sábado, 31 de janeiro de 2009

Um convite!

Dixie Gang convida Paula Oliveira

6 de Fevereiro, 21h30
Institut Franco-Portugais

Av. Luis Bívar, 91, 1050-143 Lisboa
Bilhetes 10 Euros
(à venda no local, 1h antes do espectáculo)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

caminhei
a caminho do emprego
sem destino.
estranho
ver a copa da árvore
a arrastar no chão.
lembro-me de ti
ao ver
o corredor vazio.
Só o o ruido
de um carro, longe,
na névoa de Inverno

Muro

eu e a erva
frente ao grande
muro branco.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Insónia

encontrei no bolso
o que procurei toda a noite -
é de manhã!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Noite de inverno

noite de Inverno-
o estalar dos meus passos
nas pedras da rua.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Obama

Do ronco das lágrimas,
da noite inteminável da injustiça,
da humilhação pregada à pele,
sais, Obama, com de um sonho
sonhado numa noite tranquila.
Não afagues as mãos
que empunharam o chicote:
mas empresta-nos os teus olhos
para que neles navegue o perdão e a paz.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Yvette Centeno II

Meditações II

Continuando com os haiku de David Rodrigues: é interessante verificar como o seu trabalho poético se faz do particular para o universal, exigindo do leitor uma capacidade de meditação própria, que o faça ampliar os múltiplos sentidos, como um alquimista (neste caso da metáfora viva) no trabalho da Pedra, que tem de passar pela fase da amplificatio para que se torne de verdade completa e actuante.
O poema, sobretudo nestes casos, possui uma carga simbólica tanto mais forte quanto mais arquetípica se revelar; no poema se faz a ponte, no poema se unem os extremos por vezes conflituosos como nos ensinam o Yi King, ou o Tao Te King, nascendo desse jogo de oposições subtis uma nova espiritualidade, um novo horizonte de perfeição (nunca alcançado). Assim as esferas naturais, do homem no seu mundo e do universo na sua essência e nas suas manifestações, se abrem à nossa sensibilidade e ao nosso entendimento.
Dizia eu do particular ao universal: é esse o segredo do poema sobretudo quando, como nos haiku, se vive basicamente de uma ideia, de um sentimento, de uma imagem-força, a tal metáfora viva de que fala Ricoeur. No caso dos poemas de David Rodrigues, isso torna-se particularmente evidente: da romãzeira contempla a romã, ou o seu bago; da oliveira descobre as azeitonas, olhos escuros contemplando aves, etc. Curiosa é a metáfora do barco / abutre (n.69,in Estações Sentidas):
Na madrugada
o barco escuro emboscado
como um abutre.
A metáfora da vida humana, ou do corpo humano, que é frequentemente o barco,veja-se a Narrenschiff, de Sebastian Brant, ou o Bateau Ivre de Rimbaud, conduz, na sua união à imagem do abutre ameaçador, não à vida, mas à morte, à sua ameaça latente.
A meditação oferecida é de cariz filosófico, como a que se vê na doutrina taoista, milenar, e que ainda hoje faz sentido, como busca constante e humilde do único bem precioso que se pode tentar adquirir: a sabedoria, consistindo no conhecimento de si mesmo, limite e limiar.
Na gravura de cima, a barca dos imortais afrontando o mar revolto da vida, podemos ver a garça, no seu vôo branco de sublimação anunciada.
Mas no caso de David, as garras do abutre evocam, indirectamente, outros perigos, outros receios, como o canto e as garras das míticas sereias de que Ulisses se libertou.
Há muitos tipos de ameaça à fragilidade da vida: a calmaria do poema de Goethe não é menos assustadora. Se no mar do haiku de David quase se ouve o barulho ameaçador da onda, ou do vôo cruel do abutre, no mar de Goethe é o silêncio que traz o pressentimento de uma não menos temida morte próxima:
Calmaria
Reina profunda paz na água,
Imóvel o mar repousa,
E o barqueiro vê, com ânsia,
A calma superfície à sua volta.
Nenhum ar de nenhum lado.
Terrível quietude mortal!
Na imensidão da distância
Nem uma onde se move.
Goethe, o velho sábio, conhecia bem o pensamento oriental e a filosofia hermética: disso dão testemunho as suas obras de grande vulto, como o Fausto , e outras, menos conhecidas, mas igualmente importantes, como é o caso do ciclo do Divã Ocidental-Oriental:
Se estou só
Não posso estar melhor.
O meu vinho
Bebo-o sozinho,
Ninguém me proíbe de o fazer,
E tenho assim os meus próprios pensamentos.
Deste vinho, da solidão criadora, bebe David Rodrigues, mostrando as afinidades, que Goethe chamaria de electivas (como na sua novela)entre os tempos, as vozes, as harmonias do canto melodioso das esferas.
Termino com uma evocação de John Blofeld, autor marcante, na década de sessenta, que viajou pela China pre-comunista, visitando mosteiros budistas e taoistas, e que de um sacerdote taoista recebeu a seguinte explicação:
"A nossa doutrina não é uma religião, mas um caminho para o Caminho (Tao)...os nossos yogas e meditações começam por gerar um estado de tranquilidade, de modo a que, no silêncio dos nossos corações, possamos apreender o Tao dentro,à volta, acima e abaixo de nós.Procuramos alimentar a nossa vitalidade e prolongar a nossa vida para ganharmos tempo e podermos, com a sublimação necessária, atingir os nossos mais altos propósitos...Assim se chega à preparação da Pílula Dourada,que alguns, mal informados, julgam que se obtém por processos alquímicos, quando na verdade só se obtém no interior do próprio corpo..."
Pensamento idêntico é expresso por um filósofo hermético ocidental, Robert Fludd, no século XVI:
" Transmutai-vos de seres mortais em pedras filosofais vivas...cada homem piedoso e justo é um alquimista espiritual".
O mesmo se pode dizer, sem ofensa, dos poetas cujo imaginário busca, na contenção do poema um caminho outro, que não o do falar disperso, avulso, sem sentido.
Mais leituras:
J.C.Cooper, Chinese Alchemy, The Taoist Quest for Immortality, 1984

