jantar na Primavera -
flores de jacarandá
caem na mesa.
dinner in Spring
jacaranda flowers
fall on the table.
domingo, 31 de maio de 2009
sábado, 30 de maio de 2009
Aos punhos apontados para o céu
Hoje queria falar dos punhos apontados para o céu. Os punhos daquelas pessoas a que sofreram uma ofensa irreparável e injusta e que na agonia da injustiça apontam para o grande e impassível céu os seus infimos e desesperados punhos. Que esperar de quem se sentiu trespassado por uma injustiça que já está feita e para a qual não há remédio (um assassinato, um genocídio, uma calúnia, um crime ambiental, enfim, tantas...tantas...) ? E o punho apontado para o céu mostra a desproporção de forças, a formiga a levantar o punho para o elefante...
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Pedir
Pedir é apelar para as emoções da pessoa a quem se pede. É por isso que não se pede justiça (essa deveria ser racional e positiva) nem se deve pedir respeito. Pede-se carinho, atenção, generosidade. misericórdia, compaixão... pede-se uma oportunidade que pode não ser dada...
Pedir é de certa forma perguntar: "Está certo que está a ser humano e justo?" E perguntar não ofende (talvez até mobilize outras energias para tomar uma boa decisão).
Pedir é de certa forma perguntar: "Está certo que está a ser humano e justo?" E perguntar não ofende (talvez até mobilize outras energias para tomar uma boa decisão).
terça-feira, 26 de maio de 2009
Haibun
Definição da Haiku Society ofAmerica.
Definition of the Haiku Society of America as adopted at the Annual Meetingof the Society, New York City, 18 September 2004
A haibun is a terse, relatively short prose poem in the haikai style,usually including both lightly humorous and more serious elements. A haibunusually ends with a haiku.
Parece deprender-se que haikai é um estilo de escrita que pode exprimir-sede múltiplas formas (haiku, haibun, renga, tanka, etc.). A temática é muito alargada mas parece que temas do quotidiano e da viagem são os mais populares (e que foram extensivamente cultivados por Bashô). A este respeito pode-se consultar "Contemporary HaibunOnline" que tem uma boa e grande selecção de poetas contemporâneos.
Definition of the Haiku Society of America as adopted at the Annual Meetingof the Society, New York City, 18 September 2004
A haibun is a terse, relatively short prose poem in the haikai style,usually including both lightly humorous and more serious elements. A haibunusually ends with a haiku.
Parece deprender-se que haikai é um estilo de escrita que pode exprimir-sede múltiplas formas (haiku, haibun, renga, tanka, etc.). A temática é muito alargada mas parece que temas do quotidiano e da viagem são os mais populares (e que foram extensivamente cultivados por Bashô). A este respeito pode-se consultar "Contemporary HaibunOnline" que tem uma boa e grande selecção de poetas contemporâneos.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
João Benard da Costa
O que é a arte para além do imediato, da experiência presencial e instantânea, da fruição, do prazer ou da emoção do momento? O que é um livro além do momento, além do tempo, em que se lê? E uma pintura para além do que olha? E uma música para além do que se ouve?
Um possível resposta está nos sublimes cometários que JBC faz ao cinema, actualmente uma das mais efémeras formas de arte. Nas suas palavras o cinema adquire uma dignidade semelhante às grandes contribuições da arte e uma perenidade inesperada para quem corre a 16 imagens por segundo.
Obrigado JBC por ter acolhido o ciclo "As Imagens e as Pessoas com Deficiência" na sua Cinemateca. E vou sempre ler as suas palavras sobre cinema. Cinema com amor. "With eyes wide open".
Um possível resposta está nos sublimes cometários que JBC faz ao cinema, actualmente uma das mais efémeras formas de arte. Nas suas palavras o cinema adquire uma dignidade semelhante às grandes contribuições da arte e uma perenidade inesperada para quem corre a 16 imagens por segundo.
Obrigado JBC por ter acolhido o ciclo "As Imagens e as Pessoas com Deficiência" na sua Cinemateca. E vou sempre ler as suas palavras sobre cinema. Cinema com amor. "With eyes wide open".
terça-feira, 19 de maio de 2009
Mario Benedetti
Morreu Mário Benedetti. Há quatro anos atrás li a sua compilação "Inventário Uno" (poesia 1950-1985) um volume de 600 páginas e apreciei cada momento que passei a lê-la.
E a melhor homenagem a um poeta? Ler e abrir o coração aos seus versos. Como ele dizia:
Arte Poética
Que golpee y golpee
hasta que nadie
pueda ya hacerse el sordo
que golpee y golpee
hasta que el poeta
sepa
o por lo menos crea
que es a él
a quien llaman.
E a melhor homenagem a um poeta? Ler e abrir o coração aos seus versos. Como ele dizia:
Arte Poética
Que golpee y golpee
hasta que nadie
pueda ya hacerse el sordo
que golpee y golpee
hasta que el poeta
sepa
o por lo menos crea
que es a él
a quien llaman.
domingo, 17 de maio de 2009
"Cinquenta Xiaoling"
Hoje falamos dos vizinhos... não do Japão mas dos seus poderosos e inspirados vizinhos chineses.
Acabei de ler o livro de Zhang Kejiu (Ed. Campo de Letras) com o título "Cinquenta Xiaoling" tradução para português do poeta Albano Martins.
É um livro de uma poesia belíssima que, apesar de escrita no princípio do século XIV, mantém todo o seu viço e nos continua a emocionar pela sua humanidade e lirismo.
Deixo aqui um destes poemas com uma vénia ao autor e ao tradutor:
De leste a oeste partem e chegam os barcos, combate de formigas/
Bater de palmas, a dama mongol está embriagada/
Do poente chegam rumores de canções/
Uma núvem solitária atravessa a sombra dum pagode/
Vento de lótus na noite fresca, o céu é como água.
E um haiku meu (d'aprés Zhang Kejiu :
noite de Maio -
uma brisa de rosas
no meio da avenida.
Acabei de ler o livro de Zhang Kejiu (Ed. Campo de Letras) com o título "Cinquenta Xiaoling" tradução para português do poeta Albano Martins.
É um livro de uma poesia belíssima que, apesar de escrita no princípio do século XIV, mantém todo o seu viço e nos continua a emocionar pela sua humanidade e lirismo.
Deixo aqui um destes poemas com uma vénia ao autor e ao tradutor:
De leste a oeste partem e chegam os barcos, combate de formigas/
Bater de palmas, a dama mongol está embriagada/
Do poente chegam rumores de canções/
Uma núvem solitária atravessa a sombra dum pagode/
Vento de lótus na noite fresca, o céu é como água.
E um haiku meu (d'aprés Zhang Kejiu :
noite de Maio -
uma brisa de rosas
no meio da avenida.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Uma rua de Alfama / A street in Alfama
o Tejo -
no fim da sombra da rua
um muro de luz azul.
the Tagus-
in the end of the street's shadow
a wall of blue light
no fim da sombra da rua
um muro de luz azul.
the Tagus-
in the end of the street's shadow
a wall of blue light
terça-feira, 12 de maio de 2009
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Ainda Adriana Lisboa...
Um parágrafo do livro Rakushisha (pg. 121, ed. Quetzal):
(trata-se uma empregada de uma loja no Japão a fazer um embrulho de presente ("puresentu" em japonês):
"Ela parecia empenhada numa manifestação de origami. Haruki se perguntava o que sairia dali. Uma estrela. Uma cigarra. Um capacete de samurai. Quando o número de dobras e de vincos no papel se mostrou suficiente à moça de mãos magras, ela pegou o livro e o acomodou sobre ele de banda. Então continuou com as dobraduras, rapidamente mas aparentando calma, eficientemente mas aparentando concentração, gentilmente mas aparentando segurança. Um tanto quanto mecanicamente, mas aparentando afeto".
Estão a ver porque é que vale a pena ler o livro para sorver estes "relances da alma japonesa"?
(trata-se uma empregada de uma loja no Japão a fazer um embrulho de presente ("puresentu" em japonês):
"Ela parecia empenhada numa manifestação de origami. Haruki se perguntava o que sairia dali. Uma estrela. Uma cigarra. Um capacete de samurai. Quando o número de dobras e de vincos no papel se mostrou suficiente à moça de mãos magras, ela pegou o livro e o acomodou sobre ele de banda. Então continuou com as dobraduras, rapidamente mas aparentando calma, eficientemente mas aparentando concentração, gentilmente mas aparentando segurança. Um tanto quanto mecanicamente, mas aparentando afeto".
