cinco laminas
segaram a erva
que so crescia.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
sábado, 7 de fevereiro de 2009
"Em Gaza": 21 haiku
“Em Gaza”: 21 haiku
David Rodrigues
1.
casas
só com corredores
em Gaza.
2.
borboletas de aço
atravessam as paredes
em Gaza.
3.
todo o chão
pende para o mar
em Gaza.
4.
pedaços de ferro
encrustados nas árvores
em Gaza.
5.
mãos
esmagam pedras
em Gaza.
6.
só as bombas
parecem inteligentes
em Gaza.
7.
os lábios
têm pressa
em Gaza.
8.
olha para o chão
um casal de namorados
em Gaza.
9.
na palmeira
há uma tâmara empoeirada
em Gaza.
10.
olhos de azeitona
olham os malmequeres
em Gaza.
11.
um grito
antes da ferida
em Gaza.
12.
escrito na parede
Deus e um ponto de interrogação
em Gaza.
13.
a Lua Cheia
parece um olho
em Gaza.
14.
que Deus
escolheu o povo
em Gaza?
15.
um sapato novo
largado no chão
em Gaza.
16.
não se vê o céu
quando se olha o céu
em Gaza.
17.
as crianças já sabem
que é melhor não ver
em Gaza.
18.
nos galhos nus
dormem pardais
em Gaza.
19.
o grito
antes da ferida
em Gaza.
20.
o silêncio
é sempre antes de algo
em Gaza.
21
esta mulher
já não sabe por quem chora
em Gaza.
David Rodrigues
1.
casas
só com corredores
em Gaza.
2.
borboletas de aço
atravessam as paredes
em Gaza.
3.
todo o chão
pende para o mar
em Gaza.
4.
pedaços de ferro
encrustados nas árvores
em Gaza.
5.
mãos
esmagam pedras
em Gaza.
6.
só as bombas
parecem inteligentes
em Gaza.
7.
os lábios
têm pressa
em Gaza.
8.
olha para o chão
um casal de namorados
em Gaza.
9.
na palmeira
há uma tâmara empoeirada
em Gaza.
10.
olhos de azeitona
olham os malmequeres
em Gaza.
11.
um grito
antes da ferida
em Gaza.
12.
escrito na parede
Deus e um ponto de interrogação
em Gaza.
13.
a Lua Cheia
parece um olho
em Gaza.
14.
que Deus
escolheu o povo
em Gaza?
15.
um sapato novo
largado no chão
em Gaza.
16.
não se vê o céu
quando se olha o céu
em Gaza.
17.
as crianças já sabem
que é melhor não ver
em Gaza.
18.
nos galhos nus
dormem pardais
em Gaza.
19.
o grito
antes da ferida
em Gaza.
20.
o silêncio
é sempre antes de algo
em Gaza.
21
esta mulher
já não sabe por quem chora
em Gaza.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Palestina /Palestine
sobre Gaza
voam borboletas de aço
de dia e de noite.
over Gaza
iron butterflies flutter
day and night.
em Gaza
as crianças já sabem
que é melhor não ver.
in Gaza
children already know:
is better not to see.
a desgraça
trespassa as paredes
em Gaza.
misery
passes through the walls
in Gaza.
nada
é irremediável
em Gaza.
nothing is
irremediable
in Gaza.
voam borboletas de aço
de dia e de noite.
over Gaza
iron butterflies flutter
day and night.
em Gaza
as crianças já sabem
que é melhor não ver.
in Gaza
children already know:
is better not to see.
a desgraça
trespassa as paredes
em Gaza.
misery
passes through the walls
in Gaza.
nada
é irremediável
em Gaza.
nothing is
irremediable
in Gaza.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Heron's Nest
A prestigiada revista "Heron's Nest" que publica, nos Estados Unidos, poesia Haiku, acaba ds atribuir prémios de ilustração.
Fica aqui o incentivo para visitar o site:
http://www.theheronsnest.com/haiku/1101t1547/2008_illustration_contest.html
Fica aqui o incentivo para visitar o site:
http://www.theheronsnest.com/haiku/1101t1547/2008_illustration_contest.html
sábado, 31 de janeiro de 2009
Um convite!
Dixie Gang convida Paula Oliveira
6 de Fevereiro, 21h30
Institut Franco-Portugais
Av. Luis Bívar, 91, 1050-143 Lisboa
Bilhetes 10 Euros
(à venda no local, 1h antes do espectáculo)
6 de Fevereiro, 21h30
Institut Franco-Portugais
Av. Luis Bívar, 91, 1050-143 Lisboa
Bilhetes 10 Euros
(à venda no local, 1h antes do espectáculo)
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Obama
Do ronco das lágrimas,
da noite inteminável da injustiça,
da humilhação pregada à pele,
sais, Obama, com de um sonho
sonhado numa noite tranquila.
Não afagues as mãos
que empunharam o chicote:
mas empresta-nos os teus olhos
para que neles navegue o perdão e a paz.
da noite inteminável da injustiça,
da humilhação pregada à pele,
sais, Obama, com de um sonho
sonhado numa noite tranquila.
Não afagues as mãos
que empunharam o chicote:
mas empresta-nos os teus olhos
para que neles navegue o perdão e a paz.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Yvette Centeno II
Meditações II
Continuando com os haiku de David Rodrigues: é interessante verificar como o seu trabalho poético se faz do particular para o universal, exigindo do leitor uma capacidade de meditação própria, que o faça ampliar os múltiplos sentidos, como um alquimista (neste caso da metáfora viva) no trabalho da Pedra, que tem de passar pela fase da amplificatio para que se torne de verdade completa e actuante.
O poema, sobretudo nestes casos, possui uma carga simbólica tanto mais forte quanto mais arquetípica se revelar; no poema se faz a ponte, no poema se unem os extremos por vezes conflituosos como nos ensinam o Yi King, ou o Tao Te King, nascendo desse jogo de oposições subtis uma nova espiritualidade, um novo horizonte de perfeição (nunca alcançado). Assim as esferas naturais, do homem no seu mundo e do universo na sua essência e nas suas manifestações, se abrem à nossa sensibilidade e ao nosso entendimento.
Dizia eu do particular ao universal: é esse o segredo do poema sobretudo quando, como nos haiku, se vive basicamente de uma ideia, de um sentimento, de uma imagem-força, a tal metáfora viva de que fala Ricoeur. No caso dos poemas de David Rodrigues, isso torna-se particularmente evidente: da romãzeira contempla a romã, ou o seu bago; da oliveira descobre as azeitonas, olhos escuros contemplando aves, etc. Curiosa é a metáfora do barco / abutre (n.69,in Estações Sentidas):
Na madrugada
o barco escuro emboscado
como um abutre.
A metáfora da vida humana, ou do corpo humano, que é frequentemente o barco,veja-se a Narrenschiff, de Sebastian Brant, ou o Bateau Ivre de Rimbaud, conduz, na sua união à imagem do abutre ameaçador, não à vida, mas à morte, à sua ameaça latente.
A meditação oferecida é de cariz filosófico, como a que se vê na doutrina taoista, milenar, e que ainda hoje faz sentido, como busca constante e humilde do único bem precioso que se pode tentar adquirir: a sabedoria, consistindo no conhecimento de si mesmo, limite e limiar.
Na gravura de cima, a barca dos imortais afrontando o mar revolto da vida, podemos ver a garça, no seu vôo branco de sublimação anunciada.
Mas no caso de David, as garras do abutre evocam, indirectamente, outros perigos, outros receios, como o canto e as garras das míticas sereias de que Ulisses se libertou.
Há muitos tipos de ameaça à fragilidade da vida: a calmaria do poema de Goethe não é menos assustadora. Se no mar do haiku de David quase se ouve o barulho ameaçador da onda, ou do vôo cruel do abutre, no mar de Goethe é o silêncio que traz o pressentimento de uma não menos temida morte próxima:
Calmaria
Reina profunda paz na água,
Imóvel o mar repousa,
E o barqueiro vê, com ânsia,
A calma superfície à sua volta.
Nenhum ar de nenhum lado.
Terrível quietude mortal!
Na imensidão da distância
Nem uma onde se move.
Goethe, o velho sábio, conhecia bem o pensamento oriental e a filosofia hermética: disso dão testemunho as suas obras de grande vulto, como o Fausto , e outras, menos conhecidas, mas igualmente importantes, como é o caso do ciclo do Divã Ocidental-Oriental:
Se estou só
Não posso estar melhor.
