

como um afago
o vento muda a cor
das ervas.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

7leitores7

Quem gosta de literaura e de poesia (quer dizer todos os eventuais leitores destas linhas) deveriam colocar nos seus "favoritos" o blog www.7leitores.blogspot.com
Como verão é um excelente blog que actualidades e comentários sobre panorama editorial português. Entre os 7 leitores que se revesam nos comentários destaco Albano Estrela, meu professor de Ciências de Educação e editor da Editora "Indícios de Oiro".
Num comentário que publicou sobre o meu livro "Respirar: 101 haiku", Albano Estrela encerrou com as seguintes palavras:

Estamos, pois, perante um poeta de nítida inspiração lírica, que se expressa de uma forma original e que revela uma consciência literária que não é habitual entre os nossos poetas. A divisão do seu livro nos três capítulos que mencionei é prova provada do que afirmei e denuncia uma postura reflexiva e crítica sobre a sua própria escrita, o que não é, de modo algum, um dos seus méritos menores.

É verdade! Reflexivo e crítico lá isso sou... mas o resto é gentileza dele...

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Baixa mar

ao ver a maré vazia
a menina disse:
-Já sei o que é o mar.



os peixes
esperam na poça de água
que o mar volte.



Maré baixa:
Ai foi alí
que eu bati o pé!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Caracóis

o caracol
deixa na pedra
um rasto de prata


-É tarde,
tenho de ir para casa:
desculpa de caracol.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Haibun

é isso... o intérprete faz toda a diferença não basta o joão sebastião é preciso alguém que lhe penetre na alma a interprete e depois nos entregue o resultado mastigado duas vezes criado duas vezes sonhado duas vezes transmitido duas vezes para o nosso acolhimento hoje ao fim da tarde com o sol baixo já a dourar as paredes das casas ouvi uma das trinta preciosas variações (talvez por isso chamadas Goldberg) transfigurada pelos dedos de ouro de Tatiana Nicolaieva


borboletas
pousam à vez no piano
tarde dourada

domingo, 19 de abril de 2009

Mar

Quais são, neste mar
as águas que nos juntam
e as nos separam?

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Panta Rei

na margem
acelero o passo para ver
a corrente.



I walk fast the bank
to know
how the river flows

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Luar

Luar no mar -
um dorso respira
até ao horizonte.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Lua de 9 de Abril

na escuridão
a lua vem comigo
mas eu não vou com ela.



in the darkness
the moon follows me
but I don't walk with her.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O Haiku e a ambiguidade

Sem ser um "quebra cabeças" o haiku beneficia do exercício da ambiguidade. Talvez esta ambiguidade esteja mais presente do que o que se pensa: o confronto entre as referências do poeta e do leitor pode emprestar novos matizes à escrita.
Mas há também a ambiguidade que o poeta procura ao usar expressões que eu gostaria de chamar "tridimensionais" porque podem, depois de "rodadas" pela leitura, apresentar aspectos novos.
Escrevi um haiku sobre Lisboa na Primavera, que me alertou para esta ambiguidade. Deixo-o aqui. "Cherchez la famme!":

nos beirais
pardais ao sol -
flores e mar.

domingo, 5 de abril de 2009

Um velho...

com olhos turvos:
histórias para contar
ninguém para ouvir.

Esta Primavera...

esta Primavera
não nasceram flores
no freixo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

São Paulo

Estiveste em São Paulo?
Em que São Paulo?


Have you been in São Paulo?
In which São Paulo?


Velasquez nos trópicos -
e eu esmagado
pelo Duque de Olivares.


Velasquez in the Tropics -
I felt smashed
by the Duke of Olivares.

terça-feira, 31 de março de 2009

Levar-se a sério...