Estão a ver porque é que vale a pena ler o livro para sorver estes "relances da alma japonesa"?
sábado, 9 de maio de 2009
Uma pergunta
Existe "estado de sítio", "estado lastimoso", "estado de graça" e tantos tantos mais estados... Recentemente falava-se entre poetas de haiku no "estado de haikai" significando uma predisposição de espírito, de "inspiração" ("I love this word"!) para escrever haiku.
Este "estado de haiku" existe mesmo? Se existe como é que pode ser definido? E que composição tem? Quantas partes de inspiração e quantas partes de transpiração?
Escrevi este haiku e não sei se estava ou não em "estado de haiku". Quem ajuda?
praia ao fim da tarde -
borboletas e gaivotas
no adeus do sol
(Na praia estava de certeza. E que linda que a praia está na Primavera!)
Este "estado de haiku" existe mesmo? Se existe como é que pode ser definido? E que composição tem? Quantas partes de inspiração e quantas partes de transpiração?
Escrevi este haiku e não sei se estava ou não em "estado de haiku". Quem ajuda?
praia ao fim da tarde -
borboletas e gaivotas
no adeus do sol
(Na praia estava de certeza. E que linda que a praia está na Primavera!)
sexta-feira, 8 de maio de 2009
I Ching
É este o título de um lindíssimo texto ("haikulike") que Yvette Centeno publicou no seu blog "literaturaearte"
Eu arrisco mesmo uma tradução em português (espero que sem traição).
The wind
in its cloud
The tree
in its root
O vento
na sua núvem;
a árvore
na sua raíz
Eu arrisco mesmo uma tradução em português (espero que sem traição).
The wind
in its cloud
The tree
in its root
O vento
na sua núvem;
a árvore
na sua raíz
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Senryu
Nem só de haiku vive este blog. Um amigo perguntou-me se os haiku tinham que ser sempre tão "sérios" e ligados a um certo formalismo. A minha opinião é que não: o moderno haiku é bem mais aberto e livre do que o haiku tradicional que vem de Bashô. Mas quem quiser escrever tercetos sem dores de consciência que pode estar a "assassinar" o haiku tem a possibilidade de escrever "Senryu". Abaixo encontram uma definição de senriu e um escrito por mim.
Senryū is a poem that is written in a similar form and emphasizes irony, satire, humor, and human foibles rather than seasons; it may or may not contain a kigo and kireji.
Qual é o espanto?
Afinal ele só é
melhor do que eu!
Senryū is a poem that is written in a similar form and emphasizes irony, satire, humor, and human foibles rather than seasons; it may or may not contain a kigo and kireji.
Qual é o espanto?
Afinal ele só é
melhor do que eu!
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Profetas em terra natal...
A mensagem postada aqui sobre Adriana Lisboa foi também enviada para a lista de 180 membros que se interessam pelo haiku no Brasil. Sabem quantas reacções apareceram? Nenhuma.
E daqui se podem tirar pelo menos três possíveis conclusões: 1) que a informação que eu dei era completamente redundante e todos conheciam bem o trabalho desta escritora, 2) que ninguém é profeta na sua própria terra, 3) que o assunto não vale a pena. Desta a única que me parece descabida é a última: é que vale mesmo a pena... tanto como cantar os bem-te-vi.
E daqui se podem tirar pelo menos três possíveis conclusões: 1) que a informação que eu dei era completamente redundante e todos conheciam bem o trabalho desta escritora, 2) que ninguém é profeta na sua própria terra, 3) que o assunto não vale a pena. Desta a única que me parece descabida é a última: é que vale mesmo a pena... tanto como cantar os bem-te-vi.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Ventura
Hoje,
faz-me cócegas no corpo
um frémito de felicidade.
Eu explico:
esta semana
a lotaria dá um jackpot
de 129 milhões.
Uffffffffff!
De todas as possibilidades
que me lembro
e que me podem
trazer a felicidade
esta é uma das mais prováveis.
Quem sabe
como estará a minha saúde
amanhã?
(ultimamente ando mais vulnerável)
E como estarão os que eu amo?
(idem aspas)
O António (meu amigo de Espanha)
morreu há dois dias
sem nada o fazer prever...
Acidentes de carro,
(estou no epicentro)
notificações das finanças,
(será que eles não me esquecem?)
enfim...
Tudo de mal pode
certamente acontecer.
Mas o bem,
também...
(Oh! Como está fino o ar da manhã!)
129!!! É obra!
faz-me cócegas no corpo
um frémito de felicidade.
Eu explico:
esta semana
a lotaria dá um jackpot
de 129 milhões.
Uffffffffff!
De todas as possibilidades
que me lembro
e que me podem
trazer a felicidade
esta é uma das mais prováveis.
Quem sabe
como estará a minha saúde
amanhã?
(ultimamente ando mais vulnerável)
E como estarão os que eu amo?
(idem aspas)
O António (meu amigo de Espanha)
morreu há dois dias
sem nada o fazer prever...
Acidentes de carro,
(estou no epicentro)
notificações das finanças,
(será que eles não me esquecem?)
enfim...
Tudo de mal pode
certamente acontecer.
Mas o bem,
também...
(Oh! Como está fino o ar da manhã!)
129!!! É obra!
segunda-feira, 4 de maio de 2009
domingo, 3 de maio de 2009
Adriana Lisboa
Caros amigos:
Num blog qualquer informação corre sempre o risco de ser útil para alguns e redundante e óbvia para outros. Sabendo disto gostaria de partilhar convosco o grande prazer que tive em ler o último livro editado em Portugal da escritora carioca Adriana Lisboa (Prémio José Saramago em 2003) . O livro chama-se Rakushisha que como saberão foi o nome que o poeta japonês Mukai Kyorai deu à sua cabana depois de uma noite de temporal em que os caquis das árvores que a rodeavam se terem perdido. O nome quer mesmo dizer “Caquis Caídos”.
Adriana Lisboa tem uma escrita simultaneamente firme e leve e a desenvoltura com que desenvolve a acção é uma verdadeira escultura do tempo. Claro que o livro está cheio de referências à cultura japonesa, a Bashô e ao haicai. Para quem quiser conhecer mais sobre esta grande escritora brasileira pode ir a http://www.adrianalisboa.com.br/
E outra informação mais seleccionada: Adriana Lisboa tem um blog que se chama assim mesmo: Caquis caídos.
Ah para quem não sabe, "caqui" é o que nós chamamos em Portugal "dióspiro".
David Rodrigues
PS. Outra versão do haiku de ontem:
como uma mão
vento acaricia a erva:
pêlo de gato.
as a hand,
wind caresses the grass:
cat's fur...
Num blog qualquer informação corre sempre o risco de ser útil para alguns e redundante e óbvia para outros. Sabendo disto gostaria de partilhar convosco o grande prazer que tive em ler o último livro editado em Portugal da escritora carioca Adriana Lisboa (Prémio José Saramago em 2003) . O livro chama-se Rakushisha que como saberão foi o nome que o poeta japonês Mukai Kyorai deu à sua cabana depois de uma noite de temporal em que os caquis das árvores que a rodeavam se terem perdido. O nome quer mesmo dizer “Caquis Caídos”.
Adriana Lisboa tem uma escrita simultaneamente firme e leve e a desenvoltura com que desenvolve a acção é uma verdadeira escultura do tempo. Claro que o livro está cheio de referências à cultura japonesa, a Bashô e ao haicai. Para quem quiser conhecer mais sobre esta grande escritora brasileira pode ir a http://www.adrianalisboa.com.br/
E outra informação mais seleccionada: Adriana Lisboa tem um blog que se chama assim mesmo: Caquis caídos.
Ah para quem não sabe, "caqui" é o que nós chamamos em Portugal "dióspiro".
David Rodrigues
PS. Outra versão do haiku de ontem:
como uma mão
vento acaricia a erva:
pêlo de gato.
as a hand,
wind caresses the grass:
cat's fur...
sábado, 2 de maio de 2009
quinta-feira, 30 de abril de 2009
7leitores7
Quem gosta de literaura e de poesia (quer dizer todos os eventuais leitores destas linhas) deveriam colocar nos seus "favoritos" o blog www.7leitores.blogspot.com
Como verão é um excelente blog que actualidades e comentários sobre panorama editorial português. Entre os 7 leitores que se revesam nos comentários destaco Albano Estrela, meu professor de Ciências de Educação e editor da Editora "Indícios de Oiro".