Yvette Centeno I

Meditações I

A leitura de dois livros de David Rodrigues - ambos de Haiku ordenados ao sabor das horas, dos meses, das estações do ano, do tempo enfim, pois é do tempo que as formas surgem e a ele regressam, no seu eterno ciclo - trouxe-me à memória o poema de Borges sobre uma versão do Yi King, a Bíblia do oriente que Richard Wilhelm e Carl Gustav Jung deram a conhecer ao ocidente:
Para una versión del I King
El porvenir es tan irrevocable
Como el rígido ayer. No hay una cosa
Que no sea una letra silenciosa
De la eterna escritura indescifrable
Cujo libro es el tiempo. Quien se aleja
De su casa ya ha vuelto. Nuestra vida
Es la senda futura y recorrida.
El rigor ha tejido la madeja.
No te arredres. La ergástula es oscura,
La firme trama es de incesante hierro,
Pero en algún recodo de tu encierro
Puede haber una luz, una hendidura.
El camino es fatal como la flecha.
Pero en las grietas está Dios, que acecha.
A lição, continuada no conjunto de ensaios dedicados ao Yi King, nesta edição de que me sirvo (Erfahrungen mit dem I Ging, ed. Diedrichs Gelbe Reihe) é a de que da mais recôndita prega do tempo, do destino, surge a luz: luz que se condensa numa ideia, num sentimento, numa imagem poderosa, ora suave ora fulminante. Assim é o caminho, com as suas variações. Deus nem sempre espreitará do escuro de uma fenda, ao contrário do que escreve Borges, mas a condição humana sempre se revela.
A marca do Tao Te King também está presente no filosofar tranquilo que encontramos nos Haiku de David Rodrigues, embora eu tenha pressentido primeiro a ânsia a que o Yi King dá ( ou não dá) resposta.
Passemos aos seus livros, de edição cuidada, bom papel, letra agradável de ler - o objecto livro é importante- apela aos sentidos, da visão, do tacto, influenciando a relação que teremos com ele, antes e depois de o ter lido.
Publicado em 2007, ESTAÇÕES SENTIDAS, 111 HAIKU;
Publicado em 2008, RESPIRAR, 101 KAIKU
Os títulos já indicam a fidelidade ao género literário, que se mantém nos poemas, na delicada concentração dos ritmos e das imagens.
As Estações Sentidas abrem com o Outono, a estação por excelência de toda a melancolia, fecham com o Verão que parece, numa apetecida sensualidade, permitir que o poeta se abra às emoções da paixão, no capítulo final, Sentidas, onde se faz do corpo a imagem condensada de um cosmos estelar:
103
O corpo
haiku feito de universo
e sentimento
Adiante noutro poema, e tal como em Pessoa, ou em Caeiro (sua variante de desejada inocência), é na ignorância que o mundo se revela, a iluminação se dá. A ignorância, que se perde com a noção da consciência de que se é (e de que ser é uma realidade implacável), é glosada neste haiku 109:
O lago não sabe
até que chegue o vento
quantas ondas tem.
Meditando, lendo e relendo, como os haiku nos pedem, somos levados a concluir que todo o destino, ( o tempo) é impenetrável e que talvez seja melhor que assim permaneça, para que não se destrua a ilusão de alguma felicidade. Essa é a ilusão com o autor fecha o livro, no haiku 111:
Hoje ainda não há
toda a felicidade.
Só amanhã.
Fecha-se a obra, abrindo-se a uma esperança que o futuro dirá se não foi vã.
Em 2007, a revista japonesa Ginyu escolheu como um dos sessenta melhores haiku desse ano este poema, belíssimo pelo que tem de nosso (além do caminhar...):
Pedras das calçadas
como estilhaços de sonhos
deixados para trás.
David Rodrigues tem uma paleta variada, que inclui todos os elementos da natureza que lhe prenderam, a dado momento, o olhar: como na alquimia, encontramos a terra, a água (lago, mar) o fogo ( que o sol ou a luz figuram ) o ar ( o céu, o vento ); e encontramos ainda, na abundância da terra, as árvores, os arbustos, a flôr, o fruto, oferendas da mãe antiga, do corpo universal. Mais interessante ainda, o bestiário simbólico, de que ambos os livros dão testemunho e por onde passa quase toda a escala animal, do paciente caracol à pequena joaninha, da inocente borboleta ao canário ou ao melro, às gaivotas ou ao falcão, sem esquecer o elefante, não menos significativo, na sua grandeza, do que o minúsculo pirilampo, cuja luz é afinal um marco do caminho:
Ver os pirilampos
como sabendo o caminho
a seguir na noite.
(n.77,Estações Sentidas)
Se estivessemos a fazer uma Renga ( outro género, em que vários poetas dialogam por via dos poemas) diria, tentando acrescentar sentido:
Relâmpagos de noite:
múltiplos são os caminhos.
Mas, continuando com David: os seus haiku são pontos de emanação de um sentido que já contêm, imanente, como no ponto inicial o universo já se continha no todo que veio a ser. A fracção que é o poema, ou melhor, a fractura, situa-se precisamente entre a potência e o acto, movimento que a leitura repetida, mais até do que a escrita, permitem adivinhar. Há um momento de iluminação, que não tem de ser como a de Angelus Silesius, mística e comovente de ingénua entrega; a fulguração quase ou mesmo só panteísta, da contemplação da natureza e da centralidade do olhar do homem nela, faz igualmente parte da iluminação que pela obra nos é dada.
Coloco estes poemas de David entre dois poemas dos meus poetas favoritos: Sophia de Mello Breyner, que me acompanha desde a juventude, e Paul Celan, já na maturidade a que fui chegando:
Coral
Ia e vinha.
E a cada coisa perguntava
que nome tinha.
( Sophia )
Entrada de Violoncelos
...
tudo é menos do que
é,
tudo é mais.
( Celan )