Quem é o melhor julgados dos nossos actos e do nosso mérito? "Os outros" dirão uns... Justificam que somos maus julgadores em causa própria e só a opinião dos outros pode dar mais objectividade. Contra este argumento temos os relatos da história de tantos criadores que foram ignorados e mesmo ridicularizados durante a sua vida e só mais tarde encontraram reconhecimento da sua obra. "Nós própios" responderão outras pessoas justificando que só nós sabemos em profundidade as motivações, as intenções que a criação tem. Contra este argumento temos aqueles criadores enfatuados para quem o julgamento benévolo que fazem de si é o único aceitável. Em que ficamos?
Acredito na educação. Quem tiver conhecido mundo suficiente, quem tiver descortinado a complexidade da sociedade, dos valores e das produções poderá, penso, ficar munido de um julgamente equilibrado sobre as suas próprias produções. E aí sim acredito que é o próprio o melhor julgador da sua produção. É ele que ao estar perfeitamente identificado com as emoções que levaram à obra pode melhor colocá-la numa escala de valor. Não a modéstia hipócrita nem a desbragada vanglória. Tão só a autenticidade e a honestidade do que se faz.
Levar-se a sério? Tem dias...

O presente.

espreitei o futuro:
o que vi é tão brilhante
como antes, o presente.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Mar

a quilha abre a água
e o vento na vela
completa o silêncio.


cai no horizonte
a cortina de núvens -
vem mais dia amanhã?

domingo, 29 de março de 2009

Sacadas...

Caros amigos:



Já aqui falei da inesperada e fulgurante pontaria com que os brasileiros usam a lingua (portuguesa). Cheguei ontem ao Brasil e já tenho história para contar. Ao virar de esquina, uma clínica veterinátia. Qual o nome? Tome bem nota:



CLINICÃO & GATO



Genial, não é?

quarta-feira, 25 de março de 2009

Um susto de saúde

Lua de Abril -
a sombra atrás de mim
passou para a minha frente.



April's Moon -
the shadow behind
is now in front of me.

domingo, 22 de março de 2009

426.000

Hoje, no primeiro dia da Primavera, interessa olhar a Natureza mas olhá-la de "olhos abertos". Pensar em que é que o nosso modelos de desenvolvimento é anti-Natureza, anti-humano e anti-haiku.
Olhem este dado: nos Estados Unidos todos os dias são deitados fora 426.000 telemóveis para serem trocados por modelos mais modernos. Leu bem: 426.000!
Nunca é demais apelar a uma conduta pessoal que seja verdadeiramente coerente e comprometida com a natureza e com a solidariedade. Afinal não é só quando escrevemos haiku que devemos er frugais...
A poesia sobre a Natureza (e certamente o haiku) não a deve olhar como se nada de grave se esteja a passar, como se a Natureza continue a ser a perene, inexpugnável e olímpica matriarca.
O meu telemóvel tem três anos e não o vou trocar enquanto ele funcionar. É pouco, não é? Mas é.

E mais fotos...











Sakura




(clique na foto para a tornar maior)


No Japão celebra-se no primeiro dia de Primavera o Hanami - "a contemplação das flores".


Estamos em Portugal rodeados por uma Primavera exuberante de cores, sons, cheiros, formas,... Deixo aqui duas fotos que tirei ontem no Jadim japonês de Belém que está em re-estruturação. Mas as cerejeiras não faltaram ao chamamento da Primavera!

sexta-feira, 20 de março de 2009

Ela está aí!!!

Quem havia de ser? A Primavera!!! E com ela o Dia Mundial da Poesia. O dia fundador e primevo deste blog. É amanhã!
Vou lançar um desafio: mandem um (ou mais) haiku que tenha o perfume de mar, ou de viagem ou de horizonte.
Eu deixo um aqui para animar as hostes...


Só o olhar
é que não passou para lá
do horizonte.

quarta-feira, 18 de março de 2009

A intransigência dos velhos

Escrevi antes sobre a avareza dos pobres. Hoje é outro "post" "politicamente incorrecto".
Presenciei uma cena em que um automobilista foi insultado por um idoso que estava a atravessar a rua (fora da passadeira). Apesar de o carro ter parado, o senhor idoso não se coibiu de maltratar o condutor.
E frequentemente se assite a episódios destes em que os idosos em nome da defesa dos seus direitos e prioridades atropelam os direitos e as prioridades dos outros. Acham que serem idosos lhes dá todos os direitos e lhes permite todas as intrasigências e os livra de serem educados e respeitadores.