Num comentário que publicou sobre o meu livro "Respirar: 101 haiku", Albano Estrela encerrou com as seguintes palavras:
Estamos, pois, perante um poeta de nítida inspiração lírica, que se expressa de uma forma original e que revela uma consciência literária que não é habitual entre os nossos poetas. A divisão do seu livro nos três capítulos que mencionei é prova provada do que afirmei e denuncia uma postura reflexiva e crítica sobre a sua própria escrita, o que não é, de modo algum, um dos seus méritos menores.
É verdade! Reflexivo e crítico lá isso sou... mas o resto é gentileza dele...
Como verão é um excelente blog que actualidades e comentários sobre panorama editorial português. Entre os 7 leitores que se revesam nos comentários destaco Albano Estrela, meu professor de Ciências de Educação e editor da Editora "Indícios de Oiro".
Num comentário que publicou sobre o meu livro "Respirar: 101 haiku", Albano Estrela encerrou com as seguintes palavras:
Estamos, pois, perante um poeta de nítida inspiração lírica, que se expressa de uma forma original e que revela uma consciência literária que não é habitual entre os nossos poetas. A divisão do seu livro nos três capítulos que mencionei é prova provada do que afirmei e denuncia uma postura reflexiva e crítica sobre a sua própria escrita, o que não é, de modo algum, um dos seus méritos menores.
É verdade! Reflexivo e crítico lá isso sou... mas o resto é gentileza dele...
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Baixa mar
ao ver a maré vazia
a menina disse:
-Já sei o que é o mar.
os peixes
esperam na poça de água
que o mar volte.
Maré baixa:
Ai foi alí
que eu bati o pé!
a menina disse:
-Já sei o que é o mar.
os peixes
esperam na poça de água
que o mar volte.
Maré baixa:
Ai foi alí
que eu bati o pé!
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Caracóis
o caracol
deixa na pedra
um rasto de prata
-É tarde,
tenho de ir para casa:
desculpa de caracol.
deixa na pedra
um rasto de prata
-É tarde,
tenho de ir para casa:
desculpa de caracol.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Haibun
é isso... o intérprete faz toda a diferença não basta o joão sebastião é preciso alguém que lhe penetre na alma a interprete e depois nos entregue o resultado mastigado duas vezes criado duas vezes sonhado duas vezes transmitido duas vezes para o nosso acolhimento hoje ao fim da tarde com o sol baixo já a dourar as paredes das casas ouvi uma das trinta preciosas variações (talvez por isso chamadas Goldberg) transfigurada pelos dedos de ouro de Tatiana Nicolaieva
borboletas
pousam à vez no piano
tarde dourada
borboletas
pousam à vez no piano
tarde dourada
domingo, 19 de abril de 2009
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Panta Rei
na margem
acelero o passo para ver
a corrente.
I walk fast the bank
to know
how the river flows
acelero o passo para ver
a corrente.
I walk fast the bank
to know
how the river flows
sexta-feira, 10 de abril de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Lua de 9 de Abril
na escuridão
a lua vem comigo
mas eu não vou com ela.
in the darkness
the moon follows me
but I don't walk with her.
a lua vem comigo
mas eu não vou com ela.
in the darkness
the moon follows me
but I don't walk with her.
terça-feira, 7 de abril de 2009
O Haiku e a ambiguidade
Sem ser um "quebra cabeças" o haiku beneficia do exercício da ambiguidade. Talvez esta ambiguidade esteja mais presente do que o que se pensa: o confronto entre as referências do poeta e do leitor pode emprestar novos matizes à escrita.
Mas há também a ambiguidade que o poeta procura ao usar expressões que eu gostaria de chamar "tridimensionais" porque podem, depois de "rodadas" pela leitura, apresentar aspectos novos.
Escrevi um haiku sobre Lisboa na Primavera, que me alertou para esta ambiguidade. Deixo-o aqui. "Cherchez la famme!":
nos beirais
pardais ao sol -
flores e mar.
Mas há também a ambiguidade que o poeta procura ao usar expressões que eu gostaria de chamar "tridimensionais" porque podem, depois de "rodadas" pela leitura, apresentar aspectos novos.
Escrevi um haiku sobre Lisboa na Primavera, que me alertou para esta ambiguidade. Deixo-o aqui. "Cherchez la famme!":
nos beirais
pardais ao sol -
flores e mar.
domingo, 5 de abril de 2009
quarta-feira, 1 de abril de 2009
São Paulo
Estiveste em São Paulo?
Em que São Paulo?
Have you been in São Paulo?
In which São Paulo?
Velasquez nos trópicos -
e eu esmagado
pelo Duque de Olivares.
Velasquez in the Tropics -
I felt smashed
by the Duke of Olivares.
Em que São Paulo?
Have you been in São Paulo?
In which São Paulo?
Velasquez nos trópicos -
e eu esmagado
pelo Duque de Olivares.
Velasquez in the Tropics -
I felt smashed
by the Duke of Olivares.
terça-feira, 31 de março de 2009
Levar-se a sério...
Quem é o melhor julgados dos nossos actos e do nosso mérito? "Os outros" dirão uns... Justificam que somos maus julgadores em causa própria e só a opinião dos outros pode dar mais objectividade. Contra este argumento temos os relatos da história de tantos criadores que foram ignorados e mesmo ridicularizados durante a sua vida e só mais tarde encontraram reconhecimento da sua obra. "Nós própios" responderão outras pessoas justificando que só nós sabemos em profundidade as motivações, as intenções que a criação tem. Contra este argumento temos aqueles criadores enfatuados para quem o julgamento benévolo que fazem de si é o único aceitável. Em que ficamos?
Acredito na educação. Quem tiver conhecido mundo suficiente, quem tiver descortinado a complexidade da sociedade, dos valores e das produções poderá, penso, ficar munido de um julgamente equilibrado sobre as suas próprias produções. E aí sim acredito que é o próprio o melhor julgador da sua produção. É ele que ao estar perfeitamente identificado com as emoções que levaram à obra pode melhor colocá-la numa escala de valor. Não a modéstia hipócrita nem a desbragada vanglória. Tão só a autenticidade e a honestidade do que se faz.
Levar-se a sério? Tem dias...
Acredito na educação. Quem tiver conhecido mundo suficiente, quem tiver descortinado a complexidade da sociedade, dos valores e das produções poderá, penso, ficar munido de um julgamente equilibrado sobre as suas próprias produções. E aí sim acredito que é o próprio o melhor julgador da sua produção. É ele que ao estar perfeitamente identificado com as emoções que levaram à obra pode melhor colocá-la numa escala de valor. Não a modéstia hipócrita nem a desbragada vanglória. Tão só a autenticidade e a honestidade do que se faz.
Levar-se a sério? Tem dias...
segunda-feira, 30 de março de 2009
Mar
a quilha abre a água
e o vento na vela
completa o silêncio.
cai no horizonte
a cortina de núvens -
vem mais dia amanhã?
e o vento na vela
completa o silêncio.
cai no horizonte
a cortina de núvens -
vem mais dia amanhã?
domingo, 29 de março de 2009
Sacadas...
Caros amigos:
Já aqui falei da inesperada e fulgurante pontaria com que os brasileiros usam a lingua (portuguesa). Cheguei ontem ao Brasil e já tenho história para contar. Ao virar de esquina, uma clínica veterinátia. Qual o nome? Tome bem nota:
CLINICÃO & GATO
Genial, não é?
Já aqui falei da inesperada e fulgurante pontaria com que os brasileiros usam a lingua (portuguesa). Cheguei ontem ao Brasil e já tenho história para contar. Ao virar de esquina, uma clínica veterinátia. Qual o nome? Tome bem nota:
CLINICÃO & GATO
Genial, não é?
quarta-feira, 25 de março de 2009
Um susto de saúde
Lua de Abril -
a sombra atrás de mim
passou para a minha frente.
April's Moon -
the shadow behind
is now in front of me.
a sombra atrás de mim
passou para a minha frente.
April's Moon -
the shadow behind
is now in front of me.
domingo, 22 de março de 2009
426.000
Hoje, no primeiro dia da Primavera, interessa olhar a Natureza mas olhá-la de "olhos abertos". Pensar em que é que o nosso modelos de desenvolvimento é anti-Natureza, anti-humano e anti-haiku.