O meu vinho
Bebo-o sozinho,
Ninguém me proíbe de o fazer,
E tenho assim os meus próprios pensamentos.
Deste vinho, da solidão criadora, bebe David Rodrigues, mostrando as afinidades, que Goethe chamaria de electivas (como na sua novela)entre os tempos, as vozes, as harmonias do canto melodioso das esferas.
Termino com uma evocação de John Blofeld, autor marcante, na década de sessenta, que viajou pela China pre-comunista, visitando mosteiros budistas e taoistas, e que de um sacerdote taoista recebeu a seguinte explicação:
"A nossa doutrina não é uma religião, mas um caminho para o Caminho (Tao)...os nossos yogas e meditações começam por gerar um estado de tranquilidade, de modo a que, no silêncio dos nossos corações, possamos apreender o Tao dentro,à volta, acima e abaixo de nós.Procuramos alimentar a nossa vitalidade e prolongar a nossa vida para ganharmos tempo e podermos, com a sublimação necessária, atingir os nossos mais altos propósitos...Assim se chega à preparação da Pílula Dourada,que alguns, mal informados, julgam que se obtém por processos alquímicos, quando na verdade só se obtém no interior do próprio corpo..."
Pensamento idêntico é expresso por um filósofo hermético ocidental, Robert Fludd, no século XVI:
" Transmutai-vos de seres mortais em pedras filosofais vivas...cada homem piedoso e justo é um alquimista espiritual".
O mesmo se pode dizer, sem ofensa, dos poetas cujo imaginário busca, na contenção do poema um caminho outro, que não o do falar disperso, avulso, sem sentido.
Mais leituras:
J.C.Cooper, Chinese Alchemy, The Taoist Quest for Immortality, 1984
Continuando com os haiku de David Rodrigues: é interessante verificar como o seu trabalho poético se faz do particular para o universal, exigindo do leitor uma capacidade de meditação própria, que o faça ampliar os múltiplos sentidos, como um alquimista (neste caso da metáfora viva) no trabalho da Pedra, que tem de passar pela fase da amplificatio para que se torne de verdade completa e actuante.
O poema, sobretudo nestes casos, possui uma carga simbólica tanto mais forte quanto mais arquetípica se revelar; no poema se faz a ponte, no poema se unem os extremos por vezes conflituosos como nos ensinam o Yi King, ou o Tao Te King, nascendo desse jogo de oposições subtis uma nova espiritualidade, um novo horizonte de perfeição (nunca alcançado). Assim as esferas naturais, do homem no seu mundo e do universo na sua essência e nas suas manifestações, se abrem à nossa sensibilidade e ao nosso entendimento.
Dizia eu do particular ao universal: é esse o segredo do poema sobretudo quando, como nos haiku, se vive basicamente de uma ideia, de um sentimento, de uma imagem-força, a tal metáfora viva de que fala Ricoeur. No caso dos poemas de David Rodrigues, isso torna-se particularmente evidente: da romãzeira contempla a romã, ou o seu bago; da oliveira descobre as azeitonas, olhos escuros contemplando aves, etc. Curiosa é a metáfora do barco / abutre (n.69,in Estações Sentidas):
Na madrugada
o barco escuro emboscado
como um abutre.
A metáfora da vida humana, ou do corpo humano, que é frequentemente o barco,veja-se a Narrenschiff, de Sebastian Brant, ou o Bateau Ivre de Rimbaud, conduz, na sua união à imagem do abutre ameaçador, não à vida, mas à morte, à sua ameaça latente.
A meditação oferecida é de cariz filosófico, como a que se vê na doutrina taoista, milenar, e que ainda hoje faz sentido, como busca constante e humilde do único bem precioso que se pode tentar adquirir: a sabedoria, consistindo no conhecimento de si mesmo, limite e limiar.
Na gravura de cima, a barca dos imortais afrontando o mar revolto da vida, podemos ver a garça, no seu vôo branco de sublimação anunciada.
Mas no caso de David, as garras do abutre evocam, indirectamente, outros perigos, outros receios, como o canto e as garras das míticas sereias de que Ulisses se libertou.
Há muitos tipos de ameaça à fragilidade da vida: a calmaria do poema de Goethe não é menos assustadora. Se no mar do haiku de David quase se ouve o barulho ameaçador da onda, ou do vôo cruel do abutre, no mar de Goethe é o silêncio que traz o pressentimento de uma não menos temida morte próxima:
Calmaria
Reina profunda paz na água,
Imóvel o mar repousa,
E o barqueiro vê, com ânsia,
A calma superfície à sua volta.
Nenhum ar de nenhum lado.
Terrível quietude mortal!
Na imensidão da distância
Nem uma onde se move.
Goethe, o velho sábio, conhecia bem o pensamento oriental e a filosofia hermética: disso dão testemunho as suas obras de grande vulto, como o Fausto , e outras, menos conhecidas, mas igualmente importantes, como é o caso do ciclo do Divã Ocidental-Oriental:
Se estou só
Não posso estar melhor.
O meu vinho
Bebo-o sozinho,
Ninguém me proíbe de o fazer,
E tenho assim os meus próprios pensamentos.
Deste vinho, da solidão criadora, bebe David Rodrigues, mostrando as afinidades, que Goethe chamaria de electivas (como na sua novela)entre os tempos, as vozes, as harmonias do canto melodioso das esferas.
Termino com uma evocação de John Blofeld, autor marcante, na década de sessenta, que viajou pela China pre-comunista, visitando mosteiros budistas e taoistas, e que de um sacerdote taoista recebeu a seguinte explicação:
"A nossa doutrina não é uma religião, mas um caminho para o Caminho (Tao)...os nossos yogas e meditações começam por gerar um estado de tranquilidade, de modo a que, no silêncio dos nossos corações, possamos apreender o Tao dentro,à volta, acima e abaixo de nós.Procuramos alimentar a nossa vitalidade e prolongar a nossa vida para ganharmos tempo e podermos, com a sublimação necessária, atingir os nossos mais altos propósitos...Assim se chega à preparação da Pílula Dourada,que alguns, mal informados, julgam que se obtém por processos alquímicos, quando na verdade só se obtém no interior do próprio corpo..."
Pensamento idêntico é expresso por um filósofo hermético ocidental, Robert Fludd, no século XVI:
" Transmutai-vos de seres mortais em pedras filosofais vivas...cada homem piedoso e justo é um alquimista espiritual".
O mesmo se pode dizer, sem ofensa, dos poetas cujo imaginário busca, na contenção do poema um caminho outro, que não o do falar disperso, avulso, sem sentido.
Mais leituras:
J.C.Cooper, Chinese Alchemy, The Taoist Quest for Immortality, 1984
Yvette Centeno I
Meditações I
A leitura de dois livros de David Rodrigues - ambos de Haiku ordenados ao sabor das horas, dos meses, das estações do ano, do tempo enfim, pois é do tempo que as formas surgem e a ele regressam, no seu eterno ciclo - trouxe-me à memória o poema de Borges sobre uma versão do Yi King, a Bíblia do oriente que Richard Wilhelm e Carl Gustav Jung deram a conhecer ao ocidente:
Para una versión del I King
El porvenir es tan irrevocable
Como el rígido ayer. No hay una cosa
Que no sea una letra silenciosa
De la eterna escritura indescifrable
Cujo libro es el tiempo. Quien se aleja
De su casa ya ha vuelto. Nuestra vida
Es la senda futura y recorrida.
El rigor ha tejido la madeja.
No te arredres. La ergástula es oscura,
La firme trama es de incesante hierro,
Pero en algún recodo de tu encierro
Puede haber una luz, una hendidura.
El camino es fatal como la flecha.
Pero en las grietas está Dios, que acecha.
A lição, continuada no conjunto de ensaios dedicados ao Yi King, nesta edição de que me sirvo (Erfahrungen mit dem I Ging, ed. Diedrichs Gelbe Reihe) é a de que da mais recôndita prega do tempo, do destino, surge a luz: luz que se condensa numa ideia, num sentimento, numa imagem poderosa, ora suave ora fulminante. Assim é o caminho, com as suas variações. Deus nem sempre espreitará do escuro de uma fenda, ao contrário do que escreve Borges, mas a condição humana sempre se revela.