O velho sem dentes
assambarcou toda a carne
ficamos a olhar...

segunda-feira, 16 de março de 2009

A avareza dos pobres

Muito se fala (certamente inspirados na parábola que Jesus contou sobre a esmola da viúva) na generosidade dos pobres e na avareza dos ricos. Há milhares de histórias que parecem apontar para um maior desprendimento e disponibilidade de partilhar de quem tem pouco. Aqui os pobres se transcendem, e vemos o quanto o pouco com amor dá em muito.
Mas hoje queria falar da mesquinhez e da avareza dos pobres. Eles não estão eles imunes a este comportamento. E encontramos pessoas tão ciosas do quase nada que têm que este quase nada reduz-se a nada mesmo. Este apego febril ao quase nada que se possui é uma triste parábola sobre a grande solidão e insignificância da vida.

o naco de unto
fechado na salgadeira
cheira a ranço.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Sobre os enganos...

estrela cadente -
depressa: um desejo!
Ah! É um avião!



Agora
que entortei o corpo
o terno assenta bem.


apontei à crina
mas a pedra bateu no casco
do cavalo.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Portal

no portal escuro
à espera da luz -
talvez venha.

sexta-feira, 6 de março de 2009

8 e 80

Dizia uma jovem com uma pequena minissaia: "Sabe? Eu cá sou de extremos: daqui para baixo toda a gente pode ver, mas daqui para cima... é um clube seleccionado!". E está bem... só que a travagem é tão brusca que temo que quem olhar tenha que pôr cinto de segurança e usar apoio cervical...

Clima de Primavera

gotas de chuva
diamantes de sol
nos meus ombros.



rain drops
sun diamonds
on my shoulders.

terça-feira, 3 de março de 2009

O gosto

Eu sei, eu sei, que não é um haiku... mas aqui fica um jogo de palavras (a tal "sacada") que fala no sentido do gosto (ou será no gosto do sentido?).



degustar
o gosto do desgosto?
Não gosto.

Cheiro de ar...

manhã de Primavera -
o sabor do pão
com uma janela aberta.


spring morning -
the taste of bread
with a window open

domingo, 1 de março de 2009

O Ninho da Garça

Já aqui fiz referência num post anterior à superlativa qualidade de uma revista de haiku americana chamada "The Heron's Nest". Acaba de ser posto na net o número electrónico (pode-se também assinar o exemplar impresso) que tem, como seria de esperar, excelentes poesias.
Para quem quiser dar uma olhada aqui fica o endereço:

http://www.theheronsnest.com/

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

José Sesinando

José Sesinando (1923-1995) manteve no Jornal de Letras (JL)uma coluna chamada Escrituralismo. No número 1000 do JL foi publicada uma pequena antologia de frases que este fulgurante escritor produziu. Aqui ficam algumas delas porque ainda é Carnaval e para ilustrar o que num post anterior eu chamei de "sacada". São excelentes "sacadas":

Leia o atentado à bomba, que publicamos em rigoroso explosivo.

Há escravatura na outra banda: existem em Almada negreiros.

Foi Copérnico quem primeiro viu a estrela pular.

Os terroristas raciocinam por explosão de partes.

Vá de metro, Satanás!

Isso é como discutir o século dos anjos.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Carnaval

No Brasil cultiva-se o talento especial para as frases de humor certeiro e sintético. Um dos grandes humoristas brasileiros - Millor Rodrigues - é um extraordinário especialista em "sacadas" (estas iluminações inspiradas). Lembrei-me disto a propósito do que vi escrito numa t-shirt (em português: camiseta) e que depois de um pequeno arranjo aqui deixo:

Se vais beber, não conduzas:
convida-me!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Gravidade

a gravidade
está mais forte,
ou sou eu que...

domingo, 22 de fevereiro de 2009

World Haiku 2009

Foi publicado o livro World Haiku 2009 pela World Haiku Association - Japão.
Esta antologia publica desta vez 177 poetas. Isto são boas notícias. Mas ainda melhores é que destes 177, 5 escrevem em português: dois do Brasil e três de Portugal. Destes três portugueses um sou eu, outra a Lucília Saraiva (www.magrandefolledesoeur.blogspot.com) e o terceiro poeta publica sob pseudónimo.