Olhem este dado: nos Estados Unidos todos os dias são deitados fora 426.000 telemóveis para serem trocados por modelos mais modernos. Leu bem: 426.000!
Nunca é demais apelar a uma conduta pessoal que seja verdadeiramente coerente e comprometida com a natureza e com a solidariedade. Afinal não é só quando escrevemos haiku que devemos er frugais...
A poesia sobre a Natureza (e certamente o haiku) não a deve olhar como se nada de grave se esteja a passar, como se a Natureza continue a ser a perene, inexpugnável e olímpica matriarca.
O meu telemóvel tem três anos e não o vou trocar enquanto ele funcionar. É pouco, não é? Mas é.
Olhem este dado: nos Estados Unidos todos os dias são deitados fora 426.000 telemóveis para serem trocados por modelos mais modernos. Leu bem: 426.000!
Nunca é demais apelar a uma conduta pessoal que seja verdadeiramente coerente e comprometida com a natureza e com a solidariedade. Afinal não é só quando escrevemos haiku que devemos er frugais...
A poesia sobre a Natureza (e certamente o haiku) não a deve olhar como se nada de grave se esteja a passar, como se a Natureza continue a ser a perene, inexpugnável e olímpica matriarca.
O meu telemóvel tem três anos e não o vou trocar enquanto ele funcionar. É pouco, não é? Mas é.
Sakura
(clique na foto para a tornar maior)
No Japão celebra-se no primeiro dia de Primavera o Hanami - "a contemplação das flores".
Estamos em Portugal rodeados por uma Primavera exuberante de cores, sons, cheiros, formas,... Deixo aqui duas fotos que tirei ontem no Jadim japonês de Belém que está em re-estruturação. Mas as cerejeiras não faltaram ao chamamento da Primavera!
sexta-feira, 20 de março de 2009
Ela está aí!!!
Quem havia de ser? A Primavera!!! E com ela o Dia Mundial da Poesia. O dia fundador e primevo deste blog. É amanhã!
Vou lançar um desafio: mandem um (ou mais) haiku que tenha o perfume de mar, ou de viagem ou de horizonte.
Eu deixo um aqui para animar as hostes...
Só o olhar
é que não passou para lá
do horizonte.
Vou lançar um desafio: mandem um (ou mais) haiku que tenha o perfume de mar, ou de viagem ou de horizonte.
Eu deixo um aqui para animar as hostes...
Só o olhar
é que não passou para lá
do horizonte.
quarta-feira, 18 de março de 2009
A intransigência dos velhos
Escrevi antes sobre a avareza dos pobres. Hoje é outro "post" "politicamente incorrecto".
Presenciei uma cena em que um automobilista foi insultado por um idoso que estava a atravessar a rua (fora da passadeira). Apesar de o carro ter parado, o senhor idoso não se coibiu de maltratar o condutor.
E frequentemente se assite a episódios destes em que os idosos em nome da defesa dos seus direitos e prioridades atropelam os direitos e as prioridades dos outros. Acham que serem idosos lhes dá todos os direitos e lhes permite todas as intrasigências e os livra de serem educados e respeitadores.
O velho sem dentes
assambarcou toda a carne
ficamos a olhar...
Presenciei uma cena em que um automobilista foi insultado por um idoso que estava a atravessar a rua (fora da passadeira). Apesar de o carro ter parado, o senhor idoso não se coibiu de maltratar o condutor.
E frequentemente se assite a episódios destes em que os idosos em nome da defesa dos seus direitos e prioridades atropelam os direitos e as prioridades dos outros. Acham que serem idosos lhes dá todos os direitos e lhes permite todas as intrasigências e os livra de serem educados e respeitadores.
O velho sem dentes
assambarcou toda a carne
ficamos a olhar...
segunda-feira, 16 de março de 2009
A avareza dos pobres
Muito se fala (certamente inspirados na parábola que Jesus contou sobre a esmola da viúva) na generosidade dos pobres e na avareza dos ricos. Há milhares de histórias que parecem apontar para um maior desprendimento e disponibilidade de partilhar de quem tem pouco. Aqui os pobres se transcendem, e vemos o quanto o pouco com amor dá em muito.
Mas hoje queria falar da mesquinhez e da avareza dos pobres. Eles não estão eles imunes a este comportamento. E encontramos pessoas tão ciosas do quase nada que têm que este quase nada reduz-se a nada mesmo. Este apego febril ao quase nada que se possui é uma triste parábola sobre a grande solidão e insignificância da vida.
o naco de unto
fechado na salgadeira
cheira a ranço.
Mas hoje queria falar da mesquinhez e da avareza dos pobres. Eles não estão eles imunes a este comportamento. E encontramos pessoas tão ciosas do quase nada que têm que este quase nada reduz-se a nada mesmo. Este apego febril ao quase nada que se possui é uma triste parábola sobre a grande solidão e insignificância da vida.
o naco de unto
fechado na salgadeira
cheira a ranço.
quinta-feira, 12 de março de 2009
Sobre os enganos...
estrela cadente -
depressa: um desejo!
Ah! É um avião!
Agora
que entortei o corpo
o terno assenta bem.
apontei à crina
mas a pedra bateu no casco
do cavalo.
depressa: um desejo!
Ah! É um avião!
Agora
que entortei o corpo
o terno assenta bem.
apontei à crina
mas a pedra bateu no casco
do cavalo.
quarta-feira, 11 de março de 2009
sexta-feira, 6 de março de 2009
8 e 80
Dizia uma jovem com uma pequena minissaia: "Sabe? Eu cá sou de extremos: daqui para baixo toda a gente pode ver, mas daqui para cima... é um clube seleccionado!". E está bem... só que a travagem é tão brusca que temo que quem olhar tenha que pôr cinto de segurança e usar apoio cervical...
Clima de Primavera
gotas de chuva
diamantes de sol
nos meus ombros.
rain drops
sun diamonds
on my shoulders.
diamantes de sol
nos meus ombros.
rain drops
sun diamonds
on my shoulders.
terça-feira, 3 de março de 2009
O gosto
Eu sei, eu sei, que não é um haiku... mas aqui fica um jogo de palavras (a tal "sacada") que fala no sentido do gosto (ou será no gosto do sentido?).
degustar
o gosto do desgosto?
Não gosto.
degustar
o gosto do desgosto?
Não gosto.
Cheiro de ar...
manhã de Primavera -
o sabor do pão
com uma janela aberta.
spring morning -
the taste of bread
with a window open
o sabor do pão
com uma janela aberta.
spring morning -
the taste of bread
with a window open
domingo, 1 de março de 2009
O Ninho da Garça
Já aqui fiz referência num post anterior à superlativa qualidade de uma revista de haiku americana chamada "The Heron's Nest". Acaba de ser posto na net o número electrónico (pode-se também assinar o exemplar impresso) que tem, como seria de esperar, excelentes poesias.
Para quem quiser dar uma olhada aqui fica o endereço:
http://www.theheronsnest.com/
Para quem quiser dar uma olhada aqui fica o endereço:
http://www.theheronsnest.com/
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
José Sesinando
José Sesinando (1923-1995) manteve no Jornal de Letras (JL)uma coluna chamada Escrituralismo. No número 1000 do JL foi publicada uma pequena antologia de frases que este fulgurante escritor produziu. Aqui ficam algumas delas porque ainda é Carnaval e para ilustrar o que num post anterior eu chamei de "sacada". São excelentes "sacadas":
Leia o atentado à bomba, que publicamos em rigoroso explosivo.
Há escravatura na outra banda: existem em Almada negreiros.
Foi Copérnico quem primeiro viu a estrela pular.
Os terroristas raciocinam por explosão de partes.
Vá de metro, Satanás!
Isso é como discutir o século dos anjos.
Leia o atentado à bomba, que publicamos em rigoroso explosivo.
Há escravatura na outra banda: existem em Almada negreiros.
Foi Copérnico quem primeiro viu a estrela pular.
Os terroristas raciocinam por explosão de partes.
Vá de metro, Satanás!