A marca do Tao Te King também está presente no filosofar tranquilo que encontramos nos Haiku de David Rodrigues, embora eu tenha pressentido primeiro a ânsia a que o Yi King dá ( ou não dá) resposta.
Passemos aos seus livros, de edição cuidada, bom papel, letra agradável de ler - o objecto livro é importante- apela aos sentidos, da visão, do tacto, influenciando a relação que teremos com ele, antes e depois de o ter lido.
Publicado em 2007, ESTAÇÕES SENTIDAS, 111 HAIKU;
Publicado em 2008, RESPIRAR, 101 KAIKU
Os títulos já indicam a fidelidade ao género literário, que se mantém nos poemas, na delicada concentração dos ritmos e das imagens.
As Estações Sentidas abrem com o Outono, a estação por excelência de toda a melancolia, fecham com o Verão que parece, numa apetecida sensualidade, permitir que o poeta se abra às emoções da paixão, no capítulo final, Sentidas, onde se faz do corpo a imagem condensada de um cosmos estelar:
103
O corpo
haiku feito de universo
e sentimento
Adiante noutro poema, e tal como em Pessoa, ou em Caeiro (sua variante de desejada inocência), é na ignorância que o mundo se revela, a iluminação se dá. A ignorância, que se perde com a noção da consciência de que se é (e de que ser é uma realidade implacável), é glosada neste haiku 109:
O lago não sabe
até que chegue o vento
quantas ondas tem.
Meditando, lendo e relendo, como os haiku nos pedem, somos levados a concluir que todo o destino, ( o tempo) é impenetrável e que talvez seja melhor que assim permaneça, para que não se destrua a ilusão de alguma felicidade. Essa é a ilusão com o autor fecha o livro, no haiku 111:
Hoje ainda não há
toda a felicidade.
Só amanhã.
Fecha-se a obra, abrindo-se a uma esperança que o futuro dirá se não foi vã.
Em 2007, a revista japonesa Ginyu escolheu como um dos sessenta melhores haiku desse ano este poema, belíssimo pelo que tem de nosso (além do caminhar...):
Pedras das calçadas
como estilhaços de sonhos
deixados para trás.
David Rodrigues tem uma paleta variada, que inclui todos os elementos da natureza que lhe prenderam, a dado momento, o olhar: como na alquimia, encontramos a terra, a água (lago, mar) o fogo ( que o sol ou a luz figuram ) o ar ( o céu, o vento ); e encontramos ainda, na abundância da terra, as árvores, os arbustos, a flôr, o fruto, oferendas da mãe antiga, do corpo universal. Mais interessante ainda, o bestiário simbólico, de que ambos os livros dão testemunho e por onde passa quase toda a escala animal, do paciente caracol à pequena joaninha, da inocente borboleta ao canário ou ao melro, às gaivotas ou ao falcão, sem esquecer o elefante, não menos significativo, na sua grandeza, do que o minúsculo pirilampo, cuja luz é afinal um marco do caminho:
Ver os pirilampos
como sabendo o caminho
a seguir na noite.
(n.77,Estações Sentidas)
Se estivessemos a fazer uma Renga ( outro género, em que vários poetas dialogam por via dos poemas) diria, tentando acrescentar sentido:
Relâmpagos de noite:
múltiplos são os caminhos.
Mas, continuando com David: os seus haiku são pontos de emanação de um sentido que já contêm, imanente, como no ponto inicial o universo já se continha no todo que veio a ser. A fracção que é o poema, ou melhor, a fractura, situa-se precisamente entre a potência e o acto, movimento que a leitura repetida, mais até do que a escrita, permitem adivinhar. Há um momento de iluminação, que não tem de ser como a de Angelus Silesius, mística e comovente de ingénua entrega; a fulguração quase ou mesmo só panteísta, da contemplação da natureza e da centralidade do olhar do homem nela, faz igualmente parte da iluminação que pela obra nos é dada.
Coloco estes poemas de David entre dois poemas dos meus poetas favoritos: Sophia de Mello Breyner, que me acompanha desde a juventude, e Paul Celan, já na maturidade a que fui chegando:
Coral
Ia e vinha.
E a cada coisa perguntava
que nome tinha.
( Sophia )
Entrada de Violoncelos
...
tudo é menos do que
é,
tudo é mais.
( Celan )
A leitura de dois livros de David Rodrigues - ambos de Haiku ordenados ao sabor das horas, dos meses, das estações do ano, do tempo enfim, pois é do tempo que as formas surgem e a ele regressam, no seu eterno ciclo - trouxe-me à memória o poema de Borges sobre uma versão do Yi King, a Bíblia do oriente que Richard Wilhelm e Carl Gustav Jung deram a conhecer ao ocidente:
Para una versión del I King
El porvenir es tan irrevocable
Como el rígido ayer. No hay una cosa
Que no sea una letra silenciosa
De la eterna escritura indescifrable
Cujo libro es el tiempo. Quien se aleja
De su casa ya ha vuelto. Nuestra vida
Es la senda futura y recorrida.
El rigor ha tejido la madeja.
No te arredres. La ergástula es oscura,
La firme trama es de incesante hierro,
Pero en algún recodo de tu encierro
Puede haber una luz, una hendidura.
El camino es fatal como la flecha.
Pero en las grietas está Dios, que acecha.
A lição, continuada no conjunto de ensaios dedicados ao Yi King, nesta edição de que me sirvo (Erfahrungen mit dem I Ging, ed. Diedrichs Gelbe Reihe) é a de que da mais recôndita prega do tempo, do destino, surge a luz: luz que se condensa numa ideia, num sentimento, numa imagem poderosa, ora suave ora fulminante. Assim é o caminho, com as suas variações. Deus nem sempre espreitará do escuro de uma fenda, ao contrário do que escreve Borges, mas a condição humana sempre se revela.
A marca do Tao Te King também está presente no filosofar tranquilo que encontramos nos Haiku de David Rodrigues, embora eu tenha pressentido primeiro a ânsia a que o Yi King dá ( ou não dá) resposta.
Passemos aos seus livros, de edição cuidada, bom papel, letra agradável de ler - o objecto livro é importante- apela aos sentidos, da visão, do tacto, influenciando a relação que teremos com ele, antes e depois de o ter lido.
Publicado em 2007, ESTAÇÕES SENTIDAS, 111 HAIKU;
Publicado em 2008, RESPIRAR, 101 KAIKU
Os títulos já indicam a fidelidade ao género literário, que se mantém nos poemas, na delicada concentração dos ritmos e das imagens.
As Estações Sentidas abrem com o Outono, a estação por excelência de toda a melancolia, fecham com o Verão que parece, numa apetecida sensualidade, permitir que o poeta se abra às emoções da paixão, no capítulo final, Sentidas, onde se faz do corpo a imagem condensada de um cosmos estelar:
103
O corpo
haiku feito de universo
e sentimento
Adiante noutro poema, e tal como em Pessoa, ou em Caeiro (sua variante de desejada inocência), é na ignorância que o mundo se revela, a iluminação se dá. A ignorância, que se perde com a noção da consciência de que se é (e de que ser é uma realidade implacável), é glosada neste haiku 109:
O lago não sabe
até que chegue o vento
quantas ondas tem.
Meditando, lendo e relendo, como os haiku nos pedem, somos levados a concluir que todo o destino, ( o tempo) é impenetrável e que talvez seja melhor que assim permaneça, para que não se destrua a ilusão de alguma felicidade. Essa é a ilusão com o autor fecha o livro, no haiku 111:
Hoje ainda não há
toda a felicidade.
Só amanhã.
Fecha-se a obra, abrindo-se a uma esperança que o futuro dirá se não foi vã.
Em 2007, a revista japonesa Ginyu escolheu como um dos sessenta melhores haiku desse ano este poema, belíssimo pelo que tem de nosso (além do caminhar...):
Pedras das calçadas
como estilhaços de sonhos
deixados para trás.