Aqui fica a capa para abrir o apetite...



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Carnaval

bruxas e fadas
tornaram-se crianças -
Ah, Carnaval.

Haiku da Rússia...

Caros amigos e leitores:

Estou de regresso de uma visita de trabalho ao norte da Rússia onde o Inverno dura oito meses e a temperatura muito raro sobre acima dos 10 graus negativos.
Gostava de compartilhar, em forma de haiku, algumas emoções que lá vivi. Com um abraço (agora já mais quente...).


ondas de neve
a correr pelo chão
atarefadas.


aquela claridade
atrás das núvens de neve...
Lua cheia.


quantas cores
esperam debaixo
deste mar branco?


sob o avião
outra planície de neve:
as nuvens.


Democracia?
Com oito meses de neve?
E riu-se!


Arde a cabeça!
Entrei em casa
e não tirei a ШAПKA


chá ao sol -
sobe do âmbar
uma névoa branca.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Russia

cinco laminas
segaram a erva
que so crescia.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Tamanho...

ínfimo poeta:
mas ainda seria menos
sem a poesia.

Hairótico

o teu peito
na taça da minha mão.
E bebo...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

"Em Gaza": 21 haiku

“Em Gaza”: 21 haiku
David Rodrigues


1.
casas
só com corredores
em Gaza.


2.
borboletas de aço
atravessam as paredes
em Gaza.

3.
todo o chão
pende para o mar
em Gaza.


4.
pedaços de ferro
encrustados nas árvores
em Gaza.


5.
mãos
esmagam pedras
em Gaza.


6.
só as bombas
parecem inteligentes
em Gaza.


7.
os lábios
têm pressa
em Gaza.


8.
olha para o chão
um casal de namorados
em Gaza.

9.
na palmeira
há uma tâmara empoeirada
em Gaza.


10.
olhos de azeitona
olham os malmequeres
em Gaza.


11.
um grito
antes da ferida
em Gaza.


12.
escrito na parede
Deus e um ponto de interrogação
em Gaza.


13.
a Lua Cheia
parece um olho
em Gaza.



14.
que Deus
escolheu o povo
em Gaza?


15.
um sapato novo
largado no chão
em Gaza.


16.
não se vê o céu
quando se olha o céu
em Gaza.


17.
as crianças já sabem
que é melhor não ver
em Gaza.





18.
nos galhos nus
dormem pardais
em Gaza.


19.
o grito
antes da ferida
em Gaza.


20.
o silêncio
é sempre antes de algo
em Gaza.



21
esta mulher
já não sabe por quem chora
em Gaza.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Palestina /Palestine

sobre Gaza
voam borboletas de aço
de dia e de noite.

over Gaza
iron butterflies flutter
day and night.


em Gaza
as crianças já sabem
que é melhor não ver.

in Gaza
children already know:
is better not to see.


a desgraça
trespassa as paredes
em Gaza.

misery
passes through the walls
in Gaza.


nada
é irremediável
em Gaza.


nothing is
irremediable
in Gaza.

Fevereiro 1

um botão
na senda enlameada.
Uma flor?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Fevereiro

Sol depois da chuva -
ficam cristais de água
no verde das árvores.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Heron's Nest

A prestigiada revista "Heron's Nest" que publica, nos Estados Unidos, poesia Haiku, acaba ds atribuir prémios de ilustração.
Fica aqui o incentivo para visitar o site:


http://www.theheronsnest.com/haiku/1101t1547/2008_illustration_contest.html

sábado, 31 de janeiro de 2009

Um convite!