Isso é como discutir o século dos anjos.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Carnaval
No Brasil cultiva-se o talento especial para as frases de humor certeiro e sintético. Um dos grandes humoristas brasileiros - Millor Rodrigues - é um extraordinário especialista em "sacadas" (estas iluminações inspiradas). Lembrei-me disto a propósito do que vi escrito numa t-shirt (em português: camiseta) e que depois de um pequeno arranjo aqui deixo:
Se vais beber, não conduzas:
convida-me!
Se vais beber, não conduzas:
convida-me!
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
domingo, 22 de fevereiro de 2009
World Haiku 2009
Foi publicado o livro World Haiku 2009 pela World Haiku Association - Japão.
Esta antologia publica desta vez 177 poetas. Isto são boas notícias. Mas ainda melhores é que destes 177, 5 escrevem em português: dois do Brasil e três de Portugal. Destes três portugueses um sou eu, outra a Lucília Saraiva (www.magrandefolledesoeur.blogspot.com) e o terceiro poeta publica sob pseudónimo.
Aqui fica a capa para abrir o apetite...
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Haiku da Rússia...
Caros amigos e leitores:
Estou de regresso de uma visita de trabalho ao norte da Rússia onde o Inverno dura oito meses e a temperatura muito raro sobre acima dos 10 graus negativos.
Gostava de compartilhar, em forma de haiku, algumas emoções que lá vivi. Com um abraço (agora já mais quente...).
ondas de neve
a correr pelo chão
atarefadas.
aquela claridade
atrás das núvens de neve...
Lua cheia.
quantas cores
esperam debaixo
deste mar branco?
sob o avião
outra planície de neve:
as nuvens.
Democracia?
Com oito meses de neve?
E riu-se!
Arde a cabeça!
Entrei em casa
e não tirei a ШAПKA
chá ao sol -
sobe do âmbar
uma névoa branca.
Estou de regresso de uma visita de trabalho ao norte da Rússia onde o Inverno dura oito meses e a temperatura muito raro sobre acima dos 10 graus negativos.
Gostava de compartilhar, em forma de haiku, algumas emoções que lá vivi. Com um abraço (agora já mais quente...).
ondas de neve
a correr pelo chão
atarefadas.
aquela claridade
atrás das núvens de neve...
Lua cheia.
quantas cores
esperam debaixo
deste mar branco?
sob o avião
outra planície de neve:
as nuvens.
Democracia?
Com oito meses de neve?
E riu-se!
Arde a cabeça!
Entrei em casa
e não tirei a ШAПKA
chá ao sol -
sobe do âmbar
uma névoa branca.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
sábado, 7 de fevereiro de 2009
"Em Gaza": 21 haiku
“Em Gaza”: 21 haiku
David Rodrigues
1.
casas
só com corredores
em Gaza.
2.
borboletas de aço
atravessam as paredes
em Gaza.
3.
todo o chão
pende para o mar
em Gaza.
4.
pedaços de ferro
encrustados nas árvores
em Gaza.
5.
mãos
esmagam pedras
em Gaza.
6.
só as bombas
parecem inteligentes
em Gaza.
7.
os lábios
têm pressa
em Gaza.
8.
olha para o chão
um casal de namorados
em Gaza.
9.
na palmeira
há uma tâmara empoeirada
em Gaza.
10.
olhos de azeitona
olham os malmequeres
em Gaza.
11.
um grito
antes da ferida
em Gaza.
12.
escrito na parede
Deus e um ponto de interrogação
em Gaza.
13.
a Lua Cheia
parece um olho
em Gaza.
14.
que Deus
escolheu o povo
em Gaza?
15.
um sapato novo
largado no chão
em Gaza.
16.
não se vê o céu
quando se olha o céu
em Gaza.
17.
as crianças já sabem
que é melhor não ver
em Gaza.
18.
nos galhos nus
dormem pardais
em Gaza.
19.
o grito
antes da ferida
em Gaza.
20.
o silêncio
é sempre antes de algo
em Gaza.
21
esta mulher
já não sabe por quem chora
em Gaza.
David Rodrigues
1.
casas
só com corredores
em Gaza.
2.
borboletas de aço
atravessam as paredes
em Gaza.
3.
todo o chão
pende para o mar
em Gaza.
4.
pedaços de ferro
encrustados nas árvores
em Gaza.
5.
mãos
esmagam pedras
em Gaza.
6.
só as bombas
parecem inteligentes
em Gaza.
7.
os lábios
têm pressa
em Gaza.
8.
olha para o chão
um casal de namorados
em Gaza.
9.
na palmeira
há uma tâmara empoeirada
em Gaza.
10.
olhos de azeitona
olham os malmequeres
em Gaza.
11.
um grito
antes da ferida
em Gaza.
12.
escrito na parede
Deus e um ponto de interrogação
em Gaza.
13.
a Lua Cheia
parece um olho
em Gaza.
14.
que Deus
escolheu o povo
em Gaza?
15.
um sapato novo
largado no chão
em Gaza.
16.
não se vê o céu
quando se olha o céu
em Gaza.
17.
as crianças já sabem
que é melhor não ver
em Gaza.
18.
nos galhos nus
dormem pardais
em Gaza.
19.
o grito
antes da ferida
em Gaza.
20.
o silêncio
é sempre antes de algo
em Gaza.
21
esta mulher
já não sabe por quem chora
em Gaza.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Palestina /Palestine
sobre Gaza
voam borboletas de aço
de dia e de noite.
over Gaza
iron butterflies flutter
day and night.
em Gaza
as crianças já sabem
que é melhor não ver.
in Gaza
children already know:
is better not to see.
a desgraça
trespassa as paredes
em Gaza.
misery
passes through the walls
in Gaza.
nada
é irremediável
em Gaza.
nothing is
irremediable
in Gaza.
voam borboletas de aço
de dia e de noite.
over Gaza
iron butterflies flutter
day and night.
em Gaza
as crianças já sabem
que é melhor não ver.
in Gaza
children already know:
is better not to see.
a desgraça
trespassa as paredes
em Gaza.
misery
passes through the walls
in Gaza.
nada
é irremediável
em Gaza.
nothing is
irremediable
in Gaza.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Heron's Nest
A prestigiada revista "Heron's Nest" que publica, nos Estados Unidos, poesia Haiku, acaba ds atribuir prémios de ilustração.
Fica aqui o incentivo para visitar o site:
http://www.theheronsnest.com/haiku/1101t1547/2008_illustration_contest.html
Fica aqui o incentivo para visitar o site:
http://www.theheronsnest.com/haiku/1101t1547/2008_illustration_contest.html
sábado, 31 de janeiro de 2009
Um convite!
Dixie Gang convida Paula Oliveira
6 de Fevereiro, 21h30
Institut Franco-Portugais
Av. Luis Bívar, 91, 1050-143 Lisboa
Bilhetes 10 Euros
(à venda no local, 1h antes do espectáculo)
6 de Fevereiro, 21h30
Institut Franco-Portugais
Av. Luis Bívar, 91, 1050-143 Lisboa
Bilhetes 10 Euros
(à venda no local, 1h antes do espectáculo)
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Obama
Do ronco das lágrimas,
da noite inteminável da injustiça,
da humilhação pregada à pele,
sais, Obama, com de um sonho
sonhado numa noite tranquila.
Não afagues as mãos
que empunharam o chicote:
mas empresta-nos os teus olhos
para que neles navegue o perdão e a paz.
da noite inteminável da injustiça,
da humilhação pregada à pele,
sais, Obama, com de um sonho
sonhado numa noite tranquila.
Não afagues as mãos
que empunharam o chicote:
mas empresta-nos os teus olhos
para que neles navegue o perdão e a paz.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Yvette Centeno II
Meditações II
Continuando com os haiku de David Rodrigues: é interessante verificar como o seu trabalho poético se faz do particular para o universal, exigindo do leitor uma capacidade de meditação própria, que o faça ampliar os múltiplos sentidos, como um alquimista (neste caso da metáfora viva) no trabalho da Pedra, que tem de passar pela fase da amplificatio para que se torne de verdade completa e actuante.
O poema, sobretudo nestes casos, possui uma carga simbólica tanto mais forte quanto mais arquetípica se revelar; no poema se faz a ponte, no poema se unem os extremos por vezes conflituosos como nos ensinam o Yi King, ou o Tao Te King, nascendo desse jogo de oposições subtis uma nova espiritualidade, um novo horizonte de perfeição (nunca alcançado). Assim as esferas naturais, do homem no seu mundo e do universo na sua essência e nas suas manifestações, se abrem à nossa sensibilidade e ao nosso entendimento.