David Rodrigues tem uma paleta variada, que inclui todos os elementos da natureza que lhe prenderam, a dado momento, o olhar: como na alquimia, encontramos a terra, a água (lago, mar) o fogo ( que o sol ou a luz figuram ) o ar ( o céu, o vento ); e encontramos ainda, na abundância da terra, as árvores, os arbustos, a flôr, o fruto, oferendas da mãe antiga, do corpo universal. Mais interessante ainda, o bestiário simbólico, de que ambos os livros dão testemunho e por onde passa quase toda a escala animal, do paciente caracol à pequena joaninha, da inocente borboleta ao canário ou ao melro, às gaivotas ou ao falcão, sem esquecer o elefante, não menos significativo, na sua grandeza, do que o minúsculo pirilampo, cuja luz é afinal um marco do caminho:
Ver os pirilampos
como sabendo o caminho
a seguir na noite.
(n.77,Estações Sentidas)
Se estivessemos a fazer uma Renga ( outro género, em que vários poetas dialogam por via dos poemas) diria, tentando acrescentar sentido:
Relâmpagos de noite:
múltiplos são os caminhos.
Mas, continuando com David: os seus haiku são pontos de emanação de um sentido que já contêm, imanente, como no ponto inicial o universo já se continha no todo que veio a ser. A fracção que é o poema, ou melhor, a fractura, situa-se precisamente entre a potência e o acto, movimento que a leitura repetida, mais até do que a escrita, permitem adivinhar. Há um momento de iluminação, que não tem de ser como a de Angelus Silesius, mística e comovente de ingénua entrega; a fulguração quase ou mesmo só panteísta, da contemplação da natureza e da centralidade do olhar do homem nela, faz igualmente parte da iluminação que pela obra nos é dada.
Coloco estes poemas de David entre dois poemas dos meus poetas favoritos: Sophia de Mello Breyner, que me acompanha desde a juventude, e Paul Celan, já na maturidade a que fui chegando:
Coral
Ia e vinha.
E a cada coisa perguntava
que nome tinha.
( Sophia )
Entrada de Violoncelos
...
tudo é menos do que
é,
tudo é mais.
( Celan )
domingo, 18 de janeiro de 2009
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Apud Yvette Centeno
Yvette Centeno no seu livro "Entre Silêncios" escreveu estes versos:
“(...) em silêncio/três peixes de cristal/devoram o peixe-rei/outrora poderoso”).
É uma imagem muito forte e (óbviamente) inexorável de morte. Esta imagem inspirou-me outra que vi há muitos anos na Praia de S. Bernardino (perto de Peniche):
um caranguejo
passeia pelo olho
do golfinho,
“(...) em silêncio/três peixes de cristal/devoram o peixe-rei/outrora poderoso”).
É uma imagem muito forte e (óbviamente) inexorável de morte. Esta imagem inspirou-me outra que vi há muitos anos na Praia de S. Bernardino (perto de Peniche):
um caranguejo
passeia pelo olho
do golfinho,
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Yvette Centeno
Talvez nem toda a gente saiba que esta grande figura da literatura também escreveu haiku. Antes de mais e para quem não a conhece bem pode ir ao excelente:
http://literaturaearte.blogspot.com
Mas hoje queria deixar uma obra prima de humor da autoria de Yvette Centeno:
un papillon aveugle
très amoureux
d’un lampion éteint.
http://literaturaearte.blogspot.com
Mas hoje queria deixar uma obra prima de humor da autoria de Yvette Centeno:
un papillon aveugle
très amoureux
d’un lampion éteint.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Representar a vida
Ela há quem diga: "É preciso ver a vida como ela é!...", "Eu cá não vivo de ilusões!..."
Respeito as opiniões, mas...
O que é a vida sem um sonho, sem uma ilusão, sem uma representação que possamos interpor entre nós e o fátuo, o inexorável, o irrelevante?
Poucas pessoas conseguem ver a "vida como ela é" e sobreviver a isso. As outras escrevem ou crêem na poesia.
para a borboleta
hoje é o começo
amanhã é o fim.
Respeito as opiniões, mas...
O que é a vida sem um sonho, sem uma ilusão, sem uma representação que possamos interpor entre nós e o fátuo, o inexorável, o irrelevante?
Poucas pessoas conseguem ver a "vida como ela é" e sobreviver a isso. As outras escrevem ou crêem na poesia.
para a borboleta
hoje é o começo
amanhã é o fim.
domingo, 11 de janeiro de 2009
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
CONVITE
No dia 13 de Fevereiro (sexta-feira) pelas 18h30 vai ser apresentado na Livraria Index (R. D. Manuel II - Porto), o meu livro "Respirar: 101 haiku" (Corposeditora). Mais que livre, a entrada é incentivada, esperada, agradecida, apreciada, encorajada, abençoada, alimentada (há um beberete...), estimada, louvada, enfim... acho que "apanharam a ideia...".
Um abraço e até 13 (sexta)!
Um abraço e até 13 (sexta)!
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
domingo, 4 de janeiro de 2009
O melro de Casimiro Vaz
sábado, 3 de janeiro de 2009
Uma prenda e um voto para 2009
Prendas, prendas, não tenho. Mas gostava de compartilhar convosco uma gravura do famoso gravador japonês Hirosighe que faz parte da minha pequena colecção de gravuras japonesas. (Clique na imagem para a tornar maior...)
E um voto: a ver se melhoramos mesmo a Paz: neste Natal enquanto se escrevia Paz a torto e a direito morriam na faixa de Gaza sob a aviação do "povo escolhido", 435 pessoas. É este pois o voto: que haja paz a sério, aquela que se alicerça na Justiça.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
sábado, 20 de dezembro de 2008
Junichiro Tanizaki
Há romances haiku? Eu acho que sim. "Diário de um velho louco" (Ed. Relógio de Água) é um livro de 160 páginas onde descortino uma estética haiku. Falar do importante através do vulgar qoutidiano, situar na natureza o que é o nosso mais íntimo sentimento. Trata-se de uma história de amor que aparece disfarçada de história clínica. Portanto esta história do haiku ter só dezassete sílabas... é mesmo uma fábula...
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Natal 6
O Natal é a comemoração da chegada, da epifania. Mas da chegada de quê? Da chegada de quem? De quem era esperado ou inesperado? Por quem se anseia ou que só se suporta? Chegada de quê, de quem e para quê?
Festa das Luzes, da Vinda, da Renovação, da Esperança no Futuro. É isso? (E pergunto de novo) É ISSO?
Festa das Luzes, da Vinda, da Renovação, da Esperança no Futuro. É isso? (E pergunto de novo) É ISSO?
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
domingo, 30 de novembro de 2008
Gravura de Hokusai
sábado, 29 de novembro de 2008
Haiku na Universidade
A forma enxuta, directa e objectiva do haiku tem sido muitas vezes usada para suscitar uma primeira abordagem à produção de linguagem poética. Lembro Maria Kodama, viúva de Jorge Luis Borges, que editou um livro de haiku de crianças e jovens. O "Colégio da Torre" em Lisboa tem também feito com os seus alunos trabalho com haiku.
Os meus alunos da Faculdade de Motricidade Humana, foram na semana passada desafiados a escrever haiku. Alguns mandaram-me o resultado. Aqui fica o registo com os votos que eles nunca se afastem durante a vida da poesia para que a poesia não se afaste deles.
E recebam um abraço amigo!
Sentada no barco,
Sem tempo de partida,
Rumo incerto...
Ana Catarina Alves
A ave
Dança
Com o vento
O vento
As folhas
A sua comunhão
Tânia Silva
O sol brilha
Na manhã fria
E aquece-me.
Vanessa Martinho
A árvore
Balança ao vento
Como uma folha
Andreia Rodrigues
Dançam, a um canto
As folhas do jardim,
Levadas pelo vento.
Andreia Luís.
Os meus alunos da Faculdade de Motricidade Humana, foram na semana passada desafiados a escrever haiku. Alguns mandaram-me o resultado. Aqui fica o registo com os votos que eles nunca se afastem durante a vida da poesia para que a poesia não se afaste deles.
E recebam um abraço amigo!
Sentada no barco,
Sem tempo de partida,
Rumo incerto...
Ana Catarina Alves
A ave
Dança
Com o vento
O vento
As folhas
A sua comunhão
Tânia Silva
O sol brilha
Na manhã fria
E aquece-me.
Vanessa Martinho
A árvore
Balança ao vento
Como uma folha
Andreia Rodrigues
Dançam, a um canto
As folhas do jardim,
Levadas pelo vento.
Andreia Luís.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Já saiu.