domingo, 18 de janeiro de 2009

Nevoeiro

silêncio branco
longe, o ronco dos barcos -
manhã de Inverno.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Apud Yvette Centeno

Yvette Centeno no seu livro "Entre Silêncios" escreveu estes versos:

“(...) em silêncio/três peixes de cristal/devoram o peixe-rei/outrora poderoso”).

É uma imagem muito forte e (óbviamente) inexorável de morte. Esta imagem inspirou-me outra que vi há muitos anos na Praia de S. Bernardino (perto de Peniche):



um caranguejo
passeia pelo olho
do golfinho,

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Ocre Outono

ocre de Outono
até na grade de ferro
da casa vazia.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Yvette Centeno

Talvez nem toda a gente saiba que esta grande figura da literatura também escreveu haiku. Antes de mais e para quem não a conhece bem pode ir ao excelente:

http://literaturaearte.blogspot.com

Mas hoje queria deixar uma obra prima de humor da autoria de Yvette Centeno:

un papillon aveugle
très amoureux
d’un lampion éteint.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Representar a vida

Ela há quem diga: "É preciso ver a vida como ela é!...", "Eu cá não vivo de ilusões!..."
Respeito as opiniões, mas...
O que é a vida sem um sonho, sem uma ilusão, sem uma representação que possamos interpor entre nós e o fátuo, o inexorável, o irrelevante?
Poucas pessoas conseguem ver a "vida como ela é" e sobreviver a isso. As outras escrevem ou crêem na poesia.

para a borboleta
hoje é o começo
amanhã é o fim.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Noite de Janeiro

sozinha no céu
envolta em gelo
a lua cheia.

Lua

nas curvas na estrada
brinca às escondidas com o carro
a lua cheia

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

CONVITE

No dia 13 de Fevereiro (sexta-feira) pelas 18h30 vai ser apresentado na Livraria Index (R. D. Manuel II - Porto), o meu livro "Respirar: 101 haiku" (Corposeditora). Mais que livre, a entrada é incentivada, esperada, agradecida, apreciada, encorajada, abençoada, alimentada (há um beberete...), estimada, louvada, enfim... acho que "apanharam a ideia...".
Um abraço e até 13 (sexta)!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Silêncio

rumor nas casas,
e mais alto, o silêncio -
noite de Natal.

domingo, 4 de janeiro de 2009

O melro de Casimiro Vaz


Uma boa imagem para começar o ano: a imagem dos votos, dos desejos. Que à semelhança deste melro no ninho, os nossos desejos (sobretudo se forem "bons") se realizem.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Uma prenda e um voto para 2009


Prendas, prendas, não tenho. Mas gostava de compartilhar convosco uma gravura do famoso gravador japonês Hirosighe que faz parte da minha pequena colecção de gravuras japonesas. (Clique na imagem para a tornar maior...)
E um voto: a ver se melhoramos mesmo a Paz: neste Natal enquanto se escrevia Paz a torto e a direito morriam na faixa de Gaza sob a aviação do "povo escolhido", 435 pessoas. É este pois o voto: que haja paz a sério, aquela que se alicerça na Justiça.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Madrid

eu e o mastim
dilatamos as narinas
ao cheiro das estevas.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Novo ano

agora já posso
arquivar o passado -
que alívio.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Viajar

zanguei-me contigo:
queria regressar hoje.
Que há mais para ver?!

sábado, 20 de dezembro de 2008

Junichiro Tanizaki

Há romances haiku? Eu acho que sim. "Diário de um velho louco" (Ed. Relógio de Água) é um livro de 160 páginas onde descortino uma estética haiku. Falar do importante através do vulgar qoutidiano, situar na natureza o que é o nosso mais íntimo sentimento. Trata-se de uma história de amor que aparece disfarçada de história clínica. Portanto esta história do haiku ter só dezassete sílabas... é mesmo uma fábula...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Natal 6

O Natal é a comemoração da chegada, da epifania. Mas da chegada de quê? Da chegada de quem? De quem era esperado ou inesperado? Por quem se anseia ou que só se suporta? Chegada de quê, de quem e para quê?
Festa das Luzes, da Vinda, da Renovação, da Esperança no Futuro. É isso? (E pergunto de novo) É ISSO?

Natal 5

noite de paz?
Abandonar o corpo
só depois do Natal.