Dizia eu do particular ao universal: é esse o segredo do poema sobretudo quando, como nos haiku, se vive basicamente de uma ideia, de um sentimento, de uma imagem-força, a tal metáfora viva de que fala Ricoeur. No caso dos poemas de David Rodrigues, isso torna-se particularmente evidente: da romãzeira contempla a romã, ou o seu bago; da oliveira descobre as azeitonas, olhos escuros contemplando aves, etc. Curiosa é a metáfora do barco / abutre (n.69,in Estações Sentidas):
Na madrugada
o barco escuro emboscado
como um abutre.
A metáfora da vida humana, ou do corpo humano, que é frequentemente o barco,veja-se a Narrenschiff, de Sebastian Brant, ou o Bateau Ivre de Rimbaud, conduz, na sua união à imagem do abutre ameaçador, não à vida, mas à morte, à sua ameaça latente.
A meditação oferecida é de cariz filosófico, como a que se vê na doutrina taoista, milenar, e que ainda hoje faz sentido, como busca constante e humilde do único bem precioso que se pode tentar adquirir: a sabedoria, consistindo no conhecimento de si mesmo, limite e limiar.
Na gravura de cima, a barca dos imortais afrontando o mar revolto da vida, podemos ver a garça, no seu vôo branco de sublimação anunciada.
Mas no caso de David, as garras do abutre evocam, indirectamente, outros perigos, outros receios, como o canto e as garras das míticas sereias de que Ulisses se libertou.
Há muitos tipos de ameaça à fragilidade da vida: a calmaria do poema de Goethe não é menos assustadora. Se no mar do haiku de David quase se ouve o barulho ameaçador da onda, ou do vôo cruel do abutre, no mar de Goethe é o silêncio que traz o pressentimento de uma não menos temida morte próxima:
Calmaria
Reina profunda paz na água,
Imóvel o mar repousa,
E o barqueiro vê, com ânsia,
A calma superfície à sua volta.
Nenhum ar de nenhum lado.
Terrível quietude mortal!
Na imensidão da distância
Nem uma onde se move.
Goethe, o velho sábio, conhecia bem o pensamento oriental e a filosofia hermética: disso dão testemunho as suas obras de grande vulto, como o Fausto , e outras, menos conhecidas, mas igualmente importantes, como é o caso do ciclo do Divã Ocidental-Oriental:
Se estou só
Não posso estar melhor.
O meu vinho
Bebo-o sozinho,
Ninguém me proíbe de o fazer,
E tenho assim os meus próprios pensamentos.
Deste vinho, da solidão criadora, bebe David Rodrigues, mostrando as afinidades, que Goethe chamaria de electivas (como na sua novela)entre os tempos, as vozes, as harmonias do canto melodioso das esferas.
Termino com uma evocação de John Blofeld, autor marcante, na década de sessenta, que viajou pela China pre-comunista, visitando mosteiros budistas e taoistas, e que de um sacerdote taoista recebeu a seguinte explicação:
"A nossa doutrina não é uma religião, mas um caminho para o Caminho (Tao)...os nossos yogas e meditações começam por gerar um estado de tranquilidade, de modo a que, no silêncio dos nossos corações, possamos apreender o Tao dentro,à volta, acima e abaixo de nós.Procuramos alimentar a nossa vitalidade e prolongar a nossa vida para ganharmos tempo e podermos, com a sublimação necessária, atingir os nossos mais altos propósitos...Assim se chega à preparação da Pílula Dourada,que alguns, mal informados, julgam que se obtém por processos alquímicos, quando na verdade só se obtém no interior do próprio corpo..."
Pensamento idêntico é expresso por um filósofo hermético ocidental, Robert Fludd, no século XVI:
" Transmutai-vos de seres mortais em pedras filosofais vivas...cada homem piedoso e justo é um alquimista espiritual".
O mesmo se pode dizer, sem ofensa, dos poetas cujo imaginário busca, na contenção do poema um caminho outro, que não o do falar disperso, avulso, sem sentido.
Mais leituras:
J.C.Cooper, Chinese Alchemy, The Taoist Quest for Immortality, 1984
Continuando com os haiku de David Rodrigues: é interessante verificar como o seu trabalho poético se faz do particular para o universal, exigindo do leitor uma capacidade de meditação própria, que o faça ampliar os múltiplos sentidos, como um alquimista (neste caso da metáfora viva) no trabalho da Pedra, que tem de passar pela fase da amplificatio para que se torne de verdade completa e actuante.
O poema, sobretudo nestes casos, possui uma carga simbólica tanto mais forte quanto mais arquetípica se revelar; no poema se faz a ponte, no poema se unem os extremos por vezes conflituosos como nos ensinam o Yi King, ou o Tao Te King, nascendo desse jogo de oposições subtis uma nova espiritualidade, um novo horizonte de perfeição (nunca alcançado). Assim as esferas naturais, do homem no seu mundo e do universo na sua essência e nas suas manifestações, se abrem à nossa sensibilidade e ao nosso entendimento.
Dizia eu do particular ao universal: é esse o segredo do poema sobretudo quando, como nos haiku, se vive basicamente de uma ideia, de um sentimento, de uma imagem-força, a tal metáfora viva de que fala Ricoeur. No caso dos poemas de David Rodrigues, isso torna-se particularmente evidente: da romãzeira contempla a romã, ou o seu bago; da oliveira descobre as azeitonas, olhos escuros contemplando aves, etc. Curiosa é a metáfora do barco / abutre (n.69,in Estações Sentidas):
Na madrugada
o barco escuro emboscado
como um abutre.
A metáfora da vida humana, ou do corpo humano, que é frequentemente o barco,veja-se a Narrenschiff, de Sebastian Brant, ou o Bateau Ivre de Rimbaud, conduz, na sua união à imagem do abutre ameaçador, não à vida, mas à morte, à sua ameaça latente.
A meditação oferecida é de cariz filosófico, como a que se vê na doutrina taoista, milenar, e que ainda hoje faz sentido, como busca constante e humilde do único bem precioso que se pode tentar adquirir: a sabedoria, consistindo no conhecimento de si mesmo, limite e limiar.
Na gravura de cima, a barca dos imortais afrontando o mar revolto da vida, podemos ver a garça, no seu vôo branco de sublimação anunciada.
Mas no caso de David, as garras do abutre evocam, indirectamente, outros perigos, outros receios, como o canto e as garras das míticas sereias de que Ulisses se libertou.
Há muitos tipos de ameaça à fragilidade da vida: a calmaria do poema de Goethe não é menos assustadora. Se no mar do haiku de David quase se ouve o barulho ameaçador da onda, ou do vôo cruel do abutre, no mar de Goethe é o silêncio que traz o pressentimento de uma não menos temida morte próxima:
Calmaria
Reina profunda paz na água,
Imóvel o mar repousa,
E o barqueiro vê, com ânsia,
A calma superfície à sua volta.
Nenhum ar de nenhum lado.
Terrível quietude mortal!
Na imensidão da distância
Nem uma onde se move.
Goethe, o velho sábio, conhecia bem o pensamento oriental e a filosofia hermética: disso dão testemunho as suas obras de grande vulto, como o Fausto , e outras, menos conhecidas, mas igualmente importantes, como é o caso do ciclo do Divã Ocidental-Oriental:
Se estou só
Não posso estar melhor.
O meu vinho
Bebo-o sozinho,
Ninguém me proíbe de o fazer,
E tenho assim os meus próprios pensamentos.
Deste vinho, da solidão criadora, bebe David Rodrigues, mostrando as afinidades, que Goethe chamaria de electivas (como na sua novela)entre os tempos, as vozes, as harmonias do canto melodioso das esferas.
Termino com uma evocação de John Blofeld, autor marcante, na década de sessenta, que viajou pela China pre-comunista, visitando mosteiros budistas e taoistas, e que de um sacerdote taoista recebeu a seguinte explicação:
"A nossa doutrina não é uma religião, mas um caminho para o Caminho (Tao)...os nossos yogas e meditações começam por gerar um estado de tranquilidade, de modo a que, no silêncio dos nossos corações, possamos apreender o Tao dentro,à volta, acima e abaixo de nós.Procuramos alimentar a nossa vitalidade e prolongar a nossa vida para ganharmos tempo e podermos, com a sublimação necessária, atingir os nossos mais altos propósitos...Assim se chega à preparação da Pílula Dourada,que alguns, mal informados, julgam que se obtém por processos alquímicos, quando na verdade só se obtém no interior do próprio corpo..."