E pronto! Já está cá fora o pintaínho a "Respirar" o ar fora do ovo. Chegaram-me ontem os primeiros exemplares. A editora vai agora distribuir o livro pelos locais do costume: FNAC, Bertrand, etc.
As coordenadas são:
"Respirar: 101 haiku", Corposeditora, 2008
As coordenadas são:
"Respirar: 101 haiku", Corposeditora, 2008
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Folhas e vento
As explicações podem ajudar a entender um haiku. Mas ele não pode ficar, na minha opinião, completamente dependente de uma chave que não se alcança. Pode ficar algo oculto mas o poema não pode ser um quebra-cabeças.
Talvez deva então explicar uma sensação que se me revelou sobre as coisas que enchem a nossa vida (com que vamos enchendo a nossa vida) e que parecem... que parecem "isto":
fiquem aqui, folhas!
Junto à falésia!
O vento já vem.
Talvez deva então explicar uma sensação que se me revelou sobre as coisas que enchem a nossa vida (com que vamos enchendo a nossa vida) e que parecem... que parecem "isto":
fiquem aqui, folhas!
Junto à falésia!
O vento já vem.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Yukio Mishima
Nunca é demais ler os romances de Mishima. A poesia está lá presente com elegância e pertinência. Olhem este excerto de "O marinheiro que perdeu as graças do mar":
"Por fim, sacudindo todo o porto e vibrando em todas as janelas da cidade; assaltando cozinhas onde se preparava o jantar e sórdidos quartos de hotel onde os lençõis nunca são mudados, e mesas de estudo à espera que as crianças cheguem a casa, e escolas e courts de ténis e cemitérios; mergulhando tudo num momento de dor, rasgando cruelmente inclusive os corações das pessoas não envolvidas, a sirene do Rakuyo gritou um último e imenso adeus. Com um rasto de fumo branco o navio fez-se ao largo. Ryuji desaparecia de vista"
Fantástica (triste e inexorável) discrição de uma partida.
"Por fim, sacudindo todo o porto e vibrando em todas as janelas da cidade; assaltando cozinhas onde se preparava o jantar e sórdidos quartos de hotel onde os lençõis nunca são mudados, e mesas de estudo à espera que as crianças cheguem a casa, e escolas e courts de ténis e cemitérios; mergulhando tudo num momento de dor, rasgando cruelmente inclusive os corações das pessoas não envolvidas, a sirene do Rakuyo gritou um último e imenso adeus. Com um rasto de fumo branco o navio fez-se ao largo. Ryuji desaparecia de vista"
Fantástica (triste e inexorável) discrição de uma partida.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Hello Kitty!!!!
Não vão acreditar, mas chegou-me à maõs um livro da "Hello Kitty" (espero que conheçam...) intitulado "Estações do Ano: fotos e haicus". O livro é editado pela editora Madras de S. Paulo e é a tradução de um livro americano chamado "Through the Seasons".
Bom, a originalidade é que as fotografias da ursinha de peluche são ilustradas por haicus (sic...). E sabem? Alguns nem são maus de todo. Leiam este:
pousa a borboleta -
e fica para
o piquenique
domingo, 23 de novembro de 2008
International Haiku Association
Publico aqui o haiku premiado no concurso de 2008 da
The Haiku International Association (Japão):
chichi no hi to dare mo kizukazu owari keri
Autor:
Meguro-ku, Fumio Takabayashi
Father's Day-
it ends unnoticed
by anyone
Na minha tradução:
Dia do Pai
acaba sem ser anunciado
por ninguém.
The Haiku International Association (Japão):
chichi no hi to dare mo kizukazu owari keri
Autor:
Meguro-ku, Fumio Takabayashi
Father's Day-
it ends unnoticed
by anyone
Na minha tradução:
Dia do Pai
acaba sem ser anunciado
por ninguém.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Comemorações
Comemorar é por marcas no tempo e talvez desvendarmos novos significados no caminho da vida. Hoje tenho duas comemorações para assinalar e compartilhar: uma é que este blog já fez mais de um ano (14 de Novembro de 2007). Neste ano foram colocados quase 300 posts e um pouco mais de comentários. Estou feliz com o que o blog é: um pouco menos que Molesquine e um pouco mais que a gaveta. Queria agradecer às pessoas que se tornaram meus companheiros de caminho.
A segunda comemoração é o 118º (centésimo décimo oitavo) aniversário do nascimento do meu pai (1890). Um homem que não estando comigo há 28 anos me continua a visitar em sonhos, a inspirar a minha vida e do qual tenho sempre saudades.
E com estes dois aniversários, brindo simbólicamente com todos os amigos. Tchim, tchim! E obrigado!
A segunda comemoração é o 118º (centésimo décimo oitavo) aniversário do nascimento do meu pai (1890). Um homem que não estando comigo há 28 anos me continua a visitar em sonhos, a inspirar a minha vida e do qual tenho sempre saudades.
E com estes dois aniversários, brindo simbólicamente com todos os amigos. Tchim, tchim! E obrigado!
terça-feira, 18 de novembro de 2008
J.S. Bach
Bach escreveu música para cravo e violino. Divina, como toda a outra que fez. Há pouco tempo ouvi uma destas sonatas para cravo e violino tocada numa audição de alunos de música. Ainda que discreto, notei que o violinista acompanhava a sua interpretação com batimentos do pé na chão (acrescentando assim um instrumento de percursão à sonata). Aproveitei para escrever "isto":
Bach a dois:
um no cravo
outro na ferradura.
Bach a dois:
um no cravo
outro na ferradura.
Casimiro de Brito
Uma notícia (ou duas): o poeta Casimiro de Brito lança o seu livro "69 poemas de amor" na Bulhosa dia 12 de Dezembro pelas 18h00. No dia 15 na SPA há a cerimónia de entrega dos prémidos do PEN Clube. Entrada livre.
E o haiku de hoje:
Sala de espera:
brinca debaixo das cadeiras
criança com febre.
E o haiku de hoje:
Sala de espera:
brinca debaixo das cadeiras
criança com febre.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
David Mourão-Ferreira
A minha amiga Lurdes, alertou-me para o livro "entre a sombra e o corpo" publicado em 1980 pelo grande poeta David Mourão-Ferreira. Este livro contém 30 poemas de três linhas que o autor previne no prefácio não serem haicai por não terem a métrica 5-7-5 mas sim 6-6-3. Mais a adiante escreve o autor: "(o leitor..) dirá ainda se estes falsos haicai lhe parecem ou não verdadeira poesia. Para mim constituiram eles, sobretudo, o apaixonante ensejo de tentar dizer, do modo mais condensado - e com possibilidades de mais de uma leitura - muito do que há muito, ou desde sempre, me venho esforçando por exprimir".
E aqui, neste blog, se conjugam então as palavras de um grande poeta com amizade de uma grande amiga.
Deixo duas amostras dos tais "falsos" haicai ("verdadeira poesia": está a brincar connosco?):
Manhã cedo as cigarras
em silêncio preparam
suas árias
Ao meio-dia em ponto
entre a sombra e o corpo
o encontro
E aqui, neste blog, se conjugam então as palavras de um grande poeta com amizade de uma grande amiga.
Deixo duas amostras dos tais "falsos" haicai ("verdadeira poesia": está a brincar connosco?):
Manhã cedo as cigarras
em silêncio preparam
suas árias
Ao meio-dia em ponto
entre a sombra e o corpo
o encontro
terça-feira, 11 de novembro de 2008
O Tao do Haiku
Tao em chinês significa caminho. Tao é (como caminho) uma palavra muito bonita; não só pelo som doce de todas as suas vogais mas sobretudo pelo seu significado. Para mim não há melhor palavra para definir a vida.
Escrever haiku é uma forma de estar e fazer opções neste caminho. Mas há um Tao do haiku que não se esgota da linguagem. Tive a prova disso quando estive num encontro que a Lucília Saraiva inventou entre quem escreve haiku e quem faz esboços instantâneos da realidade à volta. (Que sensibilidades e traços fantásticos...)
O Tao do Haiku pode-se desenhar, escrever, compor, dançar, representar, (...) É preciso é caminhar...
Escrever haiku é uma forma de estar e fazer opções neste caminho. Mas há um Tao do haiku que não se esgota da linguagem. Tive a prova disso quando estive num encontro que a Lucília Saraiva inventou entre quem escreve haiku e quem faz esboços instantâneos da realidade à volta. (Que sensibilidades e traços fantásticos...)