Natal 4

olhos fechados...
canções de Natal...
acertei: supermercado!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Natal 3

silenciosa
árvore de Natal:
serra de Sintra.


na cara fria
as luzes da rua -
restolho de gente.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Natal 2

Há um reflexo irremediável
de dor fria e triste
em cada palavra
que fala do passado.
Jesus consola mais a dor
do que atiça a alegria.
Epifania?

Natal 1

cheiro a terra -
no presépio o Menino
mais perto de nós.

Natal

Natal
musgo frio
e humus.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Lareira

lareira no Inverno:
do fogo e da madeira
sobe fumo.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Chuva

há um incêndio
nesta chuva
que desaba.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Vénus

da noite
só ficou esta estrela
da manhã.

domingo, 30 de novembro de 2008

Gravura de Hokusai


Veio-me parar à mão esta gravura da série de vistas do monte Fuji do famoso artista Hokusai (1760-1849).
É uma boa inspiração para escrever haiku, que acham?

sábado, 29 de novembro de 2008

Haiku na Universidade

A forma enxuta, directa e objectiva do haiku tem sido muitas vezes usada para suscitar uma primeira abordagem à produção de linguagem poética. Lembro Maria Kodama, viúva de Jorge Luis Borges, que editou um livro de haiku de crianças e jovens. O "Colégio da Torre" em Lisboa tem também feito com os seus alunos trabalho com haiku.
Os meus alunos da Faculdade de Motricidade Humana, foram na semana passada desafiados a escrever haiku. Alguns mandaram-me o resultado. Aqui fica o registo com os votos que eles nunca se afastem durante a vida da poesia para que a poesia não se afaste deles.
E recebam um abraço amigo!


Sentada no barco,
Sem tempo de partida,
Rumo incerto...

Ana Catarina Alves



A ave
Dança
Com o vento


O vento
As folhas
A sua comunhão

Tânia Silva



O sol brilha
Na manhã fria
E aquece-me.

Vanessa Martinho


A árvore
Balança ao vento
Como uma folha

Andreia Rodrigues


Dançam, a um canto
As folhas do jardim,
Levadas pelo vento.


Andreia Luís.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Já saiu.

E pronto! Já está cá fora o pintaínho a "Respirar" o ar fora do ovo. Chegaram-me ontem os primeiros exemplares. A editora vai agora distribuir o livro pelos locais do costume: FNAC, Bertrand, etc.
As coordenadas são:

"Respirar: 101 haiku", Corposeditora, 2008

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Folhas e vento

As explicações podem ajudar a entender um haiku. Mas ele não pode ficar, na minha opinião, completamente dependente de uma chave que não se alcança. Pode ficar algo oculto mas o poema não pode ser um quebra-cabeças.
Talvez deva então explicar uma sensação que se me revelou sobre as coisas que enchem a nossa vida (com que vamos enchendo a nossa vida) e que parecem... que parecem "isto":


fiquem aqui, folhas!
Junto à falésia!
O vento já vem.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Yukio Mishima

Nunca é demais ler os romances de Mishima. A poesia está lá presente com elegância e pertinência. Olhem este excerto de "O marinheiro que perdeu as graças do mar":

"Por fim, sacudindo todo o porto e vibrando em todas as janelas da cidade; assaltando cozinhas onde se preparava o jantar e sórdidos quartos de hotel onde os lençõis nunca são mudados, e mesas de estudo à espera que as crianças cheguem a casa, e escolas e courts de ténis e cemitérios; mergulhando tudo num momento de dor, rasgando cruelmente inclusive os corações das pessoas não envolvidas, a sirene do Rakuyo gritou um último e imenso adeus. Com um rasto de fumo branco o navio fez-se ao largo. Ryuji desaparecia de vista"

Fantástica (triste e inexorável) discrição de uma partida.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Hello Kitty!!!!




Não vão acreditar, mas chegou-me à maõs um livro da "Hello Kitty" (espero que conheçam...) intitulado "Estações do Ano: fotos e haicus". O livro é editado pela editora Madras de S. Paulo e é a tradução de um livro americano chamado "Through the Seasons".


Bom, a originalidade é que as fotografias da ursinha de peluche são ilustradas por haicus (sic...). E sabem? Alguns nem são maus de todo. Leiam este:




pousa a borboleta -


e fica para


o piquenique






domingo, 23 de novembro de 2008

International Haiku Association

Publico aqui o haiku premiado no concurso de 2008 da
The Haiku International Association (Japão):


chichi no hi to dare mo kizukazu owari keri

Autor:
Meguro-ku, Fumio Takabayashi


Father's Day-
it ends unnoticed
by anyone


Na minha tradução:

Dia do Pai
acaba sem ser anunciado
por ninguém.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Comemorações

Comemorar é por marcas no tempo e talvez desvendarmos novos significados no caminho da vida. Hoje tenho duas comemorações para assinalar e compartilhar: uma é que este blog já fez mais de um ano (14 de Novembro de 2007). Neste ano foram colocados quase 300 posts e um pouco mais de comentários. Estou feliz com o que o blog é: um pouco menos que Molesquine e um pouco mais que a gaveta. Queria agradecer às pessoas que se tornaram meus companheiros de caminho.
A segunda comemoração é o 118º (centésimo décimo oitavo) aniversário do nascimento do meu pai (1890). Um homem que não estando comigo há 28 anos me continua a visitar em sonhos, a inspirar a minha vida e do qual tenho sempre saudades.
E com estes dois aniversários, brindo simbólicamente com todos os amigos. Tchim, tchim! E obrigado!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

J.S. Bach

Bach escreveu música para cravo e violino. Divina, como toda a outra que fez. Há pouco tempo ouvi uma destas sonatas para cravo e violino tocada numa audição de alunos de música. Ainda que discreto, notei que o violinista acompanhava a sua interpretação com batimentos do pé na chão (acrescentando assim um instrumento de percursão à sonata). Aproveitei para escrever "isto":

Bach a dois:
um no cravo
outro na ferradura.