Dixie Gang convida Paula Oliveira

6 de Fevereiro, 21h30
Institut Franco-Portugais

Av. Luis Bívar, 91, 1050-143 Lisboa
Bilhetes 10 Euros
(à venda no local, 1h antes do espectáculo)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

caminhei
a caminho do emprego
sem destino.
estranho
ver a copa da árvore
a arrastar no chão.
lembro-me de ti
ao ver
o corredor vazio.
Só o o ruido
de um carro, longe,
na névoa de Inverno

Muro

eu e a erva
frente ao grande
muro branco.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Insónia

encontrei no bolso
o que procurei toda a noite -
é de manhã!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Noite de inverno

noite de Inverno-
o estalar dos meus passos
nas pedras da rua.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Obama

Do ronco das lágrimas,
da noite inteminável da injustiça,
da humilhação pregada à pele,
sais, Obama, com de um sonho
sonhado numa noite tranquila.
Não afagues as mãos
que empunharam o chicote:
mas empresta-nos os teus olhos
para que neles navegue o perdão e a paz.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Yvette Centeno II

Meditações II

Continuando com os haiku de David Rodrigues: é interessante verificar como o seu trabalho poético se faz do particular para o universal, exigindo do leitor uma capacidade de meditação própria, que o faça ampliar os múltiplos sentidos, como um alquimista (neste caso da metáfora viva) no trabalho da Pedra, que tem de passar pela fase da amplificatio para que se torne de verdade completa e actuante.
O poema, sobretudo nestes casos, possui uma carga simbólica tanto mais forte quanto mais arquetípica se revelar; no poema se faz a ponte, no poema se unem os extremos por vezes conflituosos como nos ensinam o Yi King, ou o Tao Te King, nascendo desse jogo de oposições subtis uma nova espiritualidade, um novo horizonte de perfeição (nunca alcançado). Assim as esferas naturais, do homem no seu mundo e do universo na sua essência e nas suas manifestações, se abrem à nossa sensibilidade e ao nosso entendimento.
Dizia eu do particular ao universal: é esse o segredo do poema sobretudo quando, como nos haiku, se vive basicamente de uma ideia, de um sentimento, de uma imagem-força, a tal metáfora viva de que fala Ricoeur. No caso dos poemas de David Rodrigues, isso torna-se particularmente evidente: da romãzeira contempla a romã, ou o seu bago; da oliveira descobre as azeitonas, olhos escuros contemplando aves, etc. Curiosa é a metáfora do barco / abutre (n.69,in Estações Sentidas):
Na madrugada
o barco escuro emboscado
como um abutre.
A metáfora da vida humana, ou do corpo humano, que é frequentemente o barco,veja-se a Narrenschiff, de Sebastian Brant, ou o Bateau Ivre de Rimbaud, conduz, na sua união à imagem do abutre ameaçador, não à vida, mas à morte, à sua ameaça latente.
A meditação oferecida é de cariz filosófico, como a que se vê na doutrina taoista, milenar, e que ainda hoje faz sentido, como busca constante e humilde do único bem precioso que se pode tentar adquirir: a sabedoria, consistindo no conhecimento de si mesmo, limite e limiar.
Na gravura de cima, a barca dos imortais afrontando o mar revolto da vida, podemos ver a garça, no seu vôo branco de sublimação anunciada.
Mas no caso de David, as garras do abutre evocam, indirectamente, outros perigos, outros receios, como o canto e as garras das míticas sereias de que Ulisses se libertou.
Há muitos tipos de ameaça à fragilidade da vida: a calmaria do poema de Goethe não é menos assustadora. Se no mar do haiku de David quase se ouve o barulho ameaçador da onda, ou do vôo cruel do abutre, no mar de Goethe é o silêncio que traz o pressentimento de uma não menos temida morte próxima:
Calmaria
Reina profunda paz na água,
Imóvel o mar repousa,
E o barqueiro vê, com ânsia,
A calma superfície à sua volta.
Nenhum ar de nenhum lado.
Terrível quietude mortal!
Na imensidão da distância
Nem uma onde se move.
Goethe, o velho sábio, conhecia bem o pensamento oriental e a filosofia hermética: disso dão testemunho as suas obras de grande vulto, como o Fausto , e outras, menos conhecidas, mas igualmente importantes, como é o caso do ciclo do Divã Ocidental-Oriental:
Se estou só
Não posso estar melhor.
O meu vinho
Bebo-o sozinho,
Ninguém me proíbe de o fazer,
E tenho assim os meus próprios pensamentos.
Deste vinho, da solidão criadora, bebe David Rodrigues, mostrando as afinidades, que Goethe chamaria de electivas (como na sua novela)entre os tempos, as vozes, as harmonias do canto melodioso das esferas.
Termino com uma evocação de John Blofeld, autor marcante, na década de sessenta, que viajou pela China pre-comunista, visitando mosteiros budistas e taoistas, e que de um sacerdote taoista recebeu a seguinte explicação:
"A nossa doutrina não é uma religião, mas um caminho para o Caminho (Tao)...os nossos yogas e meditações começam por gerar um estado de tranquilidade, de modo a que, no silêncio dos nossos corações, possamos apreender o Tao dentro,à volta, acima e abaixo de nós.Procuramos alimentar a nossa vitalidade e prolongar a nossa vida para ganharmos tempo e podermos, com a sublimação necessária, atingir os nossos mais altos propósitos...Assim se chega à preparação da Pílula Dourada,que alguns, mal informados, julgam que se obtém por processos alquímicos, quando na verdade só se obtém no interior do próprio corpo..."
Pensamento idêntico é expresso por um filósofo hermético ocidental, Robert Fludd, no século XVI:
" Transmutai-vos de seres mortais em pedras filosofais vivas...cada homem piedoso e justo é um alquimista espiritual".
O mesmo se pode dizer, sem ofensa, dos poetas cujo imaginário busca, na contenção do poema um caminho outro, que não o do falar disperso, avulso, sem sentido.
Mais leituras:
J.C.Cooper, Chinese Alchemy, The Taoist Quest for Immortality, 1984