O Tao do Haiku pode-se desenhar, escrever, compor, dançar, representar, (...) É preciso é caminhar...
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Respirar: 101 Haiku
É bom ter amigos literatos. Uma voz amiga lembrou-me que já havia em português um livro chamado "Respirar" sobre a poesia de António Ramos Rosa e outro chamado "Respiração" de José Ângelo Gaiarça. E os livros que têm no título "respirar + qualquer coisa" (tipo "arte de respirar"ou "respirar o instante") são ainda mais numerosos. Mas a verdade é que não consigo encontar melhor título para um livro que organizei em "inspirar, expirar e transpirar". Que fique então "Respirar: 101 haiku" e que a diferença se veja no miolo e não no título.
E o haiku de hoje:
como uma enxurrada
o vento atravessa
os plátanos
E o haiku de hoje:
como uma enxurrada
o vento atravessa
os plátanos
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Ban'ya Natshuishi and the tile
The Portuguese poet Casimiro de Brito went to Tokyo to a Poetry Festival organised by the Japanese poet Ban'ya Natsuishi. I asked Casimiro de Brito to give to Ban'ya a small Portuguese souvenir from the times that Issa was writting poetry. Ban'ya published on his blog the folowing text - That I can't traselate - about the Portuguese tile, Thank you Ban'ya!
http://banyahaiku.at.webry.info/200811/article_8.html
東京ポエトリー・フェスティバル2008出演の海外詩人から、いろいろ贈り物をいただいたが、最もユニークなのは、ポルトガルのタイル。カジミーロ・ド・ブリトー (Casimiro de Brito) が、友人のダヴィード・ロドリグス (David Rodrigues)から預かってきた。
ダヴィード・ロドリグスは、リスボンの大学教授、世界俳句協会会員。このタイルは、250年前のもので、小林一茶が生まれたときに作られたというメッセージが添えられていた。タイルには、ヨーロッパでよく見られる、様式化した百合の花が描かれている。調べてみると、小林一茶が生まれたのは、1763年。いまから245年前。 一茶の国へと空飛ぶタイルをブログに据える 百合の花咲くタイルは一茶の同級生 夏石番矢
http://banyahaiku.at.webry.info/200811/article_8.html
東京ポエトリー・フェスティバル2008出演の海外詩人から、いろいろ贈り物をいただいたが、最もユニークなのは、ポルトガルのタイル。カジミーロ・ド・ブリトー (Casimiro de Brito) が、友人のダヴィード・ロドリグス (David Rodrigues)から預かってきた。
ダヴィード・ロドリグスは、リスボンの大学教授、世界俳句協会会員。このタイルは、250年前のもので、小林一茶が生まれたときに作られたというメッセージが添えられていた。タイルには、ヨーロッパでよく見られる、様式化した百合の花が描かれている。調べてみると、小林一茶が生まれたのは、1763年。いまから245年前。 一茶の国へと空飛ぶタイルをブログに据える 百合の花咲くタイルは一茶の同級生 夏石番矢
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
ânsia
gota a gota
o cacto poupou água -
depois veio a cheia.
drop by drop
the cactus saved water -
then came the flood.
o cacto poupou água -
depois veio a cheia.
drop by drop
the cactus saved water -
then came the flood.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Boas Notícias / Good news
No fim de Novembro (data prevista) sairá o meu novo livro de poesia haiku: RESPIRAR: 101 Haiku. O livro está dividido em 3 partes: Inspirar, Expirar e Transpirar. Vai ser editado por uma nova e dinâmica editora de Vila Nova de Gaia chamada CORPOSEDITORA. O prefácio (excelente) é da autoria do poeta e professor brasileiro Paulo Franchetti. E mais não digo... agora é esperar que apareça o pintaínho...
(Grande ideia para darem de prenda de Natal...)
In the end of November, my new book of haiku poetry will be published. The title is RESPIRAR (BREATH) : 101 haiku. It's organized into 3 parts: Inspiration, Expiration and Transpiration. It's published by a new and dynamic publisher CORPOSEDITORA from Vila Nova de Gaia. The excellent preface is authored by Prof. Paulo Franchetti (Brazil). And now let's wait for the newborn chick.
(What a great idea for Christmas presents...)
(Grande ideia para darem de prenda de Natal...)
In the end of November, my new book of haiku poetry will be published. The title is RESPIRAR (BREATH) : 101 haiku. It's organized into 3 parts: Inspiration, Expiration and Transpiration. It's published by a new and dynamic publisher CORPOSEDITORA from Vila Nova de Gaia. The excellent preface is authored by Prof. Paulo Franchetti (Brazil). And now let's wait for the newborn chick.
(What a great idea for Christmas presents...)
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Outono 1
Este sol de Outono
recorda mais o Verão
que o Inverno.
This Fall's sun
reminds me more the Summer
than the Winter.
recorda mais o Verão
que o Inverno.
This Fall's sun
reminds me more the Summer
than the Winter.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Um não haiku A "non" Haiku
Queimei as pontes
que me trouxeram aqui
nevoeiro à frente.
I burned the bridges
that brought me here
fog ahead.
que me trouxeram aqui
nevoeiro à frente.
I burned the bridges
that brought me here
fog ahead.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Dia 8 de Outubro
Ontem, como previsto e aqui anunciado, aconteceu a oficina de Haiku na semana "Portugal ao encontro do Japão" na Sociedade de Geografia de Lisboa. Eu e a Leonilda Alfarrobinha durante quase duas horas falamos e ilustramos o que é, para nós, o haiku. Desafiamos os participantes para escrever um haiku de Outono e depois comentamos. Fica aqui para registo um belo haiku escrito por uma das participantes, Rosa Maria Shimizu
Folhas de fogo
nos socalcos do Douro
fim da vindima.
Outra das participantes, Genoveva Faísca, escreveu um outro haiku que, por eu não me lembrar exactamente da forma com que ela o escreveu, aqui o recrio, com um sorriso:
Redondo o mundo:
uma planície de cores
na mesa do geógrafo.
Folhas de fogo
nos socalcos do Douro
fim da vindima.
Outra das participantes, Genoveva Faísca, escreveu um outro haiku que, por eu não me lembrar exactamente da forma com que ela o escreveu, aqui o recrio, com um sorriso:
Redondo o mundo:
uma planície de cores
na mesa do geógrafo.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Sociedade de Geografia
Ontem na Sociedade de Geografia de Lisboa houve uma sessão de homenagem ao embaixador Martins Janeira grande estudioso e divulgador da obra de Wenceslau de Moraes. A sessão foi interessantíssima assim como a exposição que está patente esta semana da SPL que tem para além numerosos documentos do embaixador Martins Janeira e do consul Wenceslau de Moraes, um conjunto lindíssimo de gravuras japonesas (Utamaro, Hirosigue, Hokusai, etc.).
domingo, 5 de outubro de 2008
Natureza
Montanha e céu.
Vesti-me de verde e azul
mas não ficou bem.
Mountain and sky.
I dressed of green and blue
but didn't match.
Vesti-me de verde e azul
mas não ficou bem.
Mountain and sky.
I dressed of green and blue
but didn't match.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Noite de chuva / Rainy night
Chuva mansa
bafo quente da cama
no meu pescoço.
Quiet rain
and the hot buff of the bed
on my neck.
bafo quente da cama
no meu pescoço.
Quiet rain
and the hot buff of the bed
on my neck.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Dizer o suficiente...
A poesia haiku procura a frugalidade das palavras. Um exagero e um erro seria considerar que qualquer forma menos frugal seria redundante ou inútil... Cada coisa no seu lugar...
Vem isto a propósito de um poema que escrevi e do qual saiu um haiku. Neste caso, parece que o essencial ficou plasmado no haiku. Mas, nada como ler:
Na última noite
em que o sonho era
ainda possível,
quiz atrasar a chegada do sol.
Mas recebi a inexorável manhã
como um jorro de água
limpa e óbvia
que embebeu o chão
e o preparou para receber
o próximo sonho.
E agora leiam o haiku que foi postado ontem.
Vem isto a propósito de um poema que escrevi e do qual saiu um haiku. Neste caso, parece que o essencial ficou plasmado no haiku. Mas, nada como ler:
Na última noite
em que o sonho era
ainda possível,
quiz atrasar a chegada do sol.