Pensamento idêntico é expresso por um filósofo hermético ocidental, Robert Fludd, no século XVI:
" Transmutai-vos de seres mortais em pedras filosofais vivas...cada homem piedoso e justo é um alquimista espiritual".
O mesmo se pode dizer, sem ofensa, dos poetas cujo imaginário busca, na contenção do poema um caminho outro, que não o do falar disperso, avulso, sem sentido.
Mais leituras:
J.C.Cooper, Chinese Alchemy, The Taoist Quest for Immortality, 1984
Yvette Centeno I
Meditações I
A leitura de dois livros de David Rodrigues - ambos de Haiku ordenados ao sabor das horas, dos meses, das estações do ano, do tempo enfim, pois é do tempo que as formas surgem e a ele regressam, no seu eterno ciclo - trouxe-me à memória o poema de Borges sobre uma versão do Yi King, a Bíblia do oriente que Richard Wilhelm e Carl Gustav Jung deram a conhecer ao ocidente:
Para una versión del I King
El porvenir es tan irrevocable
Como el rígido ayer. No hay una cosa
Que no sea una letra silenciosa
De la eterna escritura indescifrable
Cujo libro es el tiempo. Quien se aleja
De su casa ya ha vuelto. Nuestra vida
Es la senda futura y recorrida.
El rigor ha tejido la madeja.
No te arredres. La ergástula es oscura,
La firme trama es de incesante hierro,
Pero en algún recodo de tu encierro
Puede haber una luz, una hendidura.
El camino es fatal como la flecha.
Pero en las grietas está Dios, que acecha.
A lição, continuada no conjunto de ensaios dedicados ao Yi King, nesta edição de que me sirvo (Erfahrungen mit dem I Ging, ed. Diedrichs Gelbe Reihe) é a de que da mais recôndita prega do tempo, do destino, surge a luz: luz que se condensa numa ideia, num sentimento, numa imagem poderosa, ora suave ora fulminante. Assim é o caminho, com as suas variações. Deus nem sempre espreitará do escuro de uma fenda, ao contrário do que escreve Borges, mas a condição humana sempre se revela.
A marca do Tao Te King também está presente no filosofar tranquilo que encontramos nos Haiku de David Rodrigues, embora eu tenha pressentido primeiro a ânsia a que o Yi King dá ( ou não dá) resposta.
Passemos aos seus livros, de edição cuidada, bom papel, letra agradável de ler - o objecto livro é importante- apela aos sentidos, da visão, do tacto, influenciando a relação que teremos com ele, antes e depois de o ter lido.
Publicado em 2007, ESTAÇÕES SENTIDAS, 111 HAIKU;
Publicado em 2008, RESPIRAR, 101 KAIKU
Os títulos já indicam a fidelidade ao género literário, que se mantém nos poemas, na delicada concentração dos ritmos e das imagens.
As Estações Sentidas abrem com o Outono, a estação por excelência de toda a melancolia, fecham com o Verão que parece, numa apetecida sensualidade, permitir que o poeta se abra às emoções da paixão, no capítulo final, Sentidas, onde se faz do corpo a imagem condensada de um cosmos estelar:
103
O corpo
haiku feito de universo
e sentimento
Adiante noutro poema, e tal como em Pessoa, ou em Caeiro (sua variante de desejada inocência), é na ignorância que o mundo se revela, a iluminação se dá. A ignorância, que se perde com a noção da consciência de que se é (e de que ser é uma realidade implacável), é glosada neste haiku 109:
O lago não sabe
até que chegue o vento
quantas ondas tem.
Meditando, lendo e relendo, como os haiku nos pedem, somos levados a concluir que todo o destino, ( o tempo) é impenetrável e que talvez seja melhor que assim permaneça, para que não se destrua a ilusão de alguma felicidade. Essa é a ilusão com o autor fecha o livro, no haiku 111:
Hoje ainda não há
toda a felicidade.
Só amanhã.
Fecha-se a obra, abrindo-se a uma esperança que o futuro dirá se não foi vã.
Em 2007, a revista japonesa Ginyu escolheu como um dos sessenta melhores haiku desse ano este poema, belíssimo pelo que tem de nosso (além do caminhar...):
Pedras das calçadas
como estilhaços de sonhos
deixados para trás.
David Rodrigues tem uma paleta variada, que inclui todos os elementos da natureza que lhe prenderam, a dado momento, o olhar: como na alquimia, encontramos a terra, a água (lago, mar) o fogo ( que o sol ou a luz figuram ) o ar ( o céu, o vento ); e encontramos ainda, na abundância da terra, as árvores, os arbustos, a flôr, o fruto, oferendas da mãe antiga, do corpo universal. Mais interessante ainda, o bestiário simbólico, de que ambos os livros dão testemunho e por onde passa quase toda a escala animal, do paciente caracol à pequena joaninha, da inocente borboleta ao canário ou ao melro, às gaivotas ou ao falcão, sem esquecer o elefante, não menos significativo, na sua grandeza, do que o minúsculo pirilampo, cuja luz é afinal um marco do caminho:
Ver os pirilampos
como sabendo o caminho
a seguir na noite.
(n.77,Estações Sentidas)
Se estivessemos a fazer uma Renga ( outro género, em que vários poetas dialogam por via dos poemas) diria, tentando acrescentar sentido:
Relâmpagos de noite:
múltiplos são os caminhos.
Mas, continuando com David: os seus haiku são pontos de emanação de um sentido que já contêm, imanente, como no ponto inicial o universo já se continha no todo que veio a ser. A fracção que é o poema, ou melhor, a fractura, situa-se precisamente entre a potência e o acto, movimento que a leitura repetida, mais até do que a escrita, permitem adivinhar. Há um momento de iluminação, que não tem de ser como a de Angelus Silesius, mística e comovente de ingénua entrega; a fulguração quase ou mesmo só panteísta, da contemplação da natureza e da centralidade do olhar do homem nela, faz igualmente parte da iluminação que pela obra nos é dada.
Coloco estes poemas de David entre dois poemas dos meus poetas favoritos: Sophia de Mello Breyner, que me acompanha desde a juventude, e Paul Celan, já na maturidade a que fui chegando:
Coral
Ia e vinha.
E a cada coisa perguntava
que nome tinha.
( Sophia )
Entrada de Violoncelos
...
tudo é menos do que
é,
tudo é mais.
( Celan )
A leitura de dois livros de David Rodrigues - ambos de Haiku ordenados ao sabor das horas, dos meses, das estações do ano, do tempo enfim, pois é do tempo que as formas surgem e a ele regressam, no seu eterno ciclo - trouxe-me à memória o poema de Borges sobre uma versão do Yi King, a Bíblia do oriente que Richard Wilhelm e Carl Gustav Jung deram a conhecer ao ocidente:
Para una versión del I King
El porvenir es tan irrevocable
Como el rígido ayer. No hay una cosa
Que no sea una letra silenciosa
De la eterna escritura indescifrable
Cujo libro es el tiempo. Quien se aleja
De su casa ya ha vuelto. Nuestra vida
Es la senda futura y recorrida.
El rigor ha tejido la madeja.
No te arredres. La ergástula es oscura,
La firme trama es de incesante hierro,
Pero en algún recodo de tu encierro
Puede haber una luz, una hendidura.
El camino es fatal como la flecha.
Pero en las grietas está Dios, que acecha.
A lição, continuada no conjunto de ensaios dedicados ao Yi King, nesta edição de que me sirvo (Erfahrungen mit dem I Ging, ed. Diedrichs Gelbe Reihe) é a de que da mais recôndita prega do tempo, do destino, surge a luz: luz que se condensa numa ideia, num sentimento, numa imagem poderosa, ora suave ora fulminante. Assim é o caminho, com as suas variações. Deus nem sempre espreitará do escuro de uma fenda, ao contrário do que escreve Borges, mas a condição humana sempre se revela.
A marca do Tao Te King também está presente no filosofar tranquilo que encontramos nos Haiku de David Rodrigues, embora eu tenha pressentido primeiro a ânsia a que o Yi King dá ( ou não dá) resposta.
Passemos aos seus livros, de edição cuidada, bom papel, letra agradável de ler - o objecto livro é importante- apela aos sentidos, da visão, do tacto, influenciando a relação que teremos com ele, antes e depois de o ter lido.