Casimiro de Brito

Uma notícia (ou duas): o poeta Casimiro de Brito lança o seu livro "69 poemas de amor" na Bulhosa dia 12 de Dezembro pelas 18h00. No dia 15 na SPA há a cerimónia de entrega dos prémidos do PEN Clube. Entrada livre.
E o haiku de hoje:

Sala de espera:
brinca debaixo das cadeiras
criança com febre.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

David Mourão-Ferreira

A minha amiga Lurdes, alertou-me para o livro "entre a sombra e o corpo" publicado em 1980 pelo grande poeta David Mourão-Ferreira. Este livro contém 30 poemas de três linhas que o autor previne no prefácio não serem haicai por não terem a métrica 5-7-5 mas sim 6-6-3. Mais a adiante escreve o autor: "(o leitor..) dirá ainda se estes falsos haicai lhe parecem ou não verdadeira poesia. Para mim constituiram eles, sobretudo, o apaixonante ensejo de tentar dizer, do modo mais condensado - e com possibilidades de mais de uma leitura - muito do que há muito, ou desde sempre, me venho esforçando por exprimir".
E aqui, neste blog, se conjugam então as palavras de um grande poeta com amizade de uma grande amiga.
Deixo duas amostras dos tais "falsos" haicai ("verdadeira poesia": está a brincar connosco?):

Manhã cedo as cigarras
em silêncio preparam
suas árias

Ao meio-dia em ponto
entre a sombra e o corpo
o encontro

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O Tao do Haiku

Tao em chinês significa caminho. Tao é (como caminho) uma palavra muito bonita; não só pelo som doce de todas as suas vogais mas sobretudo pelo seu significado. Para mim não há melhor palavra para definir a vida.
Escrever haiku é uma forma de estar e fazer opções neste caminho. Mas há um Tao do haiku que não se esgota da linguagem. Tive a prova disso quando estive num encontro que a Lucília Saraiva inventou entre quem escreve haiku e quem faz esboços instantâneos da realidade à volta. (Que sensibilidades e traços fantásticos...)
O Tao do Haiku pode-se desenhar, escrever, compor, dançar, representar, (...) É preciso é caminhar...

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Respirar: 101 Haiku

É bom ter amigos literatos. Uma voz amiga lembrou-me que já havia em português um livro chamado "Respirar" sobre a poesia de António Ramos Rosa e outro chamado "Respiração" de José Ângelo Gaiarça. E os livros que têm no título "respirar + qualquer coisa" (tipo "arte de respirar"ou "respirar o instante") são ainda mais numerosos. Mas a verdade é que não consigo encontar melhor título para um livro que organizei em "inspirar, expirar e transpirar". Que fique então "Respirar: 101 haiku" e que a diferença se veja no miolo e não no título.

E o haiku de hoje:


como uma enxurrada
o vento atravessa
os plátanos

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Ban'ya Natshuishi and the tile

The Portuguese poet Casimiro de Brito went to Tokyo to a Poetry Festival organised by the Japanese poet Ban'ya Natsuishi. I asked Casimiro de Brito to give to Ban'ya a small Portuguese souvenir from the times that Issa was writting poetry. Ban'ya published on his blog the folowing text - That I can't traselate - about the Portuguese tile, Thank you Ban'ya!

http://banyahaiku.at.webry.info/200811/article_8.html



東京ポエトリー・フェスティバル2008出演の海外詩人から、いろいろ贈り物をいただいたが、最もユニークなのは、ポルトガルのタイル。カジミーロ・ド・ブリトー (Casimiro de Brito) が、友人のダヴィード・ロドリグス (David Rodrigues)から預かってきた。

ダヴィード・ロドリグスは、リスボンの大学教授、世界俳句協会会員。このタイルは、250年前のもので、小林一茶が生まれたときに作られたというメッセージが添えられていた。タイルには、ヨーロッパでよく見られる、様式化した百合の花が描かれている。調べてみると、小林一茶が生まれたのは、1763年。いまから245年前。    一茶の国へと空飛ぶタイルをブログに据える    百合の花咲くタイルは一茶の同級生  夏石番矢





segunda-feira, 3 de novembro de 2008

ânsia

gota a gota
o cacto poupou água -
depois veio a cheia.


drop by drop
the cactus saved water -
then came the flood.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Boas Notícias / Good news

No fim de Novembro (data prevista) sairá o meu novo livro de poesia haiku: RESPIRAR: 101 Haiku. O livro está dividido em 3 partes: Inspirar, Expirar e Transpirar. Vai ser editado por uma nova e dinâmica editora de Vila Nova de Gaia chamada CORPOSEDITORA. O prefácio (excelente) é da autoria do poeta e professor brasileiro Paulo Franchetti. E mais não digo... agora é esperar que apareça o pintaínho...
(Grande ideia para darem de prenda de Natal...)