Mas recebi a inexorável manhã
como um jorro de água
limpa e óbvia
que embebeu o chão
e o preparou para receber
o próximo sonho.
E agora leiam o haiku que foi postado ontem.
sábado, 27 de setembro de 2008
Ontem
o húmus
para o sonho de hoje
é o sonho de ontem.
the humus
for today's dream
is the dream of yesterday.
para o sonho de hoje
é o sonho de ontem.
the humus
for today's dream
is the dream of yesterday.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Ver o mundo através de... To look at the world through...
Aprendi que na medicina tradicional chinesa o doente quando encontra o médico não aponta para o seu corpo mas para um boneco para lhe dizer onde se situam as suas queixas.
Lembrei-me disto a propósito do haiku. No haiku reforça-se a sugestão em lugar da descrição. O poeta de haiku usa a Natureza tal como o doente usa o boneco: para falar de si, para desenhar uma distância que o impeça de se confrontar com as suas emoções num estado mais primitivo. Falo de mim através da Natureza e ao falar dela, a minha dor, o meu amor, a minha alegria ou tristeza já vão embrulhadas numa representação que (quem sabe...) melhor me ajudará a lidar com elas...
neste caminho
ladeado de árvores mortas
tanta gente apressada.
I learned that, in the Chinese traditional medicine, the patient never points to his/her body: shows the doctor the simptoms pointing to a puppet. I remembered this about haiku. When one writes an haiku we use Nature as a intermediate to speak about ourselves, like the Chinese patients use the puppet. Using a intermetiate, the joy, the pain, the sorrow and the hapiness, appear already elaborated. And through such an image(maybe...) will be easier to live those emotions and feelings.
on this road
flanked by dead trees
so many people in a hurry.
Lembrei-me disto a propósito do haiku. No haiku reforça-se a sugestão em lugar da descrição. O poeta de haiku usa a Natureza tal como o doente usa o boneco: para falar de si, para desenhar uma distância que o impeça de se confrontar com as suas emoções num estado mais primitivo. Falo de mim através da Natureza e ao falar dela, a minha dor, o meu amor, a minha alegria ou tristeza já vão embrulhadas numa representação que (quem sabe...) melhor me ajudará a lidar com elas...
neste caminho
ladeado de árvores mortas
tanta gente apressada.
I learned that, in the Chinese traditional medicine, the patient never points to his/her body: shows the doctor the simptoms pointing to a puppet. I remembered this about haiku. When one writes an haiku we use Nature as a intermediate to speak about ourselves, like the Chinese patients use the puppet. Using a intermetiate, the joy, the pain, the sorrow and the hapiness, appear already elaborated. And through such an image(maybe...) will be easier to live those emotions and feelings.
on this road
flanked by dead trees
so many people in a hurry.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Haiku e Educação
São inumeráveis os trabalhos de haiku que têm sido desenvolvidos com crianças no âmbito de várias matérias educativas. O ensino da Geografia, Ecologia, Poesia, Literatura, etc. têm-se servido da estética haiku para incentivar os jovens a comprometerem-se na aprendizagem de forma mais activa. Queria só lembrar uma excelente antologia de Haiku produzida pelos alunos do "Externato da Torre" (Lisboa) e o trabalho "O caminho do Haiku" feito por Maria Kodama, viúva do escritor Jorge Luis Borges.
Desta vez o exemplo vem do Brasil. Um professor - João Toloi - ganhou um prémio no Concurso Paulo Freire com os haiku escritos pelos seus alunos. Pode conferir a entrevista com este professor em:
http://www.youtube.com/watch?v=tHCJY0_twbc
Desta vez o exemplo vem do Brasil. Um professor - João Toloi - ganhou um prémio no Concurso Paulo Freire com os haiku escritos pelos seus alunos. Pode conferir a entrevista com este professor em:
http://www.youtube.com/watch?v=tHCJY0_twbc
domingo, 21 de setembro de 2008
Tejo
Correm para mim
as pequenas ondas do Tejo
como poodles felizes.
Run to me
the little waves of the Tagus
like happy poodles.
as pequenas ondas do Tejo
como poodles felizes.
Run to me
the little waves of the Tagus
like happy poodles.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Yao Jingming (Pequim, 1958)
Do livro "Na Barca do Coração" de Casimiro de Brito. respiguei este poema de Yao Jingming, que me evoca algumas "dificuldades" democráticas na China
Na minha pátria
Na minha pátria
a porcelana tem mais de dez mil formas
mas qualquer delas é tão frágil
como a incurável ferida.
Na minha pátria
todas as sedas são pele de água
tecida pela morte do bicho da seda
no inumerável cair das folhas.
Na minha pátria
quase todos têm ao peito um bule de chá
mas o chá tão milenar
mesmo em gesto de alquimia
nunca torna o tempo num reino tranquilo.
Na minha pátria
Na minha pátria
a porcelana tem mais de dez mil formas
mas qualquer delas é tão frágil
como a incurável ferida.
Na minha pátria
todas as sedas são pele de água
tecida pela morte do bicho da seda
no inumerável cair das folhas.
Na minha pátria
quase todos têm ao peito um bule de chá
mas o chá tão milenar
mesmo em gesto de alquimia
nunca torna o tempo num reino tranquilo.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Mais uma contribuição da Melissa (3 anos)
Já tinha publicado textos dela e este acaba de jorrar espontâneamente enquanto brincava sozinha com os seus bonecos de príncipes e princesas...
Abriu a porta do castelo
e toda a Primavera
estava lá.
Boa, Melissa!
Abriu a porta do castelo
e toda a Primavera
estava lá.
Boa, Melissa!
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Espaço Publicitário
Caros amigos:
Como já tinha dito aqui, dia 8 de Outubro na Sociedade de Geografia de Lisboa e no âmbito de um ciclo temático sobre "Portugal ao Encontro do Japão", vou realizar em colaboração com a Leonilda Alfarrobinha um worlkshop de haiku.
Era muito bom que aparecessem para estreitar laços.
Aqui segue o texto introdutório do workshop:
Oficina de Haiku
Dia 8 de Outubro, Sala convívio, 18:00hrs ~19:30hrs – 20 a 30 participantes
Orientada por David Rodrigues e Leonilda Alfarrobinha
A origem da criação poética no Japão perde-se na noite dos tempos, mas diz-se que tem as suas raízes no coração humano. Um dos géneros poéticos tradicionais, o haiku ou haikai, surgiu no séc. XVI, tem sido cultivado até aos nossos dias e salienta-se na literatura universal pela sua forma de expressão breve e concisa. O poeta deve expressar-se em apenas três versos evitando repetições e palavras supérfluas. A Natureza desempenha um papel importante nesta forma de poesia. A simplicidade e a serenidade são valores estéticos essenciais.
Nesta oficina pretende-se dar a conhecer um pouco da história e das características deste género poético, apresentar obras e poemas e motivar os participantes para a escrita de textos originais.
David Rodrigues é professor universitário, investigador e poeta de haiku. O seu livro Estações Sentidas – 111 Haiku, é uma das poucas obras do género publicadas em Portugal.
Leonilda Alfarrobinha, professora de Português e estudante de língua e cultura japonesa, é também poeta de haiku e publicou recentemente o livro, O Respirar das Flores, ilustrado por uma pintora japonesa.
Como já tinha dito aqui, dia 8 de Outubro na Sociedade de Geografia de Lisboa e no âmbito de um ciclo temático sobre "Portugal ao Encontro do Japão", vou realizar em colaboração com a Leonilda Alfarrobinha um worlkshop de haiku.
Era muito bom que aparecessem para estreitar laços.
Aqui segue o texto introdutório do workshop:
Oficina de Haiku
Dia 8 de Outubro, Sala convívio, 18:00hrs ~19:30hrs – 20 a 30 participantes
Orientada por David Rodrigues e Leonilda Alfarrobinha
A origem da criação poética no Japão perde-se na noite dos tempos, mas diz-se que tem as suas raízes no coração humano. Um dos géneros poéticos tradicionais, o haiku ou haikai, surgiu no séc. XVI, tem sido cultivado até aos nossos dias e salienta-se na literatura universal pela sua forma de expressão breve e concisa. O poeta deve expressar-se em apenas três versos evitando repetições e palavras supérfluas. A Natureza desempenha um papel importante nesta forma de poesia. A simplicidade e a serenidade são valores estéticos essenciais.