Publicado em 2007, ESTAÇÕES SENTIDAS, 111 HAIKU;
Publicado em 2008, RESPIRAR, 101 KAIKU
Os títulos já indicam a fidelidade ao género literário, que se mantém nos poemas, na delicada concentração dos ritmos e das imagens.
As Estações Sentidas abrem com o Outono, a estação por excelência de toda a melancolia, fecham com o Verão que parece, numa apetecida sensualidade, permitir que o poeta se abra às emoções da paixão, no capítulo final, Sentidas, onde se faz do corpo a imagem condensada de um cosmos estelar:
103
O corpo
haiku feito de universo
e sentimento
Adiante noutro poema, e tal como em Pessoa, ou em Caeiro (sua variante de desejada inocência), é na ignorância que o mundo se revela, a iluminação se dá. A ignorância, que se perde com a noção da consciência de que se é (e de que ser é uma realidade implacável), é glosada neste haiku 109:
O lago não sabe
até que chegue o vento
quantas ondas tem.
Meditando, lendo e relendo, como os haiku nos pedem, somos levados a concluir que todo o destino, ( o tempo) é impenetrável e que talvez seja melhor que assim permaneça, para que não se destrua a ilusão de alguma felicidade. Essa é a ilusão com o autor fecha o livro, no haiku 111:
Hoje ainda não há
toda a felicidade.
Só amanhã.
Fecha-se a obra, abrindo-se a uma esperança que o futuro dirá se não foi vã.
Em 2007, a revista japonesa Ginyu escolheu como um dos sessenta melhores haiku desse ano este poema, belíssimo pelo que tem de nosso (além do caminhar...):
Pedras das calçadas
como estilhaços de sonhos
deixados para trás.
David Rodrigues tem uma paleta variada, que inclui todos os elementos da natureza que lhe prenderam, a dado momento, o olhar: como na alquimia, encontramos a terra, a água (lago, mar) o fogo ( que o sol ou a luz figuram ) o ar ( o céu, o vento ); e encontramos ainda, na abundância da terra, as árvores, os arbustos, a flôr, o fruto, oferendas da mãe antiga, do corpo universal. Mais interessante ainda, o bestiário simbólico, de que ambos os livros dão testemunho e por onde passa quase toda a escala animal, do paciente caracol à pequena joaninha, da inocente borboleta ao canário ou ao melro, às gaivotas ou ao falcão, sem esquecer o elefante, não menos significativo, na sua grandeza, do que o minúsculo pirilampo, cuja luz é afinal um marco do caminho:
Ver os pirilampos
como sabendo o caminho
a seguir na noite.
(n.77,Estações Sentidas)
Se estivessemos a fazer uma Renga ( outro género, em que vários poetas dialogam por via dos poemas) diria, tentando acrescentar sentido:
Relâmpagos de noite:
múltiplos são os caminhos.
Mas, continuando com David: os seus haiku são pontos de emanação de um sentido que já contêm, imanente, como no ponto inicial o universo já se continha no todo que veio a ser. A fracção que é o poema, ou melhor, a fractura, situa-se precisamente entre a potência e o acto, movimento que a leitura repetida, mais até do que a escrita, permitem adivinhar. Há um momento de iluminação, que não tem de ser como a de Angelus Silesius, mística e comovente de ingénua entrega; a fulguração quase ou mesmo só panteísta, da contemplação da natureza e da centralidade do olhar do homem nela, faz igualmente parte da iluminação que pela obra nos é dada.
Coloco estes poemas de David entre dois poemas dos meus poetas favoritos: Sophia de Mello Breyner, que me acompanha desde a juventude, e Paul Celan, já na maturidade a que fui chegando:
Coral
Ia e vinha.
E a cada coisa perguntava
que nome tinha.
( Sophia )
Entrada de Violoncelos
...
tudo é menos do que
é,
tudo é mais.
( Celan )
domingo, 18 de janeiro de 2009
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Apud Yvette Centeno
Yvette Centeno no seu livro "Entre Silêncios" escreveu estes versos:
“(...) em silêncio/três peixes de cristal/devoram o peixe-rei/outrora poderoso”).
É uma imagem muito forte e (óbviamente) inexorável de morte. Esta imagem inspirou-me outra que vi há muitos anos na Praia de S. Bernardino (perto de Peniche):
um caranguejo
passeia pelo olho
do golfinho,
“(...) em silêncio/três peixes de cristal/devoram o peixe-rei/outrora poderoso”).
É uma imagem muito forte e (óbviamente) inexorável de morte. Esta imagem inspirou-me outra que vi há muitos anos na Praia de S. Bernardino (perto de Peniche):
um caranguejo
passeia pelo olho
do golfinho,
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Yvette Centeno
Talvez nem toda a gente saiba que esta grande figura da literatura também escreveu haiku. Antes de mais e para quem não a conhece bem pode ir ao excelente:
http://literaturaearte.blogspot.com
Mas hoje queria deixar uma obra prima de humor da autoria de Yvette Centeno:
un papillon aveugle
très amoureux
d’un lampion éteint.
http://literaturaearte.blogspot.com
Mas hoje queria deixar uma obra prima de humor da autoria de Yvette Centeno:
un papillon aveugle
très amoureux
d’un lampion éteint.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Representar a vida
Ela há quem diga: "É preciso ver a vida como ela é!...", "Eu cá não vivo de ilusões!..."
Respeito as opiniões, mas...
O que é a vida sem um sonho, sem uma ilusão, sem uma representação que possamos interpor entre nós e o fátuo, o inexorável, o irrelevante?
Poucas pessoas conseguem ver a "vida como ela é" e sobreviver a isso. As outras escrevem ou crêem na poesia.
para a borboleta
hoje é o começo
amanhã é o fim.
Respeito as opiniões, mas...
O que é a vida sem um sonho, sem uma ilusão, sem uma representação que possamos interpor entre nós e o fátuo, o inexorável, o irrelevante?
Poucas pessoas conseguem ver a "vida como ela é" e sobreviver a isso. As outras escrevem ou crêem na poesia.
para a borboleta
hoje é o começo
amanhã é o fim.
domingo, 11 de janeiro de 2009
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
CONVITE
No dia 13 de Fevereiro (sexta-feira) pelas 18h30 vai ser apresentado na Livraria Index (R. D. Manuel II - Porto), o meu livro "Respirar: 101 haiku" (Corposeditora). Mais que livre, a entrada é incentivada, esperada, agradecida, apreciada, encorajada, abençoada, alimentada (há um beberete...), estimada, louvada, enfim... acho que "apanharam a ideia...".
Um abraço e até 13 (sexta)!
Um abraço e até 13 (sexta)!
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
domingo, 4 de janeiro de 2009
O melro de Casimiro Vaz
sábado, 3 de janeiro de 2009
Uma prenda e um voto para 2009
Prendas, prendas, não tenho. Mas gostava de compartilhar convosco uma gravura do famoso gravador japonês Hirosighe que faz parte da minha pequena colecção de gravuras japonesas. (Clique na imagem para a tornar maior...)
E um voto: a ver se melhoramos mesmo a Paz: neste Natal enquanto se escrevia Paz a torto e a direito morriam na faixa de Gaza sob a aviação do "povo escolhido", 435 pessoas. É este pois o voto: que haja paz a sério, aquela que se alicerça na Justiça.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
sábado, 20 de dezembro de 2008
Junichiro Tanizaki
Há romances haiku? Eu acho que sim. "Diário de um velho louco" (Ed. Relógio de Água) é um livro de 160 páginas onde descortino uma estética haiku. Falar do importante através do vulgar qoutidiano, situar na natureza o que é o nosso mais íntimo sentimento. Trata-se de uma história de amor que aparece disfarçada de história clínica. Portanto esta história do haiku ter só dezassete sílabas... é mesmo uma fábula...
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Natal 6
O Natal é a comemoração da chegada, da epifania. Mas da chegada de quê? Da chegada de quem? De quem era esperado ou inesperado? Por quem se anseia ou que só se suporta? Chegada de quê, de quem e para quê?
Festa das Luzes, da Vinda, da Renovação, da Esperança no Futuro. É isso? (E pergunto de novo) É ISSO?
Festa das Luzes, da Vinda, da Renovação, da Esperança no Futuro. É isso? (E pergunto de novo) É ISSO?
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
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