In the end of November, my new book of haiku poetry will be published. The title is RESPIRAR (BREATH) : 101 haiku. It's organized into 3 parts: Inspiration, Expiration and Transpiration. It's published by a new and dynamic publisher CORPOSEDITORA from Vila Nova de Gaia. The excellent preface is authored by Prof. Paulo Franchetti (Brazil). And now let's wait for the newborn chick.
(What a great idea for Christmas presents...)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Outono 1

Este sol de Outono
recorda mais o Verão
que o Inverno.

This Fall's sun
reminds me more the Summer
than the Winter.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Um não haiku A "non" Haiku

Queimei as pontes
que me trouxeram aqui
nevoeiro à frente.

I burned the bridges
that brought me here
fog ahead.

Outono hoje

Manhã parada
pássaros em bicos de pés
luz de gaze.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Swallow

um pássaro ferido
suga a luz de Outono -
chegou o Inverno?

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Dia 8 de Outubro

Ontem, como previsto e aqui anunciado, aconteceu a oficina de Haiku na semana "Portugal ao encontro do Japão" na Sociedade de Geografia de Lisboa. Eu e a Leonilda Alfarrobinha durante quase duas horas falamos e ilustramos o que é, para nós, o haiku. Desafiamos os participantes para escrever um haiku de Outono e depois comentamos. Fica aqui para registo um belo haiku escrito por uma das participantes, Rosa Maria Shimizu

Folhas de fogo
nos socalcos do Douro
fim da vindima.


Outra das participantes, Genoveva Faísca, escreveu um outro haiku que, por eu não me lembrar exactamente da forma com que ela o escreveu, aqui o recrio, com um sorriso:



Redondo o mundo:
uma planície de cores
na mesa do geógrafo.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Surf

Incha o mar
será esta a onda?
Ainda não foi...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Sociedade de Geografia

Ontem na Sociedade de Geografia de Lisboa houve uma sessão de homenagem ao embaixador Martins Janeira grande estudioso e divulgador da obra de Wenceslau de Moraes. A sessão foi interessantíssima assim como a exposição que está patente esta semana da SPL que tem para além numerosos documentos do embaixador Martins Janeira e do consul Wenceslau de Moraes, um conjunto lindíssimo de gravuras japonesas (Utamaro, Hirosigue, Hokusai, etc.).

domingo, 5 de outubro de 2008

Natureza

Montanha e céu.
Vesti-me de verde e azul
mas não ficou bem.


Mountain and sky.
I dressed of green and blue
but didn't match.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Noite de chuva / Rainy night

Chuva mansa
bafo quente da cama
no meu pescoço.

Quiet rain
and the hot buff of the bed
on my neck.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Dizer o suficiente...

A poesia haiku procura a frugalidade das palavras. Um exagero e um erro seria considerar que qualquer forma menos frugal seria redundante ou inútil... Cada coisa no seu lugar...
Vem isto a propósito de um poema que escrevi e do qual saiu um haiku. Neste caso, parece que o essencial ficou plasmado no haiku. Mas, nada como ler:

Na última noite
em que o sonho era
ainda possível,
quiz atrasar a chegada do sol.
Mas recebi a inexorável manhã
como um jorro de água
limpa e óbvia
que embebeu o chão
e o preparou para receber
o próximo sonho.


E agora leiam o haiku que foi postado ontem.

sábado, 27 de setembro de 2008

Ontem

o húmus
para o sonho de hoje
é o sonho de ontem.


the humus
for today's dream
is the dream of yesterday.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Ver o mundo através de... To look at the world through...

Aprendi que na medicina tradicional chinesa o doente quando encontra o médico não aponta para o seu corpo mas para um boneco para lhe dizer onde se situam as suas queixas.
Lembrei-me disto a propósito do haiku. No haiku reforça-se a sugestão em lugar da descrição. O poeta de haiku usa a Natureza tal como o doente usa o boneco: para falar de si, para desenhar uma distância que o impeça de se confrontar com as suas emoções num estado mais primitivo. Falo de mim através da Natureza e ao falar dela, a minha dor, o meu amor, a minha alegria ou tristeza já vão embrulhadas numa representação que (quem sabe...) melhor me ajudará a lidar com elas...

neste caminho
ladeado de árvores mortas
tanta gente apressada.


I learned that, in the Chinese traditional medicine, the patient never points to his/her body: shows the doctor the simptoms pointing to a puppet. I remembered this about haiku. When one writes an haiku we use Nature as a intermediate to speak about ourselves, like the Chinese patients use the puppet. Using a intermetiate, the joy, the pain, the sorrow and the hapiness, appear already elaborated. And through such an image(maybe...) will be easier to live those emotions and feelings.

on this road
flanked by dead trees
so many people in a hurry.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Bambu

Crescem e vergam
lado a lado e sem partir
os bambus.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Haiku e Educação

São inumeráveis os trabalhos de haiku que têm sido desenvolvidos com crianças no âmbito de várias matérias educativas. O ensino da Geografia, Ecologia, Poesia, Literatura, etc. têm-se servido da estética haiku para incentivar os jovens a comprometerem-se na aprendizagem de forma mais activa. Queria só lembrar uma excelente antologia de Haiku produzida pelos alunos do "Externato da Torre" (Lisboa) e o trabalho "O caminho do Haiku" feito por Maria Kodama, viúva do escritor Jorge Luis Borges.
Desta vez o exemplo vem do Brasil. Um professor - João Toloi - ganhou um prémio no Concurso Paulo Freire com os haiku escritos pelos seus alunos. Pode conferir a entrevista com este professor em:

http://www.youtube.com/watch?v=tHCJY0_twbc

domingo, 21 de setembro de 2008

Tejo

Correm para mim
as pequenas ondas do Tejo
como poodles felizes.