Yvette Centeno I

Meditações I

A leitura de dois livros de David Rodrigues - ambos de Haiku ordenados ao sabor das horas, dos meses, das estações do ano, do tempo enfim, pois é do tempo que as formas surgem e a ele regressam, no seu eterno ciclo - trouxe-me à memória o poema de Borges sobre uma versão do Yi King, a Bíblia do oriente que Richard Wilhelm e Carl Gustav Jung deram a conhecer ao ocidente:
Para una versión del I King
El porvenir es tan irrevocable
Como el rígido ayer. No hay una cosa
Que no sea una letra silenciosa
De la eterna escritura indescifrable
Cujo libro es el tiempo. Quien se aleja
De su casa ya ha vuelto. Nuestra vida
Es la senda futura y recorrida.
El rigor ha tejido la madeja.
No te arredres. La ergástula es oscura,
La firme trama es de incesante hierro,
Pero en algún recodo de tu encierro
Puede haber una luz, una hendidura.
El camino es fatal como la flecha.
Pero en las grietas está Dios, que acecha.
A lição, continuada no conjunto de ensaios dedicados ao Yi King, nesta edição de que me sirvo (Erfahrungen mit dem I Ging, ed. Diedrichs Gelbe Reihe) é a de que da mais recôndita prega do tempo, do destino, surge a luz: luz que se condensa numa ideia, num sentimento, numa imagem poderosa, ora suave ora fulminante. Assim é o caminho, com as suas variações. Deus nem sempre espreitará do escuro de uma fenda, ao contrário do que escreve Borges, mas a condição humana sempre se revela.
A marca do Tao Te King também está presente no filosofar tranquilo que encontramos nos Haiku de David Rodrigues, embora eu tenha pressentido primeiro a ânsia a que o Yi King dá ( ou não dá) resposta.
Passemos aos seus livros, de edição cuidada, bom papel, letra agradável de ler - o objecto livro é importante- apela aos sentidos, da visão, do tacto, influenciando a relação que teremos com ele, antes e depois de o ter lido.
Publicado em 2007, ESTAÇÕES SENTIDAS, 111 HAIKU;
Publicado em 2008, RESPIRAR, 101 KAIKU
Os títulos já indicam a fidelidade ao género literário, que se mantém nos poemas, na delicada concentração dos ritmos e das imagens.
As Estações Sentidas abrem com o Outono, a estação por excelência de toda a melancolia, fecham com o Verão que parece, numa apetecida sensualidade, permitir que o poeta se abra às emoções da paixão, no capítulo final, Sentidas, onde se faz do corpo a imagem condensada de um cosmos estelar:
103
O corpo
haiku feito de universo
e sentimento
Adiante noutro poema, e tal como em Pessoa, ou em Caeiro (sua variante de desejada inocência), é na ignorância que o mundo se revela, a iluminação se dá. A ignorância, que se perde com a noção da consciência de que se é (e de que ser é uma realidade implacável), é glosada neste haiku 109:
O lago não sabe
até que chegue o vento
quantas ondas tem.
Meditando, lendo e relendo, como os haiku nos pedem, somos levados a concluir que todo o destino, ( o tempo) é impenetrável e que talvez seja melhor que assim permaneça, para que não se destrua a ilusão de alguma felicidade. Essa é a ilusão com o autor fecha o livro, no haiku 111:
Hoje ainda não há
toda a felicidade.
Só amanhã.
Fecha-se a obra, abrindo-se a uma esperança que o futuro dirá se não foi vã.
Em 2007, a revista japonesa Ginyu escolheu como um dos sessenta melhores haiku desse ano este poema, belíssimo pelo que tem de nosso (além do caminhar...):
Pedras das calçadas
como estilhaços de sonhos
deixados para trás.
David Rodrigues tem uma paleta variada, que inclui todos os elementos da natureza que lhe prenderam, a dado momento, o olhar: como na alquimia, encontramos a terra, a água (lago, mar) o fogo ( que o sol ou a luz figuram ) o ar ( o céu, o vento ); e encontramos ainda, na abundância da terra, as árvores, os arbustos, a flôr, o fruto, oferendas da mãe antiga, do corpo universal. Mais interessante ainda, o bestiário simbólico, de que ambos os livros dão testemunho e por onde passa quase toda a escala animal, do paciente caracol à pequena joaninha, da inocente borboleta ao canário ou ao melro, às gaivotas ou ao falcão, sem esquecer o elefante, não menos significativo, na sua grandeza, do que o minúsculo pirilampo, cuja luz é afinal um marco do caminho:
Ver os pirilampos
como sabendo o caminho
a seguir na noite.
(n.77,Estações Sentidas)
Se estivessemos a fazer uma Renga ( outro género, em que vários poetas dialogam por via dos poemas) diria, tentando acrescentar sentido:
Relâmpagos de noite:
múltiplos são os caminhos.
Mas, continuando com David: os seus haiku são pontos de emanação de um sentido que já contêm, imanente, como no ponto inicial o universo já se continha no todo que veio a ser. A fracção que é o poema, ou melhor, a fractura, situa-se precisamente entre a potência e o acto, movimento que a leitura repetida, mais até do que a escrita, permitem adivinhar. Há um momento de iluminação, que não tem de ser como a de Angelus Silesius, mística e comovente de ingénua entrega; a fulguração quase ou mesmo só panteísta, da contemplação da natureza e da centralidade do olhar do homem nela, faz igualmente parte da iluminação que pela obra nos é dada.
Coloco estes poemas de David entre dois poemas dos meus poetas favoritos: Sophia de Mello Breyner, que me acompanha desde a juventude, e Paul Celan, já na maturidade a que fui chegando:
Coral
Ia e vinha.
E a cada coisa perguntava
que nome tinha.
( Sophia )
Entrada de Violoncelos
...
tudo é menos do que
é,
tudo é mais.
( Celan )

domingo, 18 de janeiro de 2009

Nevoeiro

silêncio branco
longe, o ronco dos barcos -
manhã de Inverno.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Apud Yvette Centeno

Yvette Centeno no seu livro "Entre Silêncios" escreveu estes versos:

“(...) em silêncio/três peixes de cristal/devoram o peixe-rei/outrora poderoso”).

É uma imagem muito forte e (óbviamente) inexorável de morte. Esta imagem inspirou-me outra que vi há muitos anos na Praia de S. Bernardino (perto de Peniche):



um caranguejo
passeia pelo olho
do golfinho,