Nesta oficina pretende-se dar a conhecer um pouco da história e das características deste género poético, apresentar obras e poemas e motivar os participantes para a escrita de textos originais.
David Rodrigues é professor universitário, investigador e poeta de haiku. O seu livro Estações Sentidas – 111 Haiku, é uma das poucas obras do género publicadas em Portugal.
Leonilda Alfarrobinha, professora de Português e estudante de língua e cultura japonesa, é também poeta de haiku e publicou recentemente o livro, O Respirar das Flores, ilustrado por uma pintora japonesa.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Cheguei
Estou de regresso. Quando se escreve num blog não sabemos para quem. Talvez seja muitas vezes mais um organizador interno do que uma comunicação... bom. mas o certo é que cheguei (whatever it means...).
Venho de sentidos a transbordar de realidades surpreendentes e belas. Elas vão lentamente vazar para o teclado.
Claro que visitei a Grande Muralha. Fui com o meu sobrinho que usa cadeira de rodas. E aqui fica:
cadeira de rodas
cruza a Grande Muralha
o vento também
Venho de sentidos a transbordar de realidades surpreendentes e belas. Elas vão lentamente vazar para o teclado.
Claro que visitei a Grande Muralha. Fui com o meu sobrinho que usa cadeira de rodas. E aqui fica:
cadeira de rodas
cruza a Grande Muralha
o vento também
sábado, 6 de setembro de 2008
From China, with love...
Hoje em Beijing tentei comprar poesia chinesa em versão bilingue. Não tive sorte. Mas a poesia está muito presente na forma como o Homem organizou o olhar para a Natureza. Fala-se em raízes chinesas do haiku. É impossível não as crer depois de passear, por exemplo, pelos jardins da Cidade Proibida ou do Palácio de Verão.
livre
o cedro cresce
na cidade proibida.
livre
o cedro cresce
na cidade proibida.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
China
Duas semanas de interrupção no blog por causa de uma viagem à China. A ver se o "Império do Meio" continua a inspirar poesia. Em mim.
domingo, 24 de agosto de 2008
sábado, 23 de agosto de 2008
Outono
Noite de vento
amanhã as ruas
vão ter lixo novo.
Wind through the night
tomorrow the streets
will have new trash.
amanhã as ruas
vão ter lixo novo.
Wind through the night
tomorrow the streets
will have new trash.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Primo Vieira
Pela mão do poeta Casimiro de Brito, tive acesso ao livro “Borboletas Brancas - Haicais” de Primo Vieira livro editado em Goiás em 1967. Deixo convosco 3 poemas deste poeta elegante e simples:
Ponto de Interrogação
Um colo de cisne
na página azul do lago
interroga o dia...
Insónia
Na noite que dorme,
que grilo é esse acordado
dentro da consciência?
O mosteiro
O mosteiro dorme,
rosa noturna de pedra.
que perfume... a paz.
Ponto de Interrogação
Um colo de cisne
na página azul do lago
interroga o dia...
Insónia
Na noite que dorme,
que grilo é esse acordado
dentro da consciência?
O mosteiro
O mosteiro dorme,
rosa noturna de pedra.
que perfume... a paz.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Eclipse
sombra na lua:
é difícil aceitar menos
que lua cheia.
a shadow on the moon:
It's difficult to acept less
than a full moon.
é difícil aceitar menos
que lua cheia.
a shadow on the moon:
It's difficult to acept less
than a full moon.
domingo, 17 de agosto de 2008
Haiku e Jogos Olímpicos
Mais alto. mais longe e mais forte. Os Jogos celebram o "mais". A retórica da participação é marginal...
Com o haiku não se procura o mais (nem mesmo o mais curto); procura-se o suficiente. Procura-se a expressão mais lídima do espírito humano, que tal como a Física, encontra a sua maior complexidade ao lado da maior simplicidade.
O que importa nos jogos é como cada pessoa e equipa resolvem os problemas que se lhes põem. E são normalmente as soluções simples que são bem sucedidas.
Dez anos
para correr dez segundos.
Foi sonho ou pesadelo?
Com o haiku não se procura o mais (nem mesmo o mais curto); procura-se o suficiente. Procura-se a expressão mais lídima do espírito humano, que tal como a Física, encontra a sua maior complexidade ao lado da maior simplicidade.
O que importa nos jogos é como cada pessoa e equipa resolvem os problemas que se lhes põem. E são normalmente as soluções simples que são bem sucedidas.
Dez anos
para correr dez segundos.
Foi sonho ou pesadelo?
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Brasil no Inverno
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
domingo, 10 de agosto de 2008
Italo Calvino e o Haiku
No princípio dos anos 90 do sec. passado o escritor italiano Italo Calvino publicou um livro de grande impacto. Chamava-se "Seis propostas para o próximo milénio". Nele, Calvino propunha seis características que, na literatura e na vida, haviam de cunhar as acções no século XXI. Eram elas:
leveza,
rapidez,
exatidão,
visibilidade,
multiplicidade e
consistência.
Já pensaram como é que estas propostas calçam como uma luva na poesia que nos junta, o haiku?
leveza,
rapidez,
exatidão,
visibilidade,
multiplicidade e
consistência.
Já pensaram como é que estas propostas calçam como uma luva na poesia que nos junta, o haiku?
Ainda os hairóticos
Como já disse aqui, a lista de discussão de haiku brasileira "haiku -l" tem estado a discutir e publicar haiku eróticos. Foi uma descoberta saber que todos os haidjin tinham na gaveta uns haiku "para maiores de 18 anos". A produção é enorme (e eu tenho contribuído) mas queria deixar aqui dois deles de um poeta de que só sei um nome: Pimentel. Vejam lá se eles não têm aquela brejeirice tão latina quando se aborda o erotismo...
Promíscuo xadrês.
O bispo come a rainha
nas barbas do rei !
Em teus olhos, o verde
em tua boca, o vermelho.
Paro ou continuo ?
Promíscuo xadrês.
O bispo come a rainha
nas barbas do rei !
Em teus olhos, o verde
em tua boca, o vermelho.
Paro ou continuo ?
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Ainda há para onde olhar?
Nos últimos dias andei a olhar para os olhares. E encontrei olhares incompreendidos de crianças, olhares tristes e angustiados de idosos, olhares artificiais, "plásticos" e impacientes dos adultos...
Nem os animais escapam: olhares de vidas sem um sentido que não seja carne para o prato ou de uma draconiana disciplina em troca da efémera sobrevivência.
E o olhar para a Natureza? Os bocados aprazíveis e nos fazem suspirar a alma estão tão confinados que parecem cenários.
Há (ainda) olhares e lugares para olhar? Claro que sim... mesmo os vazios e tristes têm uma mensagem mas... cada vez mais o sentido, a história, tem que ser criada por quem vê. Assim rompeu a arte no século XX com o belo e com a imitação.
Nem os animais escapam: olhares de vidas sem um sentido que não seja carne para o prato ou de uma draconiana disciplina em troca da efémera sobrevivência.
E o olhar para a Natureza? Os bocados aprazíveis e nos fazem suspirar a alma estão tão confinados que parecem cenários.
Há (ainda) olhares e lugares para olhar? Claro que sim... mesmo os vazios e tristes têm uma mensagem mas... cada vez mais o sentido, a história, tem que ser criada por quem vê. Assim rompeu a arte no século XX com o belo e com a imitação.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Açores III / Azores III
Do vento, na ilha,
só permanece o momento
em que ele parte.
From the wind, in the island,
only the moment of its departure
remains.
só permanece o momento
em que ele parte.
From the wind, in the island,
only the moment of its departure
remains.
Açores II
Alguém deixou este comentário em forma de haiku. Gosto da inevitabilidade com que o vento das ilhar pertence ao mar...
Vento sobre a terra
Sopra sempre do mar
nas ilhas
Vento sobre a terra
Sopra sempre do mar
nas ilhas
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Açores
Vento sobre o mar
empurra para sul as velas.
No cais, vou com elas.
Wind over the sea
pushes the sails to south.
On the shore, I go with them.
empurra para sul as velas.
No cais, vou com elas.
Wind over the sea
pushes the sails to south.
On the shore, I go with them.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
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