Run to me
the little waves of the Tagus
like happy poodles.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Espera...

Esperando a queda
olhei todo o Verão para o figo
mas ele mirrou.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Sintra

Sintra no Verão -
há sim o negro entre o verde
mas azul entre o branco.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Yao Jingming (Pequim, 1958)

Do livro "Na Barca do Coração" de Casimiro de Brito. respiguei este poema de Yao Jingming, que me evoca algumas "dificuldades" democráticas na China


Na minha pátria


Na minha pátria
a porcelana tem mais de dez mil formas
mas qualquer delas é tão frágil
como a incurável ferida.

Na minha pátria
todas as sedas são pele de água
tecida pela morte do bicho da seda
no inumerável cair das folhas.

Na minha pátria
quase todos têm ao peito um bule de chá
mas o chá tão milenar
mesmo em gesto de alquimia
nunca torna o tempo num reino tranquilo.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Mais uma contribuição da Melissa (3 anos)

Já tinha publicado textos dela e este acaba de jorrar espontâneamente enquanto brincava sozinha com os seus bonecos de príncipes e princesas...



Abriu a porta do castelo
e toda a Primavera
estava lá.



Boa, Melissa!

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Espaço Publicitário

Caros amigos:

Como já tinha dito aqui, dia 8 de Outubro na Sociedade de Geografia de Lisboa e no âmbito de um ciclo temático sobre "Portugal ao Encontro do Japão", vou realizar em colaboração com a Leonilda Alfarrobinha um worlkshop de haiku.
Era muito bom que aparecessem para estreitar laços.
Aqui segue o texto introdutório do workshop:


Oficina de Haiku

Dia 8 de Outubro, Sala convívio, 18:00hrs ~19:30hrs – 20 a 30 participantes
Orientada por David Rodrigues e Leonilda Alfarrobinha

A origem da criação poética no Japão perde-se na noite dos tempos, mas diz-se que tem as suas raízes no coração humano. Um dos géneros poéticos tradicionais, o haiku ou haikai, surgiu no séc. XVI, tem sido cultivado até aos nossos dias e salienta-se na literatura universal pela sua forma de expressão breve e concisa. O poeta deve expressar-se em apenas três versos evitando repetições e palavras supérfluas. A Natureza desempenha um papel importante nesta forma de poesia. A simplicidade e a serenidade são valores estéticos essenciais.
Nesta oficina pretende-se dar a conhecer um pouco da história e das características deste género poético, apresentar obras e poemas e motivar os participantes para a escrita de textos originais.
David Rodrigues é professor universitário, investigador e poeta de haiku. O seu livro Estações Sentidas – 111 Haiku, é uma das poucas obras do género publicadas em Portugal.
Leonilda Alfarrobinha, professora de Português e estudante de língua e cultura japonesa, é também poeta de haiku e publicou recentemente o livro, O Respirar das Flores, ilustrado por uma pintora japonesa.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Cheguei

Estou de regresso. Quando se escreve num blog não sabemos para quem. Talvez seja muitas vezes mais um organizador interno do que uma comunicação... bom. mas o certo é que cheguei (whatever it means...).
Venho de sentidos a transbordar de realidades surpreendentes e belas. Elas vão lentamente vazar para o teclado.
Claro que visitei a Grande Muralha. Fui com o meu sobrinho que usa cadeira de rodas. E aqui fica:

cadeira de rodas
cruza a Grande Muralha
o vento também

sábado, 6 de setembro de 2008

From China, with love...

Hoje em Beijing tentei comprar poesia chinesa em versão bilingue. Não tive sorte. Mas a poesia está muito presente na forma como o Homem organizou o olhar para a Natureza. Fala-se em raízes chinesas do haiku. É impossível não as crer depois de passear, por exemplo, pelos jardins da Cidade Proibida ou do Palácio de Verão.

livre
o cedro cresce
na cidade proibida.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

China

Duas semanas de interrupção no blog por causa de uma viagem à China. A ver se o "Império do Meio" continua a inspirar poesia. Em mim.

domingo, 24 de agosto de 2008

Figueira

Figueira sem folhas
vai rebentar de frutos
e eu a olhar para ela.

sábado, 23 de agosto de 2008

Outono

Noite de vento
amanhã as ruas
vão ter lixo novo.


Wind through the night
tomorrow the streets
will have new trash.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Debussy

Claude Debussy:
o suor no dorso
do cavalo a passo.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Alva

Com a primeira luz
vejo a névoa passar pelos montes.
Que silêncio!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Primo Vieira

Pela mão do poeta Casimiro de Brito, tive acesso ao livro “Borboletas Brancas - Haicais” de Primo Vieira livro editado em Goiás em 1967. Deixo convosco 3 poemas deste poeta elegante e simples:

Ponto de Interrogação

Um colo de cisne
na página azul do lago
interroga o dia...


Insónia

Na noite que dorme,
que grilo é esse acordado
dentro da consciência?


O mosteiro

O mosteiro dorme,
rosa noturna de pedra.
que perfume... a paz.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Eclipse

sombra na lua:
é difícil aceitar menos
que lua cheia.


a shadow on the moon:
It's difficult to acept less
than a full moon.

domingo, 17 de agosto de 2008

Haiku e Jogos Olímpicos

Mais alto. mais longe e mais forte. Os Jogos celebram o "mais". A retórica da participação é marginal...
Com o haiku não se procura o mais (nem mesmo o mais curto); procura-se o suficiente. Procura-se a expressão mais lídima do espírito humano, que tal como a Física, encontra a sua maior complexidade ao lado da maior simplicidade.
O que importa nos jogos é como cada pessoa e equipa resolvem os problemas que se lhes põem. E são normalmente as soluções simples que são bem sucedidas.

Dez anos
para correr dez segundos.
Foi sonho ou pesadelo?

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Brasil no Inverno


Em Agosto é Inverno no Brasil. Curto, moderado mas brioso. Mesmo com o frio, a Natureza não se retrai e isso mostra esta foto.
Quem a mandou foi a Ivany Lima, de Jundiaí, uma poeta que escolheu escrever poesia com o olhar.

Obrigado!


segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Girassol

Borbulha vida
dentro da vida
do girassol.

domingo, 10 de agosto de 2008

Italo Calvino e o Haiku

No princípio dos anos 90 do sec. passado o escritor italiano Italo Calvino publicou um livro de grande impacto. Chamava-se "Seis propostas para o próximo milénio". Nele, Calvino propunha seis características que, na literatura e na vida, haviam de cunhar as acções no século XXI. Eram elas:

leveza,
rapidez,
exatidão,
visibilidade,
multiplicidade e
consistência.

Já pensaram como é que estas propostas calçam como uma luva na poesia que nos junta, o haiku?

Ainda os hairóticos

Como já disse aqui, a lista de discussão de haiku brasileira "haiku -l" tem estado a discutir e publicar haiku eróticos. Foi uma descoberta saber que todos os haidjin tinham na gaveta uns haiku "para maiores de 18 anos". A produção é enorme (e eu tenho contribuído) mas queria deixar aqui dois deles de um poeta de que só sei um nome: Pimentel. Vejam lá se eles não têm aquela brejeirice tão latina quando se aborda o erotismo...

Promíscuo xadrês.
O bispo come a rainha
nas barbas do rei !

Em teus olhos, o verde
em tua boca, o vermelho.
Paro ou continuo ?

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Ainda há para onde olhar?

Nos últimos dias andei a olhar para os olhares. E encontrei olhares incompreendidos de crianças, olhares tristes e angustiados de idosos, olhares artificiais, "plásticos" e impacientes dos adultos...
Nem os animais escapam: olhares de vidas sem um sentido que não seja carne para o prato ou de uma draconiana disciplina em troca da efémera sobrevivência.
E o olhar para a Natureza? Os bocados aprazíveis e nos fazem suspirar a alma estão tão confinados que parecem cenários.
Há (ainda) olhares e lugares para olhar? Claro que sim... mesmo os vazios e tristes têm uma mensagem mas... cada vez mais o sentido, a história, tem que ser criada por quem vê. Assim rompeu a arte no século XX com o belo e com a imitação.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Açores III / Azores III

Do vento, na ilha,
só permanece o momento
em que ele parte.




From the wind, in the island,
only the moment of its departure
remains.

Açores II

Alguém deixou este comentário em forma de haiku. Gosto da inevitabilidade com que o vento das ilhar pertence ao mar...

Vento sobre a terra
Sopra sempre do mar
nas ilhas

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Açores

Vento sobre o mar
empurra para sul as velas.
No cais, vou com elas.

Wind over the sea
pushes the sails to south.
On the shore, I go with them.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Agua de Verão / Water in Summer

Que água pesada
cai na bacia da fonte!
Tarde de Verão.


What a heavy water
falls in the fountain pond!
Summer afternoon.

domingo, 27 de julho de 2008

Senhoras e senhores: mais um haijin!

Desta vez é Paulo Roberto Cechetti poeta brasileiro de Niterói que acaba de editar um livro de haikai eróticos. Ainda não lemos este último livro mas aqui ficam dois haikai da sua autoria para abrir o apetite...

Solidão

Essa solidão à mesa,
em pleno almoço:
mastigar a vida!

Motocicleta

Na rua de lua,
um vaga-lume eletrônico:
a motocicleta.

Espelho meu...

- Espelho meu,
há alguém mais burro do que eu?
- Há: a Bronca de Neve!

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Fim de semana / Week end

Fim de semana
os passaros também parecem
mais alegres.


Week end
birds seem happier
too.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Uma variação...

Livre da gaiola
o canário vôa à tardinha.
Carpe diem!

Vôo do canário / The canary flight

Ao fim do dia
um canário em vôo errante.
Carpe diem!


At twilight
a canary flies wandering.
Carpe diem!

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Urubus

Em Portugal não temos urubus. Numa visita a Florianópolis lembro-me de os ter visto pela primeira vez de perto e ter ficado "grudado" no seu andar rápido aos saltos e no seu andar lento, oscilando o corpo de um lado para o outro, como velhos cheios de artroses. E é em memória destas memórias com sabor brasileiro que aqui vai:


Urubus na praia
tirando sarro dos barcos
parados no mar.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Autoclismo.../ Flushing...

No meio da noite
o turbilhão da descarga.
Fica o silêncio a sarar.


In the middle of the night
the flush of the toillet.
The silence is